Sobre a mesa do Papa, um 'pró-memória' contra o Superior Geral dos Jesuítas. Por uma quase heresia

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03 Abril 2017

Dos sacerdotes nascidos na diocese de Carpi, que o Papa Francisco visitou neste domingo, 2 de abril, há um em particular que lhe causa problemas.

A reportagem é de Sandro Magister, publicada por Settimo Cielo, 31-03-2017. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

Chama-se Roberto A. Maria Bertacchini, que formou-se na escola de três jesuítas da primeira ordem: os padres Heinrich Pfeiffer, historiador de arte e professor na Universidade Gregoriana, Francesco Tata, que tinha sido provincial da Companhia de Jesus na Itália, e Piersandro Vanzan, renomado escritor de "La Civiltà Cattolica". Especialista na figura de Santo Agostinho, é autor de livros e ensaios em revistas de teologia.

Na semana passada, Dom Bertacchini enviou a Francisco e ao cardeal Gerhard L. Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, um 'pró-memória' de seis páginas, bastante crítico, com os pontos levantados em uma recente entrevista com o novo Superior Geral da Companhia de Jesus, o venezuelano Arturo Sosa Abascal, que é muito próximo do Papa.

É uma tese, escreve Dom Bertacchini, "tão grave que não se pode permanecer em silêncio sem ser seu cúmplice", porque corre-se o risco de "levar a um cristianismo sem Cristo".

O texto completo do "pró-memória" pode ser lido, em italiano, clicando aqui

Publicamos, a seguir, um resumo.

A Entrevista do Superior Geral dos Jesuítas criticada por Dom Bertacchini foi concedida ao Vaticanista suíço Giuseppe Rusconi e publicada no blog Rossoporporano último dia 18 de Fevereiro, depois de ter sido verificada palavra por palavra pelo próprio entrevistado.

Pró-memória

Sobre a entrevista do Superior Geral dos jesuítas sobre a falta de confiabilidade nos Evangelhos, por Roberto A. Maria Bertacchini.

Em uma entrevista concedida em fevereiro do ano passado, o Superior Geral dos Jesuítas insinuou que as palavras de Jesus sobre a indissolubilidade do matrimônio não são um ponto de estabilidade teológica, mas um ponto de partida da doutrina que deve se desenvolver mais tarde, de maneira conveniente. Algo que, em última análise, poderia acontecer defendendo exatamente o contrário, ou seja, a compatibilidade do divórcio com a vida cristã. Esta iniciativa resultou, na minha opinião, em uma situação explosiva.

Obviamente, Arturo Sosa Abascal S.J. toma muito cuidado para não cair em uma clara heresia. E isso, de certa forma, é ainda mais grave. É necessário, portanto, resumir toda a sua linha de raciocínio.

A questão que se coloca é se os evangelistas são confiáveis, ao que ele diz que é preciso discernir. Portanto, não fica claro que eles o sejam. Uma afirmação tão grave deve ser amplamente discutida, porque é possível até mesmo admitir o erro como detalhe narrativo; o que é completamente diferente, no entanto, de invalidar - e colocar em dúvida - a veracidade dos ensinamentos da doutrina.

Não importa: nosso jesuíta não entra no mérito da questão, mas apela ao papa muito habilmente. E como Francisco até o momento da entrevista nunca havia citado passagens em que Jesus afirmasse a indissolubilidade do matrimônio, a respeito da questão de casais separados e assim por diante, a mensagem implícita do nosso jesuíta é clara: se o papa não cita essas passagens, significa que ele tenha discernido e que não as considera palavras de Jesus. Então, consequentemente, não seria obrigatório. Mas todos os Papas têm ensinado o contrário! E por que isso importa? Poderiam estar errados! Ou talvez tenham dito e ensinado coisas que eram apropriadas para o seu tempo, mas que não são para o nosso.

Que fique bem claro: o ilustre jesuíta não disse isso "apertis verbis", mas sugeriu, deu a entender. E assim ocorre uma cisão interpretativa da pastoral familiar do Papa, se afastando do ensino tradicional. Na verdade, hoje "sabemos" que provavelmente - na verdade, quase com certeza - Jesus nunca tenha ensinado que o casamento é indissolúvel. Foram os evangelistas que entenderam mal.

Um cristianismo sem Cristo?

Essa questão é tão grave que não se pode permanecer em silêncio sem ser cúmplice. O risco é levar a um cristianismo que reduz a mensagem de Jesus; ou seja, um cristianismo sem Cristo.

No Evangelho da missa do último 24 de fevereiro a passagem do Evangelho era a de Marcos 10: 2-12, sobre o divórcio. Pois bem, será que é aceitável pensar que não se sabe se Jesus disse essas palavras e que elas não seriam então obrigatórias?

O "sensus fidei" nos diz que os evangelistas são confiáveis. Em vez disso, o Superior Geral dos jesuítas rejeita essa confiabilidade e ignora o fato de que São Paulo também havia recebido essa doutrina da Igreja como advinda de Jesus. E, como tal, ele a havia transmitido às suas comunidades: "aos casados mando, não eu mas o Senhor, que a mulher não se aparte do marido. Se, porém, se apartar, que fique sem casar, ou que se reconcilie com o marido; e que o marido não deixe a mulher. (1 Cor 7:10,11).

A coerência desta passagem com os textos dos Evangelhos Sinóticos sobre divórcio e adultério é muito clara. E seria absurdo imaginar que eles dependam de Paulo e não de tradições pré-pascais. Mas não só. Em Efésios 5:22-33, Paulo retoma o ensinamento de Jesus e até mesmo o reforça. Retoma citando a mesma passagem de Gênesis citada por Jesus e reforça que Cristo ama a Igreja indissoluvelmente, a ponto de dar a sua vida, e para além da vida terrena. E Paulo coloca esta fidelidade como modelo de fidelidade conjugal.

Portanto, é evidente que há uma continuidade clara e manifesta dos ensinamentos entre as pregações pré e pós-pascais. Também fica evidente a descontinuidade com o judaísmo, que o divórcio conversava. Portanto, se o próprio São Paulo funda tal descontinuidade em Cristo, faz sentido questionar os Evangelhos? De onde veio este salto que inspirou a prática da Igreja antiga, se não de Cristo?

Note-se que na atmosfera greco-romana o divórcio era aceito e, além disso, havia também o concubinato que, sem dificuldade alguma, poderia levar a um vínculo conjugal, como demonstra, por exemplo, a história de Santo Agostinho. E na historiografia vale o princípio de que a inércia cultural não se altera sem uma causa. Assim, como a mudança foi historicamente demonstrada, qual seria sua causa se não Jesus? E se foi Cristo, por que duvidar da confiabilidade dos Evangelhos?

Finalmente, se Jesus não pronunciou essas palavras, de onde vem o comentário drástico dos discípulos ("Se esta é a situação entre o homem e sua mulher, é melhor não casar"), em Mateus 19:10? Entre os discípulos que não se saíram bem estava Mateus: eles demoram a compreender e apegar-se às tradições que Jesus contesta. Portanto, a partir de um ponto de vista historiográfico, o trecho de Mateus 19: 3-12 é plenamente confiável, por razões de crítica tanto interna quanto externa.

O horizonte dogmático

Por outro lado, afirmar que não se sabe se Jesus de fato pronunciou essas palavras e que, em essência, elas não seriam obrigatórias, é de fato "uma heresia", porque nega a inspiração das Escrituras. Na Segunda Carta a Timóteo, 3, fica muito claro:

"Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a argumentar, para corrigir, para educar na justiça".

"Toda" inclui, evidentemente, Mateus 19: 3-12, ou então se afirmaria que há "outra" palavra que prevalece sobre a própria Escritura e sua inspiração. Na verdade, afirmar que algumas palavras de Jesus não são confiáveis é abrir uma brecha na represa dos ‘fides quae’. Esta brecha desintegraria toda a barragem. Exemplifico abaixo:

a) Se Jesus não proferiu essas palavras, os evangelistas não são confiáveis. Se eles não são confiáveis, não são verdadeiros. E se não são verdadeiros, tampouco podem ter sido inspirados pelo Espírito Santo.

b) Se Jesus não disse essas palavras, será que realmente disse todas as outras que aceitamos como boas? Quem não é confiável em uma questão inovadora, também pode não ser em outras, como a ressurreição. E se para dar o sacerdócio às mulheres a "La Civiltà Cattolica" não se questiona sobre colocar em discussão um magistério solene invocado como infalível? Não seria o caos? A que autoridade bíblica recorrer se os próprios exegetas estão permanentemente e cada vez mais divididos? É assim que a barragem desmorona.

E não termina por aí, porque se seguirmos as dúvidas do Superior dos jesuítas não só humilhamos São Paulo, mas também o Vaticano II. Na verdade, está escrito na "Sacrosanctum Concilium" 7:

"Cristo está sempre presente na sua Igreja [...]. Está presente na sua palavra, porque quando a Igreja lê a Sagrada Escritura, é Ele que fala."

Como as passagens sobre a indissolubilidade do matrimônio são lidas na missa e, mais especificamente: Marcos 10: 2-12 na sexta-feira da sétima semana do Tempo Comum e no 27º domingo do ano B; Mateus 19: 3-12 na sexta-feira da 19ª semana do Tempo Comum e Mateus 5: 27-32 na sexta-feira da 10ª semana, deduzimos que o Vaticano II atribui estas palavras à autoridade de Jesus.

Portanto, quem apoia as dúvidas do Superior Geral dos jesuítas não renega somente o Vaticano II e uma constituição dogmática, mas duvida da tradição ao ponto de reduzir a própria autoridade do Mestre Jesus a uma abstração inatingível. Assim, estamos diante de um verdadeiro bombardeio inútil perante o qual é necessária uma forte reação.

Concluindo: a transição de uma religiosidade da lei para a do discernimento é sagrada, mas está cheia de armadilhas e exige uma formação cristã de excelência que hoje, infelizmente, é escassa. Exige também um amor verdadeiro e uma deferência à Palavra divina.

Em qualquer caso, ao adular o mundo todo com o único objetivo de evitar conflitos e perseguições, não apenas se é covarde, mas se está totalmente fora do Evangelho, que exige franqueza e força em defesa da Verdade. Jesus não teve medo quando estava na cruz, nem os apóstolos. Por isso, São Paulo é claro:

"Todos os que querem mostrar boa aparência na carne, esses vos obrigam a circuncidar-vos, somente para não serem perseguidos por causa da cruz de Cristo." (Gal 6: 12).

Estar circuncidados significava, por um lado, entrar na religião reconhecida por Roma como legítima e, por outro, agradar o pensamento da época. São Paulo sabe que a verdadeira circuncisão é a do coração e não cede.

Carpi, em 19 de março de 2017

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Uma apostila. No texto completo da "Pró-memória", Dom Bertacchini escreve que o Papa Francisco, em 24 de fevereiro, poucos dias após a publicação da entrevista com o Padre Sosa, "reprovou as posições do Superior Geral dos Jesuítas" dedicando toda a sua homilia na Santa Marta - algo que não tinha feito antes - à passagem do Evangelho de Marcos com as claríssimas palavras de Jesus sobre casamento e divórcio.

Em sua homilia, de acordo com Dom Bertacchini, Francisco respondeu às perguntas de Padre Sosa observando que "Jesus respondeu aos fariseus em relação ao divórcio e, portanto, o evangelista é confiável".

Mas, na realidade, o comentário do Papa Francisco a esta passagem do Evangelho de Marcos parecia bastante tortuoso, segundo os resumos autorizados da homilia publicada pela Rádio Vaticana e "L'Osservatore Romano".

Na verdade, em um determinado momento, o Papa chegou a dizer que "Jesus não responde se [o divórcio] é legal ou não".
E onde o Papa polemiza - justamente, escreve Dom Bertacchini - com o que chama de "casuística", surge uma contradição. O que a encíclica "Amoris laetitia" pede que seja diferente quando solicita a distinção caso a caso sobre quem deve admitir a comunhão e quem não deve, entre os divorciados que voltaram a se casar e que vivem "more uxorio"?

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