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03 Abril 2017

O que é a espiritualidade hoje? E quão material é a espiritualidade hoje? As perguntas são de dois jovens estudiosos, Andrea Colamedici e Maura Gancitano, que publicaram o livro Tu non sei Dio [Tu não és Deus], graças a uma recém-formada e intrigante editora italiana, Tlon.

A reportagem é de Antonello Guerrera, publicada no jornal La Repubblica, 31-03-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Tu non sei Dio é uma fenomenologia da espiritualidade contemporânea e, acima de tudo, a evidente crítica ao desenfreado comércio a ela relacionado. “Runas, tarô, ioga, limpeza da aura, equilíbrio dos chakras, espiritismo, esoterismo, naturopatia, ritualidades havaianas, instrumentos de adivinhação célticos” etc.: tudo levaria a pensar em uma reaproximação substancial do século XXI à esfera mais imaterial e ambiciosa da humanidade, depois do despedaçamento do poder religioso.

Na realidade, de acordo com Colamedici e Gancitano, essa temporária caça ao exílio imaterial nada mais é do que mais uma ilusão consumista do mundo ocidental: isto é, chegar a “Deus” ou, melhor, sentir-se Deus simplesmente comprando um livro de autoajuda, “manuais de felicidade em 24 horas” ou empreendendo técnicas de meditação para ter sucesso na vida.

Para os autores desse ágil ensaio, que analisa o magma atual dissecando as suas raízes, de Descartes a Hillman, esta é apenas mais uma exibição do narcisismo contemporâneo na era das redes sociais, e não a verdadeira espiritualidade, que, ao contrário, precisa de tempo, esforço e compromisso interior.

Um fenômeno que coincidiu com o nascimento da sociedade capitalista e com a subsequente “epidemia de egocentrismo que contagiou” também a espiritualidade contemporânea, hoje “no estado gasoso”, como a arte, de acordo com Yves Michaud.

Diz Cioran, citado por Colamedici e Gancitano no livro, “depois de engolir o mundo, quando ficamos sozinhos, orgulhosos com a nossa obra, Deus, rival do Nada, parece-se a uma última tentação”. Uma tentação ainda válida e crucial para a humanidade, escrevem as autoras. Mas hoje perseguida de modo superficial.

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