Procuram-se padres casados, é o apelo de patriarca do Iraque

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25 Março 2017

Se estão faltando padres, que haja uma aposta mais determinada na ordenação sacerdotal de homens casados. Esta foi a indicação que o Patriarca Louis Raphael I Sako, Primaz da Igreja caldeia, enviou aos bispos e às comunidades caldeias em exílio, que nos últimos anos têm crescido devido aos fiéis e pastores que fugiram das convulsões iraquianas.

A entrevista é de Gianni Valente, publicada por Vatican Insider, 23-03-2017. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

As Igrejas orientais de tradição apostólica parecem desgastadas por fatores que não estão limitados à violência jihadista. No Iraque, antes de 2006, os caldeus eram, pelo menos, 800 mil. Só que agora existem menos de 300 mil. Os outros estão espalhados pelo mundo, e não há sacerdotes caldeus suficientes para cobrir todas as cidades aonde surgem novas comunidades. O Patriarca Louis Raphael acredita que, antes de mais nada, não se pode reduzir o número de sacerdotes que permanecem no Iraque. Pelo contrário, isso pioraria a situação, pois colocaria em perigo as comunidades que já estão em extinção, justamente no mesmo lugar em que esta Igreja autóctone floresceu. Este foi o motivo de seu chamado, dirigido, em primeiro lugar, aos bispos que lideram as dioceses em exílio: para enfrentar o problema, é preciso buscar novas soluções, incluindo a intensificação das ordenações sacerdotais entre os homens casados.

Eis a entrevista.

Sua Beatitude, a fuga da maior parte dos caldeus e das comunidades caldeias para fora do Iraque suscitam novos problemas, inclusive em relação às atividades pastorais?

Antes, toda a Igreja Caldeia estava no Iraque. Era mais fácil garantir a todos um cuidado pastoral, apesar dos limites e problemas. Nos últimos quinze anos, após as intervenções militares ocidentais contra Saddam, há uma migração surpreendente. Agora os caldeus estão por toda parte, e as comunidades de todo o mundo pedem-nos por sacerdotes. Mas não há sacerdotes suficientes para enviá-los a todos os lugares. E não podemos esvaziar de padres as paróquias e dioceses do Iraque. A Igreja caldeia nasceu neste território, e o seu futuro só pode estar vinculado ao mesmo.

Por que você acha isso?

Em outros países, os caldeus, depois de três ou quatro gerações, perdem todos os laços com a tradição eclesial de seus pais. E os sacerdotes que migram e não contam com uma formação adequada, muitas vezes acabam dissipando sua vocação. Nas localidades iraquianas, e também em Bagdá, as comunidades se reúnem ao redor das igrejas, e os padres sempre têm coisas para fazer. No Ocidente, com o ritmo de vida ocidental, muitos deles se ocupam apenas nos fins de semana. E às vezes eles acabam utilizando mal o resto do seu tempo. Um deles, na América do Norte, gastou em um cassino 500 mil dólares que haviam sido reunidos para acolher os refugiados. Outros abandonaram o sacerdócio para casar.

O Sínodo caldeu também deve enfrentar o problema dos "clérigos errantes"...

Alguns padres e monges, antes de 2013, abandonaram suas dioceses e mosteiros e foram embora sem o consentimento dos superiores. Em outubro de 2014, um decreto patriarcal, aprovada pelo Sínodo, suspendeu alguns deles de suas vidas eclesiásticas, depois de terem recusado o convite para voltar à sua pátria. Um deles, um monge, foi para a América do Norte para participar do casamento de sua irmã, e nunca mais voltou. Lá obteve uma autorização de residência, dizendo que não queria voltar para o Iraque, porque lá ele era perseguido. Ele foi suspenso e agora, há poucos dias, converteu-se à Igreja Anglicana e vai se casar. Estes são casos que dilaceram as comunidades já fragmentadas e dispersas.

Que conselho o senhor daria para as comunidades que pedem padres?

Escrevi uma mensagem para dizer às comunidades que estão fora do Iraque, com seus bispos, que não podem contar tanto conosco. As comunidades devem procurar vocações no local onde se encontram. Elas devem perceber que as circunstâncias lhes exigem que tomem iniciativas para enfrentar o problema da falta de vocações sacerdotais aonde eles estejam: na Austrália, Canadá, Estados Unidos e Europa, e inclusive promovendo ordenações sacerdotais de homens casados. Para nossa disciplina canônica, como para as demais Igrejas do Oriente, a ordenação sacerdotal de homens casados não é um problema que provoque disputas teológicas. É uma realidade. Sempre tivemos.

Há quantos na Igreja Caldeia?

No Iraque eles são cerca de dez. Nas dioceses fora do Iraque, pelo menos cinco ou seis. Conheço alguns deles, se dedicam muito ao seu ministério sacerdotal. Eu mesmo ordenei dois, recentemente, que desempenham o seu ministério na Europa: um na Alemanha e outro na Grécia. Eles estão totalmente integrados em suas sociedades, nos países onde cresceram e se casaram.

Antes, as pessoas tinham alguns problemas sobre isso, especialmente fora de seus territórios "tradicionais"...

As hierarquias católicas latinas se opuseram durante muito tempo ao fato de que padres casados, de Igrejas católicas orientais, tenham sido ordenados e desempenharam o seu ministério sacerdotal na América ou na Europa Ocidental. Diziam que ver padres católicos casados provocava "escândalo" entre os fiéis e que colocava em dificuldades os padres católicos de rito latino, que não podem se casar. Mas são problemas do passado. Em 2014, o Papa Francisco publicou um documento com o qual ele cancelou qualquer limite geográfico para a ordenação e o exercício do ministério pastoral pelos sacerdotes casados nas Igrejas católicas orientais.

Com que critérios convém abordar a questão da ordenação sacerdotal de homens casados, mesmo na Igreja Latina?

Convém partir não de questões abstratas, mas a partir da realidade dos fatos e das verdadeiras exigências pastorais. A realidade dos fatos nos diz que a falta de vocações sacerdotais existe, mas também nos diz que há uma percepção diferente do casamento e da sexualidade em relação à 60 anos atrás, inclusive nas igrejas: se bem me lembro, o que nos transmitiam no seminário... Também na Igreja Ocidental: a possibilidade de ordenar homens casados não foi cancelada nem mesmo pelo Concílio de Trento.

O Papa Francisco, na entrevista com "Die Zeit", repetiu que, de qualquer maneira, o "celibato opcional" dos sacerdotes não é uma solução para enfrentar a crise das vocações...

Claro, não há soluções mágicas para o problema da diminuição das vocações. E ninguém pode dizer que a emergência é resolvida mecanicamente, ao ordenar homens casados. Mas sempre vale a pena lembrar que o celibato sacerdotal não é um dogma de fé: é uma disciplina. E que é preciso tomar as decisões sempre tendo em conta a salvação das almas como último critério.

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