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10 Março 2017

Eles abandonaram a sua religião sob coação. Desde o império Romano até Daech (Estado Islâmico) hoje, a Igreja se vê no confronto com a questão da sua integração.

A reportagem é de Jérôme Ancibero, publicada por La Vie, 02-02-2017. A tradução é de Juan Luis Hermida

Como julgar os cristãos que foram forçados a abjurar publicamente da sua fé contra a sua vontade? A questão que é o núcleo de Silêncio recebeu durante a história do cristianismo diferentes tipos de respostas. Não que a teologia tenha evoluído radicalmente sobre o assunto – os princípios que levam a uma eventual reintegração permanecem essencialmente os mesmos: reconhecimento da culpa pela pessoa que negou a sua fé, estimação da gravidade dependo da natureza do constrangimento, elaboração de um caminho de reconciliação – mas, as situações vividas variam, é a sensibilidade das épocas também. É no século III que o problema surge pela primeira vez de maneira massiva, exigindo uma resposta oficial dos bispos. Até agora, as situações de abjuração foram realmente muito raras e podiam ser tratadas caso a caso.

Aqueles que caíram, os lapsi

Em janeiro de 250, o imperador romano Décio exige que todos os súbditos realizem um ato público de apego ao deus do Império, na sua diversidade - poderíamos muito bem sacrificar para Júpiter capitolino, como para Nêmeses para Esmirna ou para Serápis para Alexandria... -, esta foi uma maneira de atrair o favor divino, mais também uma forma de afirmar à submissão a nova dinastia. Concretamente, era para que os cidadãos romanos fossem para um dos templos e firmassem na presença de testemunhas uma declaração, e eventualmente realizassem um gesto ritual. Em caso de recusa, as autoridades tentam levar a pessoa para “à razão” às vezes pelo discurso, mas a maioria das vezes por ameaças (prisão, confiscação de bens...). Alguns cristãos recusaram de abjurar, eles foram mortos, e outros torturados. Muitos dos crentes abjuraram sem dúvida a maioria. Quando as persecuções param depois de um ano, eles se questionam sobre a necessidade de reintegrar essas pessoas, os lapsi (“aqueles que caíram”) quando eles voltam para a comunhão.

Não a reintegração sem penitência

Os debates são tempestuosos. Em efeito, reintegrar muito facilmente os lapsis, seria desvalorizar a coragem de aqueles que não caíram, quer dizer os mártires, os confessores (aqueles que assumiram a sua fé frente às autoridades é que acabaram morrendo) e os “cristãos fiéis” (aqueles que se esconderam ou que fugiram para não ter que sacrificar aos deuses pagãos). Alguns bispos ficaram sob pressão dos fiéis, outros defenderam posições mais frouxas (reintegração rápida dos lapsis), outros recusaram toda reintegração de aqueles que tinham traído sua fé. O cisma era uma ameaça, e assim muitos concílios locais foram necessários para unificar as práticas. Finalmente se chegou a um acordo sobre um principio geral: não a reintegração sem um período de penitência, que pode ser muito longo. Esta posição média foi ilustrada por Cipriano de Cartago na sua obra De Lapsis, onde ele distingue diferentes atitudes frente à persecução e se mostra muito rigoroso nessa questão da penitência, deixando que se apresentem a comunhão e o perdão, concedido muito rapidamente quase como ciladas do Adversário para fazer cair às comunidades. Ele evoca mesmo uma “segunda perseguição”...

A questão ressurge de maneira massiva nos séculos XVI e XVII. Em torno ao Mediterrâneo foi jogada uma verdadeira guerra marítima entre o poder cristão da época e o Império otomano. Capturados por corsários ligados aos portos do norte da África (Argel, Tunísia e Bizet...) ou presos na costa, milhares de cristãos viram-se deportados em território otomano. Os mais ricos geralmente são trocados contra resgates; os outros ficavam ali e finalmente eram vendidos como escravos. Alguns foram libertados e levaram carreiras brilhantes. Ainda surge para todos à questão da conversão. Na época, os estavam fora da religião dominante, não tinham liberdade religiosa... Os historiadores Bartolomé Bennassar e Lucile Bennassar au Seuil uma obra sobre o sujeito, Os cristãos de Alá (reeditada por Perrin, coleção Tempus, 2006), que estuda essa jornada incrível.

Entre esses convertidos cristãos ao Islã, a maioria sob coação, alguns acabam por voltar para suas casas, ou em todo caso num país cristão, alguns contra a sua vontade, por exemplo, aqueles que se transformaram em corsários por causa dos Otomanos, foram capturados novamente por seus correligionários... A Inquisição tomou logo todos esses casos. Os acusados tentaram justificar a sua apostasia. Entre os convertidos à força e que se tornaram muçulmanos sinceros, aqueles que afirmam ter sido sempre muçulmanos, os convertidos voluntários, aqueles que o fizeram como uma estratégia de sobrevivência, aqueles que invocam a distinção entre “conversão da boca” e “conversão do coração”, os casos são numerosos, e os inquisidores excelentes para distingui-los.

Geralmente os renegados que voltavam voluntariamente em países cristãos para apresentar-se frente às autoridades eclesiásticas obteriam rapidamente a absolvição. O procedimento era mais longo para aqueles que eram denunciados.

Os Cristãos de Oriente e o Daech

Hoje, os cristãos enfrentam o Daech através de algumas das experiências vividas pelos distantes correligionários. Em teoria são três as opções: permanecer cristão pagando uma taxa (sem poder praticar a sua religião livremente); converter se ao Islã pronunciando a shahada, ou seja, a profissão de fé muçulmana, ou finalmente partir sendo despojado de todas as suas posses.

No Iraque, nas vilas cristãs da planície do Nínive tomadas pelo Daech no verão de 2014, a grande maioria das pessoas se foi durante a noite, justo antes que chegassem os jihadistas. As Igrejas locais afirmam, portanto, que eles preferiram deixar para trás todo o que possuíam do que viver baixo a dominação do Estado Islâmico. Como tal, eles são “testemunhas da fé” (lês stantes “aqueles que possuíam” de Cipriano de Cartago).

Algumas centenas que não conseguiram sair imediatamente foram caçados pelos jihadistas algumas semanas após da tomada do controle da planície de Nínive. Entre essas pessoas, alguns recitaram a shahada. Eles confessaram para o bispo lhes concedeu a absolvição. Existe até um ritual especial para esse caso particular. Algumas pessoas não puderam partir. Em Quaragosh, por exemplo, duas velhas mulheres foram achadas quando a libertação da cidade pela armada iraquiana. Elas contaram que recitaram a shahada ao mesmo tempo em que faziam uma oração “no seu coração”. Também não se tem noticias do paradeiro de dezenas de pessoas. Algumas de entre elas podem ter sido assassinadas por não querer renegar da sua fé. Em Raqqa a capital (da Síria) do Estado islâmico alguns cristãos vivem pagando a Jizya (imposto obrigatório para os não muçulmanos e que professam uma religião do Livro). Nosso repórter Laurence Desjoyaux fez o registro da situação num dos seus artigos em maio de 2015 (“A estratégia do Daech cara a cara dos cristãos” consultar aqui).

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