Igreja de Bergoglio, mãe e não mais madrasta. Artigo de Alberto Melloni

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08 Março 2017

“A Igreja, de vez em quando, é o lugar onde a graça faz o Evangelho viver. E foi a graça que fez com que se entendesse que, justamente na vida tão reduzida a nada a ponto de desejar deixá-la, há o traço do Filho de Deus, feito homem para se curvar até o sepulcro e os infernos.”

A opinião é do historiador italiano Alberto Melloni, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, em Bolonha. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 07-03-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Existem 11 anos e uma graça entre aquilo que a Igreja dispôs para Piergiorgio Welby no gélido dezembro de 2006 e aquilo que aconteceu nesta tímida primavera para Fabiano Antoniani. Na época, por ordem do vigário de Roma, negou-se o ingresso na igreja a um homem que tinha sofrido muito e que tinha pedido para desligar as máquinas com as quais estava sedado. Pelo medo de dar um palco aos Radicais, a Igreja acabou usando um cadáver para fins políticos, para violar o cânone 1.184 e para criar um escândalo.

Hoje, diante do gesto claramente suicida de Fabiano Antoniani (que se enquadraria em pouquíssimas legislações sobre o fim da vida vigentes hoje na Europa), a Igreja de Milão reconhece nele um filho e acolhe o seu corpo. Não por uma esperteza de sinal oposto, como tuitaram os “politicantes” de um país com a alma em pedaços: mas porque houve um milagre.

A Igreja, de fato, de vez em quando, é o lugar onde a graça faz o Evangelho viver. E foi a graça que fez com que se entendesse que, justamente na vida tão reduzida a nada a ponto de desejar deixá-la, há o traço do Filho de Deus, feito homem para se curvar até o sepulcro e os infernos.

A Igreja deve acolher esse corpo para venerar esse mistério. A Milão de Angelo Scola – o arcebispo à espera do papa e de um sucessor – fez isso. Da Igreja madrasta à Igreja mãe. Por uma vez.

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