O gesto de Collins e a resposta de Müller, as razões de um mal-estar

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08 Março 2017

O gesto dramático de Marie Collins, ao deixar a comissão vaticana para a Proteção dos Menores, foi uma verdadeira sacudida, como a definiu o secretário de Estado, Pietro Parolin. A irlandesa, que sofreu os abusos de um sacerdote quando tinha 13 anos, indicou que renunciou devido a algumas resistências na cúria romana. Especificamente, o episódio em questão foi a decisão da Congregação para a Doutrina da Fé de não aceitar um pedido da comissão, que convidada a responder sempre diretamente às vítimas que escreveram.

A reportagem é de Andrea Tornielli e publicada por Vatican Insider, 07-03-2017. A tradução é de André Langer.

Alguns dias depois, interveio com tranquilidade o cardeal Gerhard Ludwig Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, explicando que seu dicastério “tem a tarefa de fazer um processo canônico. É bom que o contato pessoal com as vítimas seja feito pelos pastores locais. E quando chega uma carta, sempre pedimos ao bispo para que seja ele quem acompanha o cuidado pastoral da vítima, esclarecendo que a Congregação fará todo o possível para fazer justiça. É um mal-entendido que este dicastério, em Roma, possa se ocupar de todas as dioceses e ordens religiosas do mundo. Não se respeitaria o princípio legítimo da autonomia das dioceses e da sua subsidiariedade”.

As palavras do cardeal, que sempre se mostrou muito firme na luta contra a pederastia clerical, podem ser explicadas desta maneira: a Doutrina da Fé faz muitos esforços para realizar com rapidez os processos, que duram anos, devido ao seu grande número. Para responder diretamente centenas de cartas se necessitaria de mais recursos humanos. A própria Comissão para a Proteção dos Menores, que não tem a tarefa de ocupar-se de casos individuais, mas de propor iniciativas para enfrentar o fenômeno protegendo as crianças, também não consegue responder a todas as cartas e indicações que recebe. Devemos lembrar também que a Congregação para a Doutrina da Fé tem funções de tribunal, e é preciso levar em conta nas modalidades da resposta, que não deveria condicionar o julgamento final. É verdade que, contando com as forças necessárias, se poderia responder diretamente notificando o recebimento da denúncia ou do pedido. Mas é preciso perguntar qual seria o efeito se a vítima recebesse somente uma acusação de recebimento com linguagem notarial.

Efetivamente, não são raros os casos em que as vítimas contam ter sido feridas novamente, depois dos abusos sofridos, pelas respostas muito burocráticas ou defensivas por parte dos bispos e das cúrias diocesanas. Quando, na comunicação, prevalece a linguagem jurídica e as preocupações com o desenvolvimento dos possíveis processos – e o posterior pedido de indenização – não há nem empatia nem a capacidade para demonstrar compaixão e proximidade com quem relata abusos sexuais.

Ao mesmo tempo, devemos cuidar para não cair nisso que Müller definiu como um clichê, isto é, a representação do “papa bom” e da “cúria má” que só quer criar obstáculos. Não há dúvida de que este clichê foi aplicado na história mais ou menos recente da Igreja. E tampouco há dúvida de que em alguns casos não se tratava de um clichê, mas de uma realidade: como não recordar as oposições e as resistências mais ou menos encobertas diante das aberturas de São João XXIII? As distâncias que alguns tomaram de São João Paulo II? Ou as lentidões com que (não) eram colocadas em prática as indicações de Bento XVI? Agora, além disso, os exemplos possíveis são abundantes. Mas o cardeal Müller tem razão ao convidar para não generalizar. Além disso, uma leitura atenta do que declarou a própria Marie Collins demonstra que ela mesma não quis fazer esta generalização segundo o clichê do “papa bom” e da “cúria má”, reconhecendo a existência de muitos escritórios vaticanos que colaboram com a comissão anti-pederastia.

Mas também é verdade que não podemos ignorar as solicitações, os gritos que estão por trás da decisão de Marie Collins. Gritos que chegam daqueles que viveram a terrível experiência dos abusos de um menor, os silêncios, as cumplicidades, as ocultações, os menosprezos e, sobretudo, essa sutil e perversa capacidade clerical de fazer com que a vítima pareça culpada, provocando, dessa maneira, complexos de auto-acusação justamente nos meninos ou meninas que sofreram abusos, sem compreender a fundo quão profunda é a ferida na alma dos pequenos violados e quão grave é o crime horrendo quando aqueles que o perpetram são os sacerdotes a quem as famílias encomendam os seus filhos para que os eduquem na fé. Deveriam ser os bispos, recordou o cardeal Müller, aqueles que mostram acolhida, compaixão, compreensão, proximidade. São os bispos em suas respectivas dioceses que deveriam responder. Mas é compreensível que as vítimas também peçam respostas a Roma.

Existem as regras da justiça, do processo canônico, das normas quase emergenciais promulgadas por Bento XVI, que foram confirmadas por seu sucessor Francisco. O que deve aumentar é uma mentalidade e uma cultura capazes de dar o testemunho da proximidade e da compreensão às vítimas. Uma proximidade e uma compreensão que, seguramente, não têm a ver com as vírgulas do Direito Canônico nem com a lista do que compete a determinado dicastério ou não. Além disso, não devemos esquecer o testemunho pessoal dos últimos dois Pontífices, que em repetidas ocasiões e com coragem (podendo inclusive provocar maus humores na cúria ou na Igreja) reuniram-se com algumas vítimas. Acolheram-nas, ouviram-nas e choraram com elas. Deram-lhes uma resposta.

Como sair do “impasse” e ter presente tanto a realidade contingente da cúria romana e as regras processuais, como o grito representado pela decisão de Marie Collins? Antes de mais nada, abandonando os extremismos, as visões que pintam com tons escuros os ambientes curiais como se fossem irredimíveis, talvez para exaltar a figura papal (como aconteceu e continuou acontecendo nos últimos 50 anos). E também abandonando esse sutil sarcasmo clerical que, sob o esconderijo dos códigos, demonstra irritação quando uma comissão vaticana, que inclui mulheres e ex-vítimas, pretende fazer recomendações aos prelados, na esperança de que estes as levem em consideração. O que, talvez, seja necessário, é maior sensibilidade, um excesso de sensibilidade, buscando soluções novas, que, sem interferir nos processos, possam oferecer o testemunho de que a Igreja está verdadeiramente perto daqueles que sofrem estes abusos.

Na verdade, não está escrito em lugar algum que responder a cada uma das vítimas seja uma atribuição da Congregação para a Doutrina da Fé. Outro organismo poderia fazê-lo, autônomo e independente dos procedimentos jurídicos, capaz de dar diretamente um sinal de atenção e de proximidade com aqueles que alegam ser vítimas de abusos.

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