A experiência e as palavras: Bonhoeffer ainda fala aos jovens. Entrevista com Eraldo Affinati

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22 Fevereiro 2017

Nos dias 20 a 25 de fevereiro, foi montada em Roma, na Universidade Tor Vergata, a mostra “Libertà, a lungo ti cercammo.” Dietrich Bonhoeffer. Resistenza e amicizia [“Liberdade, por muito tempo te buscamos.” Dietrich Bonhoeffer. Resistência e amizade], dedicada ao teólogo luterano assassinado pelos nazistas. Qual é a sua peculiaridade? A de não ter sido idealizada nem por Igrejas nem por órgãos eclesiásticos.

A reportagem é de Alberto Corsani, publicada por Riforma.it, 20-02-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Falamos a respeito disso com Eraldo Affinati, escritor e professor que trabalha especialmente com jovens estrangeiros e que, a Bonhoeffer, dedicou um livro (Un teologo contro Hitler [Um teólogo contra Hitler], Ed. Mondadori, 2002), um dos oradores da mesa redonda inaugural.

“Será uma mostra organizada pelos jovens universitários romanos de Tor Vergata, em perfeito estilo Bonhoeffer”, diz. “Estamos falando de um indivíduo especial, que pensou e viveu um cristianismo radical, capaz de envolver a todos, até mesmo os não crentes. Sem renunciar à ‘disciplina do arcano’, devemos encontrar novos caminhos para nos tornarmos plenamente humanos.”

Eis a entrevista.

No livro, você captava a necessidade, defendida por Bonhoeffer, de viver o próprio cristianismo de forma independente das instituições eclesiásticas e continua dizendo que, para anunciar a mensagem evangélica, seria preciso inventar uma nova linguagem: ainda estamos no mesmo ponto? Ou os 15 anos desde que o livro foi lançado mostram-lhe uma consciência diferente?

Nesses 15 anos, o tema da linguagem nova a ser encontrada para conseguir falar com cada ser humano tornou-se ainda mais urgente. A chamada revolução digital nos chama a uma reflexão mais aprofundada. Devemos fazer com que as nossas palavras não sejam gratuitas, mas brotem da experiência, ainda mais: devem estar vinculadas a ela. Não por acaso, Bonhoeffer se tornou escritor na prisão de Tegel, no momento de máxima emergência política. Devemos retomar o seu discurso interrompido, renovando-o de acordo com os novos tempos que estamos vivendo. Para isso, é preciso encontrar ações comuns capazes de envolver pessoas que, talvez, pensam de outra forma. No meu pequeno raio de alcance, fundei a escola “Penny Wirton” para o ensino da língua italiana aos imigrantes, justamente na tentativa de realizar essa suposição.

O seu livro, mas também o anterior, “Campo do sangue”, sobre Auschwitz, apresentam-se como “peregrinações laicas”: por que é tão importante captar o aspecto evocativo dos lugares?

Em poucos anos, não haverá mais as testemunhas diretas da Shoá. Deverão ser as gerações que vierem depois a assumir a responsabilidade informativa que, antes, tinha sido prerrogativa das pessoas diretamente envolvidas. Com uma diferença essencial: enquanto os ex-deportados (eu também penso na minha mãe) tinham a legitimidade para falar, nós deveremos conquistar esse direito-dever. Poderão ser úteis para nós precisamente os locais do extermínio, que, como Günther Anders sabia, são “terrenos consagrados”. Eu sinto esse imperativo tanto como escritor quanto como professor.

No seu livro, você captava muito bem a ideia bonhoefferiana de uma humanidade feita de pessoas que têm a consciência de não “dispor da própria existência” (naquelas páginas, Bonhoeffer aborda o tema da oração): este é um conceito que se encontra nas discussões sobre a bioética, mas, além de referi-lo a Bonhoeffer, você também o sente como seu?

Não pode dominar a nossa vida significa se colocar em uma posição antisséculo XX: homem dos limites, não homem das possibilidades. A verdadeira liberdade, em sentido bonhoefferiano, brota da aceitação da própria finitude. Desde o início, eu senti a força dessa tese: o meu primeiro livro é sobre Leon Tolstói, que, em “Guerra e Paz”, se identifica no general Kutuzov, homem da estepe, contrapondo-se a Napoleão, filho do Iluminismo.

Em outro livro seu (“Vigília de armas”, 1998), você cita o escritor valdense Piero Jahier: por quê?

Piero Jahier é um dos escritores mais importantes do século XX italiano. Aquilo que sempre me impressionou nele é a potência ética que é medida na relação com os outros: basta citar o título do seu texto mais famoso, “Comigo e com os alpinos”, para entender a dimensão coral da sua reflexão humana. Eu admiro muito o estilo de Jahier (penso em “Ragazzo”): nos textos que ele compôs, prosa e poesia jogam em condições de igualdade. Hoje, nós precisaríamos reencontrar uma força expressiva desse peso.

Na introdução escrita para o Meridiano Mondadori dedicado à obra de Mario Rigoni Stern, você faz referência à “austeridade bíblica” típica do autor em algumas das suas descrições: quanto a Bíblia circula na literatura?

Muitos escritores modernos, como Mario Rigoni Stern, buscaram reencontrar a síntese, na verdade irrepetível, do texto bíblico: lírica, narrativa, especulação, filosofia se fundem na experiência profunda da realidade. Nessas raízes, está o lar espiritual do homem ocidental. Justamente Bonhoeffer nos ensinou a percorrer os velhos sendeiros dos Padres, renovando-os à luz dos nossos dias. Quem lê a Bíblia multiplica a própria energia, não subtrai nada de si mesmo, mas acrescenta, aumenta, intensifica. Essa intuição também é um legado precioso de Dietrich Bonhoeffer.

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