Quo vadis, episcopado chileno?

Revista ihu on-line

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Ontologias Anarquistas. Um pensamento para além do cânone

Edição: 543

Leia mais

Mais Lidos

  • O que deve ser cancelado? Eis a questão

    LER MAIS
  • Indígena assassinado no Maranhão é o 4º Guajajara morto de forma violenta em menos de dois meses

    LER MAIS
  • Padre Miguel Ángel Fiorito, SJ, meu Mestre do Diálogo: "Ele nos ensinou o caminho do discernimento". Artigo do Papa Francisco

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

21 Fevereiro 2017

“Quão maravilhoso seria se [os bispos] pudessem reconhecer perante o Papa que são muitos os temas que os ultrapassam, que nem sempre têm respostas oportunas e suficientes, que não sabem tudo, que muitas vezes temem parecer imberbes em temas da vida cotidiana e de relações humanas. Que têm dificuldades para sentir pudor em assuntos onde não têm experiência. Que temem os conflitos, os meios de comunicação e os leigos maduros”, escreve Marco Antonio Velásquez Uribe, em artigo publicado por Religión Digital, 17-02-2107. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

Há poucos dias, o destacado teólogo Jorge Costadoat SJ publicou uma incisiva reflexão intitulada Crise na Igreja chilena. Em seu artigo, aborda um tema de alcance global, que no Chile tem uma profundidade preocupante, precisamente porque há apenas algumas décadas a Igreja chilena esteve na vanguarda da acolhida do Concílio Vaticano II.

É verdade que muitas crises antecipam processos de mudança virtuosos. No entanto, a crise da Igreja do Chile é diferente, porque encerra uma crise de esperança. E ferida a esperança, trunca-se a missão essencial da Igreja, que é comungar universalmente essa “doce e confortadora alegria do Evangelho”.

No dia 23 de fevereiro, os bispos chilenos farão sua tradicional visita ad limina ao Papa. Seguramente, a crise da Igreja chilena estará presente; claro, sob o olhar particular de quem detém a hierarquia episcopal.

Na ocasião, não estará presente a realidade desses padres diocesanos que majoritariamente enfrentam suas próprias crises pessoais decorrentes da constatação da pouca fecundidade de seu ministério apostólico. Não irá aparecer essa crise vocacional que surge em meio às tentações cotidianas, porque nem sempre conseguem viver em plenitude essas opções radicais que um dia juraram na solenidade de sua ordenação. Não estará presente esse silencioso medo dos seus bispos, especialmente diante das fragilidades humanas que os assaltam como um ladrão furtivo. Tampouco estará presente essa solidão que muitos bispos nem sequer conseguiram perceber em seus padres.

Também não estará presente a realidade concreta desses religiosos e religiosas que estão vendo como suas comunidades vão envelhecendo e diminuindo. Não haverá espaço para dizer que em algumas dioceses a convivência com o bispo pode ser insuportável, e que a falta de liberdade obriga alguns provinciais a proteger sagazmente os seus camaradas, transferindo-os para dioceses menos repressivas. E, seguramente, haverá silêncio sobre a postergação, às vezes desumana, que devem suportar não poucas religiosas em uma instituição em que sua condição de gênero as situa no último lugar da Igreja.

Certamente, não estará presente a realidade desses teólogos que, limitados em sua liberdade teológica, por mérito de alguns bispos, acabam perdendo a parresía profética para acompanhar um mundo desejoso de esperança. Obviamente, não haverá lugar para se perguntar, com o Papa, por que a reflexão teológica não é capaz de iluminar aquelas realidades humanas que clamam novas respostas pastorais, como a das pessoas homossexuais ou a postergação anacrônica das mulheres na vida da Igreja, ou a ordenação de homens e mulheres casados, ou a integração de um grande número de padres casados ao serviço pastoral da Igreja.

E, sobretudo, não estará presente a voz desse laicato tantas vezes ignorado e maltratado com o chicote da desconfiança. Não haverá lugar para contar que no Chile ainda resta um laicato que se empapou do Concílio e que se alimentou nas comunidades eclesiais de base e que, em um determinado momento da história, foi marginalizado da Igreja porque compreendia que o ministério da Ordem não era para mandar, mas para servir.

Não contarão ao Papa que muitos padres e bispos não foram capazes de conviver com essa liberdade de consciência laical que os incomodavam nos conselhos de pastoral. Não lhe dirão que eram leigos atrevidos, porque desejavam tornar transparentes as contas, porque exigiam testemunho de vida, porque esperavam da Igreja acompanhamento em sua vida familiar e conjugal, em seus sindicatos, em suas organizações comunitárias ou em suas opções políticas.

Omitirão o alívio que eles e seus padres sentiram quando esses leigos abandonaram a Igreja, porque se livraram de pessoas subversivas que, em vez de viver no templo, só apareciam na missa dominical, ao passo que no resto da semana preferiam estar nos centros de pais e mestres, nas associações de moradores, nos partidos políticos, nos sindicatos ou com sua família.

Obviamente, não comentarão com o Papa que em suas dioceses já não há profetas e que esse é um ofício caduco em suas Igrejas locais.

Mas, talvez, mais de algum bispo possa alentar a esperança de todo um povo, abrindo seu coração de pastor ao Papa.

E dizer-lhe, nesta visita ad limina, que a causa da crise da Igreja chilena está, em primeiro lugar, no episcopado. Que o mundo, com suas mudanças, foi mais rápido que eles, e que, sobrecarregados com tarefas administrativas e de controle, eles não foram capazes de fazer oportunamente aquela conversão pastoral que os seus fiéis tanto esperaram. Que lhes faltou coragem para confiar nos leigos, que foram vencidos pelo medo das fraquezas humanas de seus padres e que então perderam a confiança neles. Que nunca puderam harmonizar seus afetos com o gênero feminino e menos ainda com as pessoas homossexuais, e que, muitas vezes, nisso, não fazem outra coisa senão exteriorizar seus próprios medos e inseguranças.

Quão maravilhoso seria se pudessem reconhecer perante o Papa que são muitos os temas que os ultrapassam, que nem sempre têm respostas oportunas e suficientes, que não sabem tudo, que muitas vezes temem parecer imberbes em temas da vida cotidiana e de relações humanas. Que têm dificuldades para sentir pudor em assuntos onde não têm experiência. Que temem os conflitos, os meios de comunicação e os leigos maduros.

Em um ambiente de confiança poderiam reconhecer que muitas vezes se deixaram seduzir pelas comodidades e os privilégios sociais, porque acreditaram literal e socialmente ser a autoridade episcopal. E que, por isso mesmo, perderam liberdade profética para condenar a injustiça social e que têm dificuldades para peitar os ataques que os poderosos dirigem contra seus fiéis, porque temem perder suas dádivas e prebendas.

Seguramente, estará presente na conversa com o Papa o grave dano que os abusos sexuais de muitos homens da Igreja provocaram na Igreja chilena. Mas, tomara que possam reconhecer com fidalguia que a crise da Igreja tem raízes anteriores à crise provocada pela pedofilia, mas que, isso sim, se agravou com esses graves escândalos.

Que bom seria se pudessem recordar ao Papa o testemunho desse querido padre operário chileno, o Pe. Alfonso Baeza, dado quando o núncio daquela época o surpreendeu para dizer-lhe que o Papa queria nomeá-lo bispo. Alfonso, após agradecer a confiança do Papa, não aceitou aquela nomeação, dizendo ao senhor núncio: “A fé que tenho é suficiente apenas para ser padre; não tenho fé suficiente para ser bispo”.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Quo vadis, episcopado chileno? - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV