Padre redentorista Tony Flannery celebra missa depois de 5 anos proibido por defender a ordenação sacerdotal de mulheres

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27 Janeiro 2017

O padre redentorista Tony Flannery disse que não espera nenhuma reação negativa do Vaticano por sua celebração de uma missa pública no último domingo em contravenção a uma proibição de ministrar publicamente, sanção imposta a ele pela Congregação para a Doutrina da Fé.

O missionário irlandês de 70 anos descreveu a liturgia, que contou com a presença de 800 pessoas, como “emocionante e bela”.

A reportagem é de Sarah Mac Donald, publicada por National Catholic Reporter, 25-01-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

“Em todos estes anos já celebrei muitas missas grandes, em missões e novenas, mas nada que me tocou tão fundo como essa”. Ele acrescentou que a ocasião “chegou perto de ser o dia mais lindo da minha vida”.

Um dos fundadores da Associação dos Padres Católicos (Association of Catholic Priests), grupo de cunho reformista, Flannery disse que “não estava preocupado com uma excomunhão” pela Igreja e que não “antecipava” nenhuma excomunhão sob o comando do Papa Francisco e “muito menos no contexto da visita do Papa Francisco à Irlanda no próximo ano”.

Lembrando a “quantidade de apoio e incentivo do povo” na missa e daqueles que o contataram por e-mail, carta ou telefone, o padre disse que as autoridades eclesiásticas fazerem algo neste momento com ele seria “dar um tiro no próprio pé”.

Ele considerou a excomunhão como uma prática medieval e disse que ela “não me influenciaria, nem em minha vida, nem em minha fé”.

Os que participaram da missa em um centro comunitário na região rural natal de Flannery, chamada , no Condado de Galway, no sábado à tarde, eram amigos locais, apoiadores do padre, membros de grupos reformistas como a Associação dos Padres na Irlanda e da We Are Church Ireland. Alguns dos que se fizeram presentes vieram de fora do país.

As restrições impostas a Flannery, que inclui não ministrar em público, relacionam-se com as suas opiniões progressistas sobre a ordenação de mulheres ao sacerdócio, sobre a Eucaristia e os ensinamentos sexuais católicos.

Em 2013, através de seus superiores redentoristas, a Congregação para a Doutrina da Fé fez saber que ele somente seria autorizado a voltar ao ministério caso assinasse e publicasse uma declaração concordando com o ensinamento da Igreja de que as mulheres nunca deverão ser ordenadas ao sacerdócio e que aderia ao magistério em temas como a contracepção e homossexualidade.

Ao recusar-se a concordar com os termos da congregação doutrinal, Flannery permanece impossibilitado de exercer publicamente o ministério enquanto uma resolução para o impasse parece distante.

Uma tenda do lado de fora do centro comunitário no domingo facilitava a saída da multidão que apareceu em solidariedade ao clérigo numa tarde clara e ensolarada de janeiro. A missa foi concelebrada pelo Pe. Willie Cummins, do Condado de Clare.

Escrevendo em seu blog na segunda-feira, Flannery disse que havia decidido, antes, que a missa iria ser uma celebração, “então eu não trouxe nenhuma negatividade, nenhum rancor, queixa ou crítica. E, no dia, permaneci fiel a isso”.

Na homilia, ele apenas fez uma referência de passagem ao Vaticano. Começou dizendo à congregação reunida que o que ele queria dizer era algo simples e que esperava encontrar as palavras certas para expressá-lo.

Observando a diversidade dos que haviam comparecido à missa, disse que eles eram pessoas com opiniões variadas sobre a fé, Deus e sobre o significado da própria vida.

“Algo fundamental à mensagem cristã é que cada um de nós é, em nós mesmos, um mistério profundo, não importa quais sejam as nossas crenças. É por isso que a mensagem cristã tanto enfatiza a importância da dignidade da pessoa”.

“Esse mistério profundo que faz parte de cada um de nós, eu diria, é a presença do divino, a presença de Deus em cada um de nós”.

Recordando como, na Irlanda rural anterior ao Concílio Vaticano II, a missa contava com os padres virados de costas aos fiéis, pronunciando palavras em latim, Flannery falou à congregação que, naquela época, havia “na maior parte espectadores” e que o evento real acontecia no altar. “Os padres comunicando-se com Deus em uma língua estrangeira e através do poder deles, como sacerdotes, traziam Deus presente para dentro da comunidade – esse era o trabalho do padre”.

Reconhecendo que ainda acreditava que, nas palavras de consagração, Jesus se faz presente no pão e no vinho, ele também salientou que essa não era só a presença de Jesus e Deus entre nós.

“Ele ou ela, ou qualquer pronome que queiramos usar, está tão poderosamente presente nesse encontro, na totalidade de nós e em cada um, individualmente. Temos um novo entendimento da missa e da Eucaristia e isso não é só a obra dos padres – é a obra da comunidade fiel”.

Abordando a crise em torno do sacerdócio e das preocupações sobre quem irá restar para celebrar as missas a daqui 10 ou 20 anos, disse: “Chegou a vez de as comunidades de fiéis mais uma vez tomar a posse da Eucaristia. Foi assim que começou depois do tempo de Jesus; as comunidades de fiéis reuniam-se em suas casas e celebravam a Eucaristia. Então, na medida em que o tempo passava, o poder centralizado assumiu para si essa prática e estabeleceu todo o tipo de regulamentos e regras sobre onde ela poderia acontecer e quem poderia proferi-la”.

“Isso está agora se perdendo muito rapidamente, e se quisermos preservar o que é muito precioso – a mensagem cristã –, precisamos recuperar, enquanto comunidades, a Eucaristia por nós mesmos”.

A congregação ovacionou de pé o sacerdote no final da homilia, e todos foram convidados à Comunhão, independentemente se fossem frequentadores regulares da missa ou não, como uma declaração de amor de uns para com os outros.

Entre os que participaram da missa estava Marie Morrissey de Loughrea, associada ao grupo reformista, a Associação de Católicos na Irlanda.

Ela contou ao National Catholic Reporter que a grande participação dos fiéis era um indicativo do nível de apoio a Flannery e suas ideias.

“Acho que essa participação massiva envia uma forte mensagem de apoio ao padre Tony Flannery e outros que foram silenciados, em particular neste país. As autoridades católicas precisam resolver essa questão, e tentar trazê-los de volta ao ministério”.

O padre columbano Sean McDonagh, que com Flannery fundou a Associação dos Padres Católicos, participou da missa com um outro fundador, o Pe. Brendan Hoban.

Em conversa com o National Catholic Reporter, McDonagh descreveu a missa como uma “grande celebração” para Flannery. “Ele ficou cinco anos fora do ministério por motivos que não deveriam existir; essa foi uma caminhada muito difícil para ele”.

Prestando homenagem às pessoas que compareceram em solidariedade, acrescentou: “Será que alguns dos líderes da Igreja mostrariam a mesma preocupação com as pessoas no ministério?”.

McDonagh criticou o modo como o caso do padre redentorista foi conduzido no Vaticano. “O seu caso foi simplesmente deixado nos salões da Congregação para a Doutrina da Fé; não tem nenhuma resolução quanto a ela. O processo da Igreja não funciona na realidade. Deveríamos todos nos envergonhar”, disse, sugerindo em seguida que os processos da Congregação para a Doutrina da Fé estavam “muito mais em sintonia com a Igreja do século XIX, quando se vivia a Inquisição”. (Antes de 1908, o título oficial deste dicastério era Santa Inquisição Romana e Universal.)

Falando sobre os esforços do padre redentorista em destacar a questão do papel da mulher na Igreja, McDonagh comentou:

“Tivemos três papas que falaram sobre o papel da mulher na Igreja, mas eles nada fizeram sobre o assunto. O Papa Francisco é o primeiro que disse que vai olhar mais de perto a questão do diaconato. A realidade é que, no futuro, a Igreja vai precisar reconhecer igualmente homens e mulheres. Como diz Gálatas, não há distinção entre homem e mulher”.

Em referência aos primeiros escritores cristãos, como os santos Jerônimo e Agostinho, McDonagh refletiu: “A própria Igreja teve uma história misógina horrenda”.

Alinhando-se para saudar Flannery no final da missa estavam Shirley Griffin e seu filho Jack de Athenry, Condado de Galway. Ela explicou ao National Catholic Reporter que Flannery celebrou o seu casamento e batizou o seu filho, de 8 anos. A ligação entre eles é mais antiga ainda. “Eu fui a primeira criança que o Padre Tony abençoou quando foi ordenado”.

Perguntada o que achava que o Vaticano faria ao saber desta liturgia, respondeu: “Acho que se eles verem a quantidade de pessoas aqui, iriam ficar inspirados. As pessoas compareceram por sua própria vontade e reservaram um tempo de suas vidas para estar aqui”.

“Acredito que a mensagem do Padre Tony é a de ser cristão uns aos outros, e isso tem a ver com ser bom e aceitar a singularidade das pessoas. Eu adoraria que as sanções contra ele fossem suspensas, porque ele merece. É um homem do povo e tem um dom”.

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