Duas ironias suculentas na saga dos Cavaleiros de Malta

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17 Janeiro 2017

Aqueles familiarizados com o Vaticano sabem que existem algumas ironias verdadeiramente suculentas envolvidas no caso atual relativo aos Cavaleiros de Malta, e entender estas ironias talvez ajude a explicar a reação desafiadora que os Cavaleiros têm demonstrado publicamente e as vertigens que eles podem estar sentindo no âmbito privado.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 13-01-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Sejamos claros desde o início: não possuo informações internas sobre as notícias que circundam atualmente os Cavaleiros de Malta, seja em termos dos fatores que levaram à expulsão de Albrecht von Boeselager, chanceler do grupo, seja sobre a decisão do Papa Francisco de criar uma comissão para investigar a situação.

O que se pode dizer a distância, no entanto, é que aqueles familiarizados com o Vaticano sabem que existe pelo menos um par de ironias suculentas em jogo.

Conforme informado na imprensa, Boeselager foi desligado em 8 de dezembro depois de não aceitar uma ordem para renunciar na sequência das revelações segundo as quais o ramo caritativo dos Cavaleiros de Malta distribuiu milhares de camisinhas em Mianmar sob sua supervisão. Boeselager teria insistido que não sabia do programa e que o cancelou assim que soube. Boeselager disse também que o padre, também cavaleiro, Matthew Festing, na presença do patrono da ordem, o cardeal americano Raymond Burke, contou que o Papa Francisco queria que ele fosse desligado – embora o Vaticano tenha negado que o papa esteja envolvido no caso.

Em 22 de dezembro, o Vaticano anunciou que Francisco tinha criado uma comissão para analisar a situação. Os cinco membros são o arcebispo italiano Silvano Tomasi, ex-observador da Santa Sé na ONU, em Genebra; o padre jesuíta Gianfranco Ghirlanda, destacado canonista e ex-reitor da Universidade Gregoriana; e os leigos Jacques de Liedekerke, Marc Odendall e Marwan Sehnaoui.

Em resposta, os Cavaleiros declararam, duas vezes, que não vão cooperar com a investigação, assegurando a condição de um Estado soberano sob o direito internacional e insistindo que ninguém, incluindo o papa, tem o direito de interferir em sua governança interna.

Essa reação surpreendeu muitos católicos comuns, grande parte dos quais provavelmente sequer percebeu que a ordem possui um status soberano. Além disso, porque os Cavaleiros são obviamente uma entidade católica conhecida pela lealdade ao papa, o fato de rejeitar esta sua autoridade no caso apresenta-se como um movimento contraintuitivo.

Dada a conexão de Burke, muitos analistas acham que a postura adotada pela ordem tem relação com as tensões entre o Papa Francisco e alguns elementos da hierarquia católica, em particular Burke, sobre Amoris Laetitia, a Comunhão aos divorciados e recasados, etc.

Pode muito bem ser este o caso, porém trazer à tona duas ironias envolvidas aqui ajude, talvez, a explicar por que razão os Cavaleiros parecem ter sigo pegos de surpresa.

Em primeiro lugar, os Cavaleiros de Malta podem ter pensado – e com razão – que, se é para haver alguma outra entidade na terra que precisa ser sensível na proteção de sua soberania, ela seria o Vaticano.

Durante décadas, “soberania” tem sido a cereja do bolo no Vaticano em termos de valores honrados. Por exemplo, o Vaticano insiste que os países com os quais mantém relações diplomáticas designam um embaixador em separado daqueles enviados à Itália, com base em que é preciso deixar claro que a Santa Sé é o seu próprio Estado.

A Santa Sé também pede que estes países mantenham embaixadas distintas no intuito de sublinhar o mesmo ponto.

Sempre que a Santa Sé é processada nos Estados Unidos, seja uma disputa comercial, seja em casos relativos a abusos sexuais clericais, ela tem invocado – e com sucesso – a sua soberania como um escudo contra julgamentos em tribunais americanos.

Mais recentemente, quando o cardeal australiano George Pell, prefeito da Secretaria para a Economia, assinou um contrato com a empresa Pricewaterhouse Coopers para conduzir uma auditoria externa, o acordo foi suspenso e eventualmente esquecido, em parte porque a PwC teria níveis inaceitáveis de acesso aos dados soberanos do Vaticano.

Consequentemente, é possível que os Cavaleiros pensaram que, tão logo apresentassem a sua “soberania”, o diálogo acabaria. A ideia não deu muito certo.

Eis a segunda ironia: com o passar dos anos, sempre que alguém na Igreja perde o seu emprego por um suposto envolvimento em trabalhos de caridade ao redor do mundo e que, de alguma forma, foi pego distribuindo métodos de controle de natalidade, é quase certo que a pessoa estava sendo pressionada a agir no Vaticano.

A preocupação de que as organizações de caridade católicas não façam nada contrário ao ensino da Igreja, por exemplo, foi um dos motivos pelos quais a Secretaria de Estado do Vaticano emitiu, em 2012, um novo conjunto de regras para a Caritas Internationalis, federação sediada em Roma que reúne as organizações caritativas católicas.

Entre outros pontos, as noras regras exigiram que os funcionários da Caritas prometessem lealdade diante de uma autoridade vaticana, incluindo a “obediência cristã” aos bispos. Também ficou especificado que o Cor Unum, dicastério vaticano que supervisiona o trabalho de caridade, deve aprovar todos os acordos de cooperação entre a Caritas e organizações não governamentais, exceto em casos de emergências humanitárias extremas.

No passado, a Caritas foi criticada por fazer acordos com ONGs cujas abordagens relativas a temas como o controle populacional diferem daquela assumida pela Igreja.

Mais uma vez, portanto, os Cavaleiros podem ter pensado que, se agiram contra uma autoridade que teria feito precisamente aquilo que a Caritas fez para entrar em apuros quatro anos atrás, então a estrutura de poder vaticana não só iria apoiá-los, mas aplaudir também.

Nada disso, evidentemente, pretende defender ou criticar a reação dos Cavaleiros de Malta, e está muito além da minha alçada julgar se conceitos como o de “soberania” se aplicam neste caso.

No entanto, talvez podemos sentir um grau de simpatia pelo grupo que quiçá foi pego na mesma situação em relação a papéis invertidos no Vaticano, coisa que outros setores da Igreja, segundo os seus próprios modos, também têm sentido na era do Papa Francisco.

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