Igreja Católica em plena guerra civil

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24 Novembro 2016

O Papa Francisco fechou a Porta Santa, mas a sua mensagem é acompanhada pelo ruído de uma crise subterrânea. Uma guerra civil está em curso na Igreja. Um confronto que toca a autoridade do pontífice e o seu programa reformador. Estão em jogo visões opostas sobre o papel da Igreja, o “pecado”, a salvação das almas. E, como em todas as guerras civis, o conflito não contempla compromissos.

A reportagem é de Marco Politi, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 21-11-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Quatro cardeais, nestes dias, optaram por colocar diretamente sob acusação a teologia de Francisco e o seu documento pós-sinodal Amoris laetitia (que abre o caminho para a comunhão dos divorciados recasados). Os purpurados imputam a Bergoglio o fato de ter semeado entre os fiéis “incerteza, confusão e perplexidade” e pedem que ele “esclareça” o documento.

À carta, são anexadas, no estilo das contestações teológicas, as chamadas Dubia: isto é, “perguntas sobre questões controversas”.

Com um gesto que tem o sabor de um desafio, a carta foi enviada “para conhecimento” também ao guardião oficial da ortodoxia, o cardeal Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

É um evento absolutamente inédito na história moderna do papado. E a primeira coisa que chama a atenção é o silêncio constrangedor das altas hierarquias eclesiásticas. Nenhum cardeal se opôs publicamente às suas teses, nenhum presidente de Conferência Episcopal [exceto o presidente dos bispos gregos - Nota de IHU On-Line], nenhum dirigente de alguma grande Associação Católica.

E dizer que, dominando no peito o papel da consciência, de que Francisco fala, os quatro purpurados afirmam que, nesse caso, se corre o risco de chegar ao ponto em que se tornam concebíveis “casos de adultério virtuoso, homicídio legal e perjúrio obrigatório”.

Dois dos purpurados são expoentes da Cúria: o alemão Walter Brandmüller, ex-presidente do Pontifício Comitê de Ciências Históricas, e o estadunidense Raymond Burke, ex-presidente do Tribunal da Signatura Apostólica. E dois são arcebispos eméritos de grandes dioceses: Carlo Caffara, querido de João Paulo II e Bento XVI e até 2015 à frente de Bolonha, e Joachim Meisner, íntimo do Papa Ratzinger, até 2014 à frente da diocese de Colônia.

Liquidar a sua carta – à qual Francisco respondeu indiretamente em uma entrevista ao jornal Avvenire, denunciando um “certo legalismo que pode ser ideológico” – como o sobressalto de quatro “ultraconservadores” significa não compreender o confronto subterrâneo, que foi se desenvolvendo na Igreja Católica no último biênio.

Os quatro são a ponta do iceberg, que vai se ampliando e se espalhando. Eles também falam por muitos que não se expõem.

Durante anos, a mídia não compreendeu a profundidade do movimento anti-Obama, que levou, no dia 8 de novembro, à derrota da sua política. Hoje, ela corre o risco de repetir o mesmo erro com Francisco. Deslumbrados com o seu carisma e com o consenso planetário de que ele goza até mesmo entre agnósticos e não crentes, muitos removem a sistemática escalada daqueles que, entre o clero, os episcopados, o Colégio Cardinalício, contestam a teologia de misericórdia do pontífice.

Entre os dois Sínodos, houve um deslocamento de ênfase fundamental. Se, nas últimas décadas, no confronto entre reformadores e conservadores, o pontífice permanecia como “árbitro” para a maioria da hierarquia eclesiástica, hoje, no entanto, o papa tornou-se uma parte em causa.

Basta ler a última entrevista do cardeal Burke: a Amoris laetitia, afirma ele, “não é Magistério, porque contém sérias ambiguidades que confundem os fiéis e podem induzi-los ao erro e ao pecado grave. Um documento que apresenta esses defeitos não pode fazer parte do ensinamento perene da Igreja”.

Em dois anos, houve um crescendo de ações de dissenso. Antes do Sínodo de 2014, cinco cardeais escreveram um livro em defesa da doutrina tradicional do matrimônio. Depois, 11 purpurados de todas as partes do mundo intervieram com outro livro, incluindo personalidades importantes, reconhecidas entre o clero e o episcopado. Enquanto isso, quase 800 mil católicos, incluindo 100 bispos assinavam um abaixo-assinado ao papa para impedir as inovações. Depois do início do Sínodo de 2015, 13 cardeais escreveu a Bergoglio, pondo em causa a regularidade da direção da assembleia.

Um movimento sistemático de contestação, ao qual a frente reformadora opôs apenas timidez. E – embora muitos queiram esquecer –, nas votações no Sínodo sobre a família de 2015, foram rejeitadas as teses de uma via penitencial, que reconhecesse abertamente a possibilidade da comunhão aos divorciados recasados. A maioria tradicionalista desse parlamento mundial de bispos disse “não”.

Enquanto isso, surgiu uma rede de cardeais, bispos, padres, teólogos e leigos comprometidos, signatários de uma “Declaração de fidelidade ao magistério imutável da Igreja sobre o matrimônio”. Posteriormente, 45 teólogos escreveram (anonimamente) ao Colégio Cardinalício, insinuando que certas interpretações da Amoris laetitia poderiam ser “heréticas”.

O movimento anti-Bergoglio trabalhava sobre o tempo. Nos Estados Unidos, a escalada subestimada contra Obama levou à derrota dos democratas. Na Igreja Católica, o que está em jogo é o futuro conclave. Hoje, o historiador da Igreja Alberto Melloni fala de “isolamento” do pontífice. E Andrea Riccardi, ele também historiador, explica que nunca no século XX um pontífice encontrou tanta oposição entre os episcopados e o clero.

Na guerra civil em curso na Igreja, o objetivo é o pós-Francisco: não deverá chegar ao trono papal um homem que dê desenvolvimento às reformas iniciadas.

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