A reconciliação em voz de mulher. Entrevista com Elisabeth Parmentier

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18 Novembro 2016

Alguns anos atrás, convidada a falar sobre o futuro da União Europeia, a teóloga luterana Elisabeth Parmentier havia proposto uma semelhança que muitos ainda lembram. É como se uma mulher estivesse grávida de dois gêmeos, explicava: um se chama Medo; a outra, Esperança. Tudo para ver quem vai levar a melhor.

A reportagem é de Alessandro Zaccuri, publicada no jornal Avvenire, 13-11-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Agora, a pastora Parmentier parece um pouco menos otimista: "A minha impressão – diz – é que na Europa e no mundo é o medo quem prevalece. Mas essa pode ser uma oportunidade para os cristãos. Ou, melhor, é um convite a continuar com convicção ainda maior no caminho do diálogo ecumênico".

Professora de Teologia Prática na Faculté de Théologie de Genebra, Elisabeth Parmentier também é conhecida pelo leitor italiano graças aos ensaios publicados na Itália pela EDB (La Scrittura viva, 2007) e pela Qiqajon (Donne in concorrenza?, sobre o episódio evangélico de Marta e Maria, 2014).

Nos últimos dias, ela participou do congresso sobre o "Jubileu da Misericórdia, jubileu da Reforma: uma proximidade fecunda?", organizado em Pádua pela Faculdade Teológica do Triveneto.

Uma oportunidade de estudo que se tornou extremamente atual por causa da viagem do Papa Francisco à Suécia, durante a qual foi assinada em Lund a Declaração Conjunta entre a Igreja Católica e as Igrejas luteranas: "Aprendemos – afirma o histórico documento – que aquilo que nos une é maior do que aquilo que nos separa". Em outras palavras, aquilo que antigamente dividia hoje pode unir. A leitura da Palavra de Deus, por exemplo.

"É verdade – admite a professora Parmentier –, por um longo tempo a interpretação da Escritura foi um elemento de confronto entre as Igrejas, mas, neste momento, finalmente tornou-se lugar de encontro e de debate. Isso não significa que a aventura da interpretação possa se considerar concluída. Ao contrário, a Escritura, como realidade viva, permanece sempre em discussão. Distinções e ênfases diferentes são encontradas até hoje e, por mais paradoxal que possa parecer, são mais acentuadas dentro do mundo protestante."

Eis a entrevista.

A que se refere?

Ao literalismo que caracteriza algumas confissões evangélicas e que muitas vezes se resolve em uma atitude de tipo exclusivamente moral. É como se, para reiterar a autoridade das Escrituras, se quisesse renunciar ao patrimônio da crítica histórica e filológica. É preciso evitar as generalizações, é claro. Mas não podemos esquecer que o diálogo atual afunda as suas raízes na tradição do humanismo, do qual nos vem a capacidade de ler o texto bíblico em chave crítica.

Mas ainda há algo que divide católicos e protestantes. De que se trata?

A meu ver, o problema fundamental é a visão da Igreja. Por parte das denominações protestantes, se poderia até chegar ao reconhecimento do papa como primus inter pares, mas esse passo deveria ser precedido por uma revisão da estrutura eclesial por parte católica. Não é só uma questão de organização hierárquica, mas de articulação e visão da Igreja. E é precisamente daí que deriva a possibilidade de instaurar um diálogo ecumênico capaz de chegar a um acordo mais vasto e pontual.

A distinção, portanto, não reside mais na doutrina sobre a justificação?

Sobre isso, a controvérsia se encerrou definitivamente em 1999, com a Declaração Conjunta assinada por católicos e luteranos. Desde então, estamos conscientes de que, entre os cristãos, não existe mais nenhum desacordo em relação à natureza e ao alcance da salvação. O próprio tema da misericórdia, que tanta relevância teve este ano na Igreja Católica por causa do Jubileu, pertence desde as origens à espiritualidade protestante. No lado sacramental, além disso, a consonância já está completa, não só no que diz respeito ao Batismo, mas também à Eucaristia, na qual os luteranos, embora não adotando a definição católica de transubstanciação, também reconhecem a verdadeira presença de Cristo.

Porém, a ordenação ministerial continua sendo um ponto crítico.

Pelo motivo que eu enfatizava anteriormente, ou seja, a visão diferente de Igreja que nos caracteriza. O pastor luterano não tem nenhuma investidura sacramental, e isso não pode deixar de ser um problema de reciprocidade em relação ao catolicismo.

A valorização do carisma feminino também deve ser considerada nessa perspectiva?

A minha convicção é de que, mesmo agora, dentro da Igreja Católica, muitas mulheres desempenham um serviço pastoral fora do ministério ordenado. Será justamente essa experiência concreta que fará progredir a consciência da importância da mulher em âmbito eclesial, provavelmente através do caminho do diaconato. Mais complexo é o discurso sobre o celibato sacerdotal, que, para os católicos, constitui um componente muito forte e, eu diria, quase irrenunciável da própria identidade simbólica.

Quais são as novidades introduzidas pelo Papa Francisco no diálogo ecumênico?

Bergoglio tem o carisma de uma grande inteligência teológica. A sua visão é radicalmente cristológica da realidade, o que o leva a transformar em mensagem de reconciliação a sua própria pessoa e as suas próprias ações. Nisso parece-me evidente o porte dos Exercícios Espirituais inacianos e, neste caso, da prática do discernimento, que leva a distinguir continuamente entre o que é prudente e o que é urgente, no ecumenismo assim como na Igreja Católica.

De que modo o contexto de secularização influencia na reconciliação entre os cristãos?

Nas últimas décadas, as mudanças sociais fizeram com que a Igreja assumisse uma função diferente. A referência normativa do passado foi substituída por uma atitude que eu definiria como terapêutica, diaconal, materna. Mais feminina, se quisermos considerá-la. Isso, repito, depende de uma demanda cada vez mais generalizada, que certamente tem uma de suas motivações mais reconhecíveis na solidão produzida pela secularização. Pensando bem, porém, os objetivos principais indicados pela Declaração Conjunta de Lund, como o cuidado do ambiente e a acolhida dos imigrantes, também põem em causa essa dimensão terapêutica e materna, requintadamente feminina, da Igreja.

Para você, pessoalmente, o que significa ser luterana?

Para mim, a liberdade do cristão está no coração da espiritualidade de Lutero. É um dom extraordinário e, como tal, não deve ser mal interpretado. Ele não se traduz na licença de fazer tudo o que se quiser, mas implica a consciência de termos sido libertados de uma vez por todas da preocupação de nós mesmos. Isso nos leva a viver na gratidão e, ao mesmo tempo, permite que nos dirijamos aos outros sem mais temor. Nos seus escritos, Lutero insiste muito na presença do diabo, do pecado e da morte nas nossas existências. A sua linguagem é a da época, mas a mensagem permanece inalterada no tempo. A separação entre Deus e o homem, hoje, assume o aspecto de uma solidão absoluta, que leva a um desespero absoluto. Ser luterana, para mim, significa saber que nunca estou sozinha, na certeza de que até mesmo a morte, o último inimigo, já foi derrotada por Cristo.

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