Cardeal Burke adverte que se o Papa não esclarecer a confusão, farão “um ato formal de correção de um erro grave”

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17 Novembro 2016

“O Papa é o fundamento da unidade dos bispos e de todos os fiéis. Esta ideia, portanto, que o Papa tem que ser algum tipo de inovador, que lidera uma revolução na Igreja ou algo similar, é completamente alheio à Função de Pedro. O Papa é um grande servidor das verdades da fé, já que foram pronunciadas em uma linha ininterrupta, desde os tempos dos apóstolos”, avalia o cardeal Raymond Burke, em uma entrevista na qual fala a respeito da iniciativa da carta de quatro cardeais, entre os quais se inclui, ao papa Francisco, com o título Criar clareza. Alguns nós por resolver em "Amoris laetitia" - Um apelo.  Nesta carta, solicitam um posicionamento claro do Pontífice acerca dos pontos que consideram controversos na encíclica sobre a família.

Na entrevista, Burke adverte que cardeais e bispos podem, se necessário, deixar claro ao Papa que “está ensinando um erro”, com a solicitação de uma correção.

A entrevista é do vaticanista Edward Pentin, publicada por Infovaticana, 16-11-2016. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Eminência, o que se pretende alcançar com esta iniciativa?

A iniciativa é dirigida a uma só coisa, a saber, o bem da Igreja, que neste momento está sofrendo uma tremenda confusão em ao menos estes cinco pontos. Há uma série de outras questões também, mas estes cinco pontos críticos tem a ver com os princípios morais irreformáveis. Sendo assim, como cardeais, julgamos que é nossa responsabilidade solicitar um esclarecimento a respeito destas questões, com o objetivo de colocar fim a esta propagação da confusão que, na realidade, está levando as pessoas ao erro.

Ouve muita gente que tem esta preocupação com a confusão?

Onde quer que eu vá, ouço. Os sacerdotes estão divididos entre si, sacerdotes de bispos, bispos entre si. Há uma tremenda divisão na Igreja, e esse não é o caminho da Igreja. É por isso que fixamos estas questões morais fundamentais que nos unificam.

Por que o capítulo 8 da Amoris Laetitia carrega tal preocupação em especial?

Em razão de ter sido a fonte de todas estas discussões confusas. Inclusive, as diretrizes diocesanas estão confusas e no erro. Temos um conjunto de diretrizes em uma diocese, por exemplo, dizendo que os sacerdotes são livres no confessionário, se julgarem necessário, para permitir que uma pessoa que está vivendo em uma união adúltera, e que continua assim, tenha acesso aos sacramentos, ao passo que, em outra diocese, de acordo com o que sempre foi a prática da Igreja, um sacerdote é capaz de conceder tal permissão aos que fazem o firme propósito de reparação para viver a castidade no matrimônio, ou seja, como irmão e irmã, e apenas para receber os sacramentos em um lugar onde não sejam motivo de escândalo. Isto realmente tem que ser abordado. Mas, depois, vem as questões adicionais em dúvida, além dessa pergunta em particular a respeito dos divorciados em segunda união, que se englobam sob o termo “mal intrínseco”, com o estado de pecado e com a noção correta de consciência.

Sem o esclarecimento que estão buscando, está dizendo, portanto, que este e outros ensinamentos na Amoris Laetitia vão contra o princípio de não contradição (que indica que uma afirmação não pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo, quando se trata de um mesmo contexto)?

É claro, já que, por exemplo, caso se tome o tema do matrimônio, a Igreja ensina que o matrimônio é indissolúvel, de acordo com a palavra de Cristo: “O que se divorcia de sua mulher e se casa com outra, comete adultério”. Portanto, se você está divorciado, não pode entrar em uma relação matrimonial com outra pessoa, a não ser que o vínculo indissociável ao que está sujeito seja declarado nulo, inexistente. Contudo, se dizemos, bom, em certos casos, uma pessoa que vive em uma união matrimonial irregular pode receber a sagrada comunhão, na sequência, uma das duas coisas deve ser o caso: Ou bem o matrimônio, na realidade, é indissolúvel - como, por exemplo, na “teoria da iluminação” do cardeal Kasper, que sustenta que o matrimônio é um ideal ao qual não podemos aproximar, de forma realista, as pessoas. Em tal caso, perdemos o sentido da graça do sacramento, que permite aos casados viver a verdade de sua aliança matrimonial -, ou então a sagrada comunhão não é comunhão do Corpo e o Sangue de Cristo. É claro, nenhum das duas é possível. Estão em contradição com os ensinamentos constantes da Igreja desde o princípio e, portanto, não podem ser verdadeiras.

Alguns verão esta iniciativa por meio de uma lente política e a criticarão como um conflito “conservador versus liberal”, algo que você e os outros signatários rejeitam. Qual é sua resposta para essa acusação?

Nossa resposta é simplesmente isto: Não estamos tomando algum tipo de posição dentro da Igreja, como uma decisão política, por exemplo. Os fariseus acusaram Jesus de tomar partido em um dos lados de um debate entre os especialistas na lei judaica, mas Jesus não fez isso em absoluto. Fez um chamado à ordem que Deus colocou na natureza, desde o momento da criação. Disse: Moisés permitiu o divórcio por causa da dureza de coração, mas não foi assim desde o princípio. Sendo assim, simplesmente, estamos expondo o que a Igreja sempre ensinou e praticou ao fazer estas cinco perguntas que se ocupam do ensinamento e da prática constante da Igreja. As respostas a estas perguntas proporcionam uma ferramenta essencial para a interpretação da Amoris Laetitia. Precisam ser expostas publicamente, pois muitas pessoas estão dizendo: “Estamos confusas, e não entendemos por que os cardeais ou alguém com autoridade não falam e nos ajudam”.

É um dever pastoral?

É, e eu posso assegurar que conheço todos os cardeais que participam, e isto foi algo que realizamos com o maior sentido de nossa responsabilidade como bispos e cardeais. Também aconteceu com o maior respeito pelo ministério de Pedro, porque se o Ministério Petrino não se ater a estes princípios fundamentais da doutrina e da disciplina, então, na prática, a divisão entrou na Igreja, o que é contrário à nossa própria natureza.

E o ministério de Pedro também, cujo propósito principal é a unidade?

Sim, como diz o Concílio Vaticano II, o Papa é o fundamento da unidade dos bispos e de todos os fiéis. Esta ideia, portanto, que o Papa tem que ser algum tipo de inovador, que lidera uma revolução na Igreja ou algo similar, é completamente alheio à Função de Pedro. O Papa é um grande servidor das verdades da fé, já que foram pronunciadas em uma linha ininterrupta, desde os tempos dos apóstolos.

É por isso que ressaltam que aquilo que estão fazendo é um ato de caridade e de justiça?

Absolutamente. Temos esta responsabilidade diante das pessoas para as quais somos bispos, e inclusive uma maior responsabilidade como cardeais, que são os principais assessores do Papa. Para nós, permanecer em silêncio acerca destas dúvidas fundamentais, que surgiram como resultado do texto da Amoris Laetitia, seria, de nossa parte, uma grave falta de caridade para com o Papa e uma grave falta no cumprimento dos deveres de nossa própria missão na Igreja.

Alguns poderiam argumentar que são apenas quatro cardeais, entre os quais você é o único que não está aposentado, e isto não é muito representativo de toda a Igreja. Nesse caso, poderiam perguntar: Por que o Papa lhes deveria ouvir e responder?

Bom, os números não são o problema. A questão é a verdade. No julgamento sobre São Thomas More, alguém disse que a maioria dos bispos ingleses havia aceitado a ordem do rei, e ele disse que podia estar certo, mas que os santos no céu não a aceitavam. Esse é o ponto aqui. Gostaria de acreditar que apesar de outros cardeais não terem assinado este documento, compartilham a mesma preocupação. Mas, isso não me incomoda. Mesmo se fôssemos um, dois ou três, trata-se de uma questão de algo que é certo e é essencial para a salvação das almas, então precisa ser dito.

O que ocorrerá se o Papa não responder a seu ato de justiça e de caridade e não der o esclarecimento dos ensinamentos da Igreja que se espera conseguir?

Então teríamos que enfrentar esta situação. Existe, na Tradição da Igreja, a prática da correção ao Romano Pontífice. É algo que é claramente bastante raro, mas se não há resposta a estas perguntas, então, eu diria que seria questão de fazer um ato formal de correção de um erro grave.

Em um conflito entre a autoridade eclesial e a Sagrada Tradição da Igreja, qual delas é vinculante para o crente e que tem autoridade para determinar isto?

O que é vinculante é a Tradição, e a autoridade eclesial só existe a serviço da Tradição. Penso nessa passagem de São Paulo na Carta aos Gálatas (1, 8): “Ainda que sejamos nós mesmos ou um anjo do céu, aquele que lhes anunciar outro evangelho diferente do que lhes anunciamos, seja anátema”.

Se o Papa ensinasse um grave erro ou heresia, que autoridade legítima pode declarar isto e quais seriam as consequências?

É dever, em tais casos, e historicamente já ocorreu, que cardeais e bispos deixem claro que o Papa está ensinando um erro e que lhe peçam para corrigi-lo.

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