Irmãs no Haiti focam na recuperação do país após furacão Matthew

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • “A atual loucura digital é um veneno para as crianças”. Entrevista com Michel Desmurget

    LER MAIS
  • A religião do medo

    LER MAIS
  • Alerta da Oxfam: os mais ricos poluem, os mais pobres sofrem as mudanças climáticas

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


13 Outubro 2016

Em meio a eleições nacionais, hoje o Haiti se encontra, mais uma vez, lutando para se recuperar de um desastre.

Na região do sudoeste do país o furacão Matthew causou, na semana passada inundações massivas, levando Mourad Wahba, representante da ONU no Haiti, a dizer que a destruição era “o maior evento humanitário” desde o terremoto devastador de 2010 também ocorrido no país.

A reportagem é de Chris Herlinger, publicada por National Catholic Reporter, 06-10-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

As fatalidades ainda estão sendo contabilizadas, mas dezenas de milhares de pessoas já foram evacuadas de suas comunidades. Quase duas mil casas ficaram destruídas, assim como uma importante ponte, em decorrência de chuvas torrenciais e inundações.

Em geral, a capital do Haiti, Porto Príncipe, foi poupada dos estragos. Mas mesmo aí as chuvas causaram transtornos, em particular a lugares como a área chamada Trutier, nos arredores da cidade. Aqui, cerca de 500 famílias ganhavam a vida vasculhando um aterro de lixo em busca bens recicláveis.

“O que fazemos aqui? Buscamos coisas para sobreviver: plásticos para reciclagem e outras coisas”, disse a moradora Camecise St. Fleur, 16, sobre a vida em Trutier.

“Procuramos comida com prazo de validade vencido. Alimentos assim são jogados aqui”.

A morte por cólera é comum, assim como a ameaça de violência em meio a tensão e a incerteza constantes. Mas os moradores se recusam a curvarem-se diante das dificuldades e falam, ao invés disso, da solidariedade que conhecem e praticam, e dos pequenos atos de sobrevivência e bondade que mantém o povo na luta.

“Nessa região, somos como uma família”, disse Jean Gady, de 25 anos.

É uma família que se uniu ainda mais esta semana durante as chuvas e assim permanecerá até que o Haiti se recupere do furacão e alcance a estabilidade política.

As eleições nacionais do país, originalmente marcadas para domingo, tiveram de ser remarcadas por causa do furacão. Não se definiu ainda uma nova data, o que já havia acontecido por cauda da violência com motivações políticas ocorrida em 2015. O atual presidente, Jocelerme Privert, está provisoriamente no cargo. Uma lei impede que Michel Joseph Martelly, presidente entre 2011 e começo 2016, de concorrer a um outro mandado.

Em lugares como Trutier, é mais comum ver uma irmã católica do que uma autoridade política eleita.

Aqui, a Kkottongnae Haiti, congregação religiosa de origem sul-coreana, fornece alimentos e acompanhamento pastoral a moradores. Numa região onde os estranhos são vistos com cautela, o trabalho da Irmã Matthias Choi e suas colegas tem sido bem recebido.

Choi acha um trabalho modesto aquilo que ela e outras fazem na localidade, e diz que a distribuição mensal de arroz e feijão é apenas uma ninharia. O mesmo tempo, é um começo necessário.

“A esperança não é o importante nesse momento”, disse. “As coisas pequenas é que o são, e precisamos fazer isso”.

Outros que atuam no local concordam.

“Eles nos ajudam onde quer que estamos”, disse Gady do trabalho das irmãs coreanas. “Outras organizações não se preocupam com a gente”.

A questão de quem acompanha e quem não acompanha lugares como Trutier fica particularmente evidente agora em época de campanha eleitoral, onde há dezenas de candidatos presidenciais naquela que deve ser uma eleição em dois turnos. Se, como esperado, nenhum candidato receber uma maioria de votos no primeiro turno, então uma segunda data será marcada para mais uma disputa.

Poucos haitianos demonstram interesse ou preocupação pelas eleições, principalmente em áreas como Trutier, onde se vive constantemente com o desafio da pobreza.

“A eleição não é importante para nós”, disse Gady. “Ela pode ser importante para o país, mas os candidatos não vêm aqui ou, se vierem, eles vêm, saem e se esquecem da gente”.

Apenas dois dos 27 candidatos são mulheres. A Irmã Ghislaine Landry, canadense da Irmãs da Providência, e sua colega haitiana, a Irmã Merci-Christ Sylméon, disseram ao sítio Global Sisters Report que, neste momento, os problemas das mulheres em geral não fazem parte do diálogo político mais amplo no Haiti. Entre as preocupações não debatidas na atual eleição está a violência doméstica, algo generalizado mas que raramente se fala a respeito, dizem as irmãs.

“As mulheres são muitas vezes vitimizadas e têm medo de denunciar”, diz Landry. “Acham que estariam colocando em risco suas vidas”.

Landry e Sylméon consideram que uma mudança neste quadro virá principalmente através da educação – motivo central dos planos de expansão da escolha administrada pela congregação delas no sul do Haiti.

“Acho que o país pode mudar, mas somente pelos próprios haitianos, e essa mudança virá por meio da educação”, afirma Sylméon.

Não longe da residência das Irmãs da Providência, a congregação das Irmãs Missionárias do Imaculado Coração de Maria recentemente hospedou um grupo de mulheres envolvidas em pequenos projetos de geração de renda apoiados pela congregação. É um “apoio mútuo para uma vida melhor”, explica a Rosemene Joanis, 53, participante do projeto.

Joanis disse que a fome é um problema real e substancial no país. Ela vende arroz cozido e farinha de milho em frente aos portões de uma fábrica e frequentemente lhe pedem as porções que ficam no fundo das vasilhas.

“Eu dou para as pessoas, e elas prometem me pagar no outro dia, mas esse outro dia nunca chega”, diz.

O crime e a insegurança estão no topo da lista das preocupações. Joanis disse que foi roubada duas vezes nos últimos anos e que já foi também ameaçada com armas de fogo.

As suas esperanças por uma mudança após as eleições são mínimas.

“Vamos ver o que vai acontecer, mas não tenho muita esperança”, disse.

Uma pessoa em um cargo de liderança e que engendrou esperanças no povo é o novo – e primeiro – cardeal católico romano do país, Chibly Langlois, nomeado pelo Papa Francisco em 2014.

Em entrevista ao Global Sisters Report sobre o estado do Haiti antes das eleições, Langlois evitou falar abertamente sobre política. O prelado, porém, traçou algumas diferenças entre o Haiti de 2010 e hoje.

“Em comparação com o ponto onde nos encontrávamos antes do desastre, grandes avanços foram feitos no país”, declarou. “Podemos ver que, do ponto de vista humano, o povo haitiano se recuperou daquela catástrofe”

No entanto, o cardeal não minimizou os problemas ainda existentes.

“Apesar do progresso que vemos, existem dificuldades que temos de enfrentar. Ainda temos pessoas vivendo em tendas. Ainda temos pessoas vivendo em alojamentos temporários. Há pessoas que ainda vivem em condições muito frágeis”, completou.

“Nós fazemos só um pouco daquilo que o governo deveria fazer”

No começo desta semana, a Irmã Annamma Augustine, que vive com outras irmãs na casa onde o grupo de mulheres havia se reunido poucas semanas antes, assistiu com cautela o furacão Matthew atingir o país.

“De fato, não temos como dizer o tamanho dos estragos porque é difícil chegar aos locais”, escreveu Augustine em entrevista por e-mail. “As estradas estão trancadas, a ponte se quebrou, não está fácil chegar às áreas afetadas. Podemos imaginar a força de um furacão de categoria 4. Quase nada consegue ficar de pé.

“O governo está pedindo que as pessoas se retirem das áreas ameaçadas. Mas ir para onde? Elas estão com medo de serem saqueadas e perderem o pouco que têm. Num país com o Haiti, não é fácil enfrentar um desastre assim. O que é doloroso realmente é que as vítimas são sempre os mais pobres. Por quê? Até quando?

“Nenhuma destas perguntas fazem sentido, mas temos de conviver com elas e partilhar a vida das pessoas, na luta e na dor. Hoje, essa é a missão. Ao mesmo tempo, ajudaremos como for possível e ficaremos ao lado do povo”.

Danos é algo comum na região conhecida como Wharf Jeremile, perto da região portuária da capital. Por estar em uma região de baixa altitude, ela também foi afetada com a grande quantidade de chuva que caiu.

Bienjuste Sedlin, 17, mora em Wharf Jeremile e conhece bem os desafios, as contradições e aspirações do país. Como outros da localidade, ele dá graças a Deus que um centro comunitário de um grupo de irmãs brasileiras volte sua atenção às necessidades das crianças e adolescentes, provendo alimento e escolarização para centenas delas.

Sedlin está completando o ensino médio e aspira ser engenheiro, o que pode não ser possível dada a situação econômica da sua família.

Em novembro, ele complete 18 anos – tarde demais para votar nas eleições deste ano, mas velho o suficiente para votar em um potencial segundo turno. Ele considera o ato de votar um direito civil e um dever. Mas quando perguntado se está otimista em relação à situação no Haiti, disse que está em dúvida.

“Não vejo mudança alguma”, declarou a respeito dos candidatos. “As pessoas brigam umas contra as outras. Não tem uma unidade nacional”.

Como muitos outros, Sedlin fala da necessidade de um presidente forte – “um bom presidente –, alguém que possa criar mais empregos e tentar construir um propósito comum para o país. A unidade nacional no Haiti, diz ele, mostrou-se ilusória.

A Irmã Renata Lopes, brasileira, membro da comunidade religiosa Missão de Belém em Wharf Jeremile, disse que, em um mundo ideal, “o governo deveria estar resolvendo os problemas” imediatos da região.

“Crianças com fome, adultos sem emprego: são estes os problemas que o governo deveria estar resolvendo. Nós fazemos só um pouco daquilo que o governo deveria fazer”, segundo ela.

O trabalho das irmãs católicas é elogiado em todo o país, em parte porque elas não só fazem o trabalho, mas também porque estão “dando um exemplo com suas ações”: são presentes entre as comunidades e trabalham para melhorar a situação.

Estas pessoas que atuam na base – como Sedlin na localidade de Wharf Jeremile e os moradores de Trutier, no aterro – elogiam as irmãs e outros religiosos e religiosas. O mesmo faz Langlois.

“Aqui no Haiti, as irmãs e os irmãos são muito respeitados e bem-recebidos pela sociedade haitiana. Eles dedicam suas vidas a Deus. Mas, acima de tudo, eles se doam ao serviço da comunidade”, declarou Langlois.

Choi falou que “é decepcionante ter a impressão de que é o governo quem deveria estar fazendo este trabalho”. Mas, disse ela, “não fico decepcionada. Sou uma privilegiada em trabalhar com os pobres”.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Irmãs no Haiti focam na recuperação do país após furacão Matthew - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV