“Erdogan arrisca-se a acabar como Saddam e a Turquia como o Afeganistão”

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07 Outubro 2016

Nunca combateu mas já acompanhou as curdas em combate, viu como elas viviam e o que enfrentam, numa “revolução política e social” que se faz todos os dias. A ativista Nursel Kiliç vive em Paris e é de lá que participa na revolução em curso na Síria da guerra, a revolução dos curdos, o grande povo sem Estado espalhado pela Turquia, Síria, Iraque e Irão. Passou por Portugal para falar da experiência de autogoverno em três províncias sírias, numa área que corresponde à região de Rojava, o Curdistão sírio, e que desde 2012 escapa ao controlo de Bashar al-Assad.

A entrevista é de Sofia Lorena, publicada por Público, 05-10-2016.

Eis a entrevista.

Diz que o que se passa em Rojava é “uma revolução dentro da revolução”. Também é uma revolução no meio de uma guerra terrível. É da natureza da revolução, surgir sempre entre a violência?

Nós vivemos sempre entre a violência, oprimidos. O povo curdo não conhece outra realidade, a nossa revolução teria sempre de se fazer entre a violência. Mas é muito difícil, sim. É uma luta de todos e de todos os dias. Trava-se contra ditadores, contra os radicais do Daesh [o autodenominado Estado Islâmico], enquanto na Turquia enfrentamos as Forças Armadas, a incompreensão e, muitas vezes, o silenciamento da nossa luta e dos nossos motivos. É um combate que se faz na diáspora também, que é onde eu estou. Mas é uma luta que cada vez ganha mais adeptos e interessados.

Kobani [cidade junto à fronteira da Síria com a Turquia, que as forças curdas defenderam do Daesh e que ficou totalmente destruída, entre o fim de 2014 e o início de 2015, em batalhas que fizeram pelo menos 1600 mortos] foi reconhecida como cidade-mártir por vários líderes internacionais, François Hollande, Angela Merkel. Foi uma batalha por toda a humanidade. Hoje, a imagem dos curdos é mais simpática. Ao mesmo tempo, temos uma população inteira, curdos, mas também turcomanos, muçulmanos e cristãos, árabes, e hoje toda esta população vive em harmonia sob uma experiência de governo curda.

Espantou-a que o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, tivesse recomeçado o combate contra os curdos (oficialmente, contra o PKK, Partido dos Trabalhadores do Curdistão, organização que a União Europeia considera terrorista) e, ao mesmo tempo, entrasse na guerra síria de uma forma mais robusta logo depois do golpe de Estado falhado de 15 de Julho?

Erdogan apelou a todos os seus militantes, simpatizantes, para declararem guerra aos curdos, quando os mandou para rua, durante o golpe e depois, nas manifestações. Ele quer ser o sultão moderno de toda a região, do Médio Oriente. E para isso tem de derrotar o HDP [Partido Democrático do Povo, a formação pró-curda que nas eleições de Maio de 2015 entrou no Parlamento com 13% e roubou a maioria ao partido de Erdogan], o projeto político que oferece aos turcos democratas um sistema alternativo. Quando analisamos o que se passa na Turquia ou na Síria temos sempre de olhar para os curdos como um todo, ver o que está a acontecer em Diyarbakir, na Turquia; em Rojava na Síria, e no Curdistão iraquiano.

O que Erdogan teme mais do que tudo é agora Rojava, onde nos últimos anos foi proclamado um novo contrato social. Até aí não se produzia na realidade tudo aquilo que discutíamos, era apenas teoria. E estamos a falar de um povo com muita coragem e determinação ideológica, Erdogan tem medo disso.

Com tudo o que se passa na região, a desintegração do Iraque, a determinação de Erdogan, as diferentes guerras da guerra Síria, não teme que a experiência atual em Rovaja sofra um recuo, acabe por se perder no caos?

Claro que há sempre riscos. Este mundo conheceu dois blocos e viveu já sob diferentes dinâmicas, a da superpotência, enfim, várias. É sempre possível haver um retrocesso histórico, estamos muito conscientes dos riscos. Mas nós estamos numa boa posição. Estamos no coração deste equilíbrio político complexo que envolve os Estados Unidos, a Rússia, a Turquia, a Arábia Saudita, o Irão… muitas forças juntas que, no fundo, estão a tentar fazer tábua rasa do Acordo de Sykes-Picot, que fez agora 100 anos. A França, claro, e o Reino Unido, também jogam aqui um papel importante. Tudo isto está a produzir uma revisão do pensamento dominante sobre a região e, particularmente, sobre a Síria.

Temos de ter um olhar otimista. A Turquia hoje é muito fraca. Com Kobani, a Turquia perdeu todo o paradigma em que o AKP [Partido da Justiça e do Desenvolvimento, no poder em Ancara desde 2002] assentava, e o próprio Erdogan, claro. Este partido era um projeto de islão moderado e Erdogan queria ser líder do Médio Oriente com esse caderno de encargos. Este paradigma já não existe mais. A Turquia está fraca e nós estamos numa posição de força. Atualmente somos um parceiro inevitável, toda a gente quer ter uma coligação connosco, toda a gente precisa dos curdos, para combater o Daesh e não só.

Erdogan está a agir por desespero ou acredita mesmo que vai derrotar os curdos, o Daesh, Assad?

A Turquia está num grande impasse. Ou vai escolher reconhecer a realidade dos curdos, assumir que existimos e temos direitos, ou terá o mesmo destino que o Afeganistão ou um Iraque. Caminhará para ser um estado falhado. É essa fase que estamos. Se a Turquia acabar assim, não excluo que Erdogan tenha um destino como o de Saddam Hussein ou Muammar Kadhafi. Eu vi o medo no rosto dele na noite do golpe falhado. Sim, ele adotou uma estratégia de sobre violência que só se pode explicar com este medo, este terror de quem está a perder o controle, o poder. Em todo o caso, o futuro passará pelos curdos. Se não for dado aos curdos o reconhecimento que esperamos a Turquia vai mesmo no caminho do Afeganistão. E nesse momento, é a região que vai perder, é todo o povo. Digo isso como curda e como revolucionário, e lamento-o.

Em Rojava as mulheres combatem, claro, mas estão pouco representadas nas administrações civis…

A par da revolução, da luta por um sistema democrático federal, estamos a lutar pela democratização das mentalidades. São ambas fundamentais e muito difíceis. É uma luta mútua. Pensemos que uma jovem que antes não podia fumar livremente, à frente do pai, por exemplo, que talvez nem se pudesse sentar à vontade ao lado do pai, agora pega em armas com o pai, ou com um irmão. Era um grande tabu a mulher combater. Essa mudança já não é uma esperança utópica, é realista, é uma transformação que estamos a construir, uma utopia que existe já.

Também há quem acredite que os turcos já negociaram com os russo e com os americanos um acordo para dar uma autonomia aos curdos da Síria e que esse acordo vai de algum modo enquadrar os curdos da Turquia.

Os curdos não esperam a solução de ontem. Nós estamos a construir a nossa solução. Esse “acordo”, este equilíbrio, a acontecer, é uma obrigação do mundo para com os curdos. Os curdos são, de fato, essenciais, e o conflito regional não cessará sem algum acordo que acomode os nossos interesses. Isto não vai acontecer amanhã, mas vai acontecer. A convicção cresce e a opinião internacional tenderá a ser ainda mais favorável.

Abdullah Öçalan, líder do PKK, preso, vai ser sempre imprescindível num futuro diferente para o Curdistão?

Sim, foi ele que iniciou este processo. É ele o interlocutor principal para o reconhecimento de um Curdistão. Todo este aumento de violência política cá fora aconteceu em paralelo ao isolamento prisional dele. Há dois anos que não recebe visitas, de ninguém, nem da família. Eles enviaram o seu irmão e ele, em protesto, recusou recebê-lo. Esteve 45 minutos sem aceitar a visita e depois lá consentiu em mostrar-se ao irmão, sói para o povo saber que ele está vivo.

Em Rojava há quem se queixe do romantismo com que Öçalan é visto. E também das regras e das leis que a nova administração aplica. Há até quem tema que o ditador Assad esteja só a ser substituído pelo ditador Öçalan.

Essa é a luta de todos os dias. Na revolução é preciso que todos estejamos em harmonia. Há o aspecto da autodefesa, claro, não nos podemos esquecer disso porque desse combate depende a vida e a morte, é preciso fazer esta guerra para podermos viver. Isto é a revolução. E tudo isto se passa num meio que de base é incrivelmente conservador. Estamos a construir uma nova sociedade. E isso faz-se informando, sensibilizando, minuto a minutor. Para o fazer precisamos de várias ferramentas, a autodefesa é uma delas, as associações como a nossa, as assembleias de mulheres, a academia, os comités de bairros, são outras.

Se queremos ser livres temos o projeto político, que defendemos com as armas, e o projeto social, no qual usamos as ferramentas que enumerei. Não nos podemos esquecer que todos os dias há mártires, todos os dias há explosões, bombardeamentos. Nós deixamos de ligar, dessensibilizamo-nos para sobreviver. Mas há um momento em que paramos e nos cai tudo em cima. O que nos salva é acreditarmos que estas pessoas não morrem por nada. Nenhuma destas pessoas morre em vão. Isto pode parecer um discurso muito militante, mas a verdade e que eu acredito nisso e quem combate também. A memória de todos os mártires vai persistir no nosso futuro conjunto.

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