Por que mais de 60% dos colombianos ignoraram referendo sobre acordo de paz

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05 Outubro 2016

O grande vencedor do referendo que derrubou o acordo de paz assinado entre o governo colombiano e a guerrilha foi a apatia. Isso é o que sugerem os números mostrando o que foi uma baixa participação em uma votação considerada histórica.

A reportagem foi publicada por BBC Brasil, 04-10-2016. 

A votação de domingo registrou 62,6% de abstenção, a maior nos últimos 22 anos. Apenas na eleição presidencial de 1994, na qual competiram Ernesto Samper e Andrés Pastrana, a abstenção ultrapassou essa marca, com 66,2%.

De acordo com o Registro Nacional, 34 milhões colombianos estavam habilitados a votar. Mas apenas 13 milhões foram às urnas. No domingo, o "não" venceu o "sim" com 50,21% de votos contra 49,78%.

A ausência dos eleitores é um fenômeno observado em muitas partes do mundo. No entanto, de todos os países da América Latina, a Colômbia é o lugar onde a abstenção é mais pronunciada, de acordo com um estudo encomendado pelo Registro Nacional do país à Universidade Sergio Arboleda em 2013.

No domingo, as razões para a fraca participação vão desde as condições meteorológicas até a rapidez com que a consulta foi convocada - além da desconfiança tradicional do povo colombiano em seus líderes e instituições.

Chuva

Entre os fatores que podem ter afetado a votação está o mau tempo, particularmente na região do Caribe, que sentiu os efeitos do furacão Matthew. Em todas essas regiões costeiras houve uma menor taxa de participação do que a média nacional.

A menor frequência ocorreu nos departamentos de La Guajira (19,39%), Atlântico (24,10%) e Bolívar (23,36%). Em algumas áreas, os eleitores não puderam mesmo ir às urnas.

No departamento de Choco, na costa do Pacífico, as mesas tiveram de ser transferidas de local em dois distritos (municípios). Em outros, as cédulas não chegaram a tempo devido ao transporte interrompido por causa das condições meteorológicas.

Curiosamente, Choco está entre os dez distritos que tiveram as maiores taxas de abstenção e onde todos votaram "sim", de acordo com os dados oficiais.

Na capital, Bogotá, a única região central do país onde o "sim" ganhou, a manhã também começou com chuva.

Apatia

O balanço foi também um resultado da tradicional apatia do eleitor colombiano. Essa apatia já havia sido tacitamente reconhecida pelo baixo nível de comparecimento necessário para validar o referendo: apenas 4,5 milhões de pessoas.

Na verdade, analistas e pesquisadores já diziam que a abstenção seria a estrela do plebiscito. Esse foi o prognóstico de que deu a consultoria Cifras&Conceptos à agência de notícias AP poucos dias antes da votação.

De pouco serviram a constante publicidade no rádio e na televisão a favor do "sim" ou do "não", e os debates apaixonados e entrevistas que destacavam a importância da participação dos cidadãos.

Nem o preâmbulo em Cartagena foi suficiente. Possivelmente, a cerimônia de assinatura do acordo ante aos olhos do mundo tenha refletido a ideia de que a paz já era um fato e não havia por que sair para votar.

Desilusão

O significado do plebiscito pela paz não pôde competir com a história de um eleitorado que acredita que seu voto tem pouco impacto sobre a liderança do país.

O estudo encomendado pelo Registro Nacional observou "altos níveis de insatisfação com os partidos políticos e a falta de legitimidade tanto das eleições quanto de outras instituições democráticas".

Para isso contribuem as desigualdades econômica e política, e o fracasso das promessas de campanha de políticos eleitos.

Em um país assolado pela violência, a brutalidade tem sido frequentemente associada ao processo eleitoral, onde grupos armados perseguem, intimidam e até matam cidadãos no exercício do seu dever cívico, segundo o estudo.

A fraca participação do cidadão em outros processos democráticos nas últimas décadas é indicativo de que se perdeu a consciência na eficácia desses mecanismos.

Processo apressado

Por fim, a convocação do referendo pode ter sido simplesmente rápida demais.

Depois de complexas negociações de quatro anos em Havana, que produziu um documento de 297 páginas, o país teve um pouco mais de um mês para digerir o acordo de paz.

Durante os debates entre os dois lados, houve acusações mútuas de divulgação de mentiras sobre os temas centrais do tratado, o que poderia ter complicado em vez de esclarecido a questão para o eleitorado.

Além disso, as autoridades eleitorais tiveram de organizar o exercício democrático em tempo recorde, dificultando as inscrições e reduzindo assim o número de cidadãos que poderiam participar.

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