Francisco, entre a verdade absoluta e o relativismo laico. Artigo de Eugenio Scalfari

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06 Setembro 2016

"O maior obstáculo que Francisco encontra é o contraste que ainda o divide entre a verdade absoluta e o relativismo laico. Esses dois modos de considerar a verdade são irreconciliáveis, e esse é um obstáculo aparentemente insuperável para aquele encontro com a modernidade que é um dos preceitos mais importantes do Vaticano II."

A opinião é do jornalista italiano Eugenio Scalfari, fundador do jornal La Repubblica, 04-09-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Os mortos, as ruínas, os funerais, as polêmicas, os projetos de reconstrução, a assistência: tudo já foi vivido pelas vítimas do terremoto ocorrido em Abruzzo, na Úmbria, no Lazio de Rieti, naquela faixa dos Apeninos já posta várias vezes à prova. Agora, é a vez da ação reconstrutiva. Os talentos existem, mas, junto com eles, também se reapresentam formas variadas e muito generalizadas de maus negócios, contra os quais seria necessário uma mente, uma experiência e uma honestidade a toda a prova.

Eu li na semana passada um amplo artigo publicado no jornal L'Osservatore Romano e escrito por Francesco Scoppola, durante anos superintendente do Ministério dos Bens Culturais [da Itália] e, particularmente, daquelas regiões onde o recente terremoto se desencadeou. A pessoas como ele deveria ser confiada a projetação da fase atual: programa, pessoas capazes de implementá-lo, fundos necessários. Espero que o ministro competente também o tenha lido e tire as conclusões apropriadas.

Esse é o fazer, mas também há o pensar na natureza da qual todos nós fazemos parte, sofrendo ou provocando os seus efeitos. O terremoto é nosso inimigo, os vulcões são nossos inimigos, os abismos, que, de repente, se abrem debaixo dos nossos pés, são nossos inimigos? As pessoas normalmente pensam assim, e é natural que essa seja a reação diante da frequente repetição desses assustadores fenômenos, em um país como a Itália, onde as catástrofes geológicas são frequentes e generalizadas.

Mas esse fenômeno natural, além das gangues que se alimentam dele, também põe Deus em causa para os presentes. Por que Deus não intervém, não impede eventos que causam sofrimentos e morte para pessoas, idosos, crianças, ricos e pobres? Deus não existe, mas apenas uma natureza confiada ao acaso ou ao destino? Dom Pompili, bispo de Rieti, inverteu o problema, afirmou publicamente nos dias da dor que terremotos e vulcões construíram o mundo e não produziram o mal; são os homens que matam os homens com as suas obras imperfeitas e os seus maus negócios.

As pessoas, na sua grande maioria, ficaram, no mínimo, surpresas. Mas, depois de três dias, o Papa Francisco falou, as pessoas nos países destruídos esperam que ele vá pessoalmente visitá-las e confortá-las. Francisco falou ainda mais claramente do que o bispo. Ele disse: "Terremotos e vulcões construíram o mundo, e, particularmente, os lugares emergiram das águas. Convidamos a todos a um exame de consciência, a fim de confessar os nossos pecados contra o Criador, contra a Criação, contra os nossos irmãos e as nossas irmãs, porque, quando maltratamos a natureza, maltratamos também os seres humanos e, particularmente, os mais indefesos, que são os pobres".

Esse é o pensamento de Francisco, assim como foi o pensamento do santo do qual ele assumiu o nome. A Criação é santa, porque santo é o seu Criador. Os homens, isto é, a nossa espécie, também fazem parte da Criação, mas a eles Deus deu a liberdade de escolher entre o bem e o mal. Aqui está o ponto que nos diferencia do restante da Criação. Mas como e por quê? E isso vale apenas para o Deus dos cristãos ou também para as outras religiões? O Deus é único, pensa e diz Francisco. Mas as outras religiões concordam? E demonstram e pregam isso como Francisco?

* * *

Teoricamente, todas as religiões, sobretudo as monoteístas, não negam o Deus único, embora falem o menos possível dele. No entanto, há duas diferenças fundamentais em relação à Igreja Católica e também às outras Igrejas cristãs: nem os judeus nem os muçulmanos têm à sua frente um papa, um patriarca ou mesmo um religioso que os represente. Há rabinos mais influentes do que outros e assim também imãs que se distinguem pelo seu saber e pelo número dos seus seguidores, mas não há um papa. E essa é a primeira diferença.

A segunda, porém, é ainda mais importante e diz respeito apenas aos muçulmanos. Muitos Estados em que eles estão divididos são todos teocráticos, ou seja, o poder político e, portanto, também o religioso estão nas mãos de um religioso, e isso cria grandes diferenças em relação ao restante do mundo.

Bernardo Valli, na sua coluna de hoje na revista L’Espresso, dedica precisamente a esse tema as suas reflexões. O artigo é intitulado "Como se diz laicidade em árabe", e escreve assim: "A Medina de Maomé não foi apagada das consciências. Ela contribuiu para alimentar as fantasias e as paixões, e continua sendo ainda um refúgio extremo nas desgraças. O retorno à Medina de Maomé é o remédio para todos os males do século, para todas as humilhações sofridas. E também pode ser uma fonte de fanatismo, como demonstra o Estado Islâmico".

A teocracia imobilizou o Islã. E dividiu em muitas seitas diferentes, os xiitas, os sunitas, os wahabitas, e muitos outras, mas o laicismo não existe, e, se alguma família islâmica que vive no exterior o pratica, é expulsa da comunidade e, às vezes, até mesmo morta, ou seja, é mobilizado o pai que faz justiça dos filhos que traíram o poder religioso e as suas leis.

Os muçulmanos conseguirão jamais adquirir o laicismo, sem, com isso, renunciar à sua religião? De fato, isso significaria renunciar à teocracia. Valli espera que sim e talvez tenha razão, mas vai levar séculos. Além disso, a Igreja Católica empregou séculos para rejeitar o poder temporal, que é uma forma de teocracia, mesmo que moderada. O Papa Francisco ainda luta essa batalha e ainda está longe de vencê-la.

O maior obstáculo que Francisco encontra é o contraste que ainda o divide entre a verdade absoluta e o relativismo laico. Esses dois modos de considerar a verdade são irreconciliáveis, e esse é um obstáculo aparentemente insuperável para aquele encontro com a modernidade que é um dos preceitos mais importantes do Vaticano II.

Francisco quer implementá-lo e é por isso que tenta encontrar uma solução. Em algumas das nossas conversas, eu tive a sensação de que ele encontrou a ponta do fio para desfazer a meada. Ele me advertiu, há algum tempo, mas agora me parece que ele está em ação nessa meada, e eu me congratulo com isso.

A nossa verdade – diz Francisco – é absoluta porque Deus é absoluto. Esse princípio não é superável e marca a nossa diferença com os não crentes. Mas o nosso absoluto é percebida por cada pessoa religiosa a seu modo. As pessoas não são clones. Cada uma crê na verdade absoluta, mas a seu modo. Portanto, a verdade absoluta é a minha, é a tua, é a que muitos bispos têm, por exemplo, sobre a família, uma verdade que não é a mesma de outros bispos, e assim sobre muitas outras coisas. São diferenças que enriquecem, e eu me permito acrescentar que enriquecem o mundo católico, mas também o mundo laico e não crente. Sobre tudo isso, domina a dúvida. Que não exclui a ação, mas mantém a vigilância crítica. Isso é o humanismo.

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