Sede bons como o pão. Artigo de Gianfranco Ravasi

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22 Agosto 2016

"Interroga a velha terra, e ela te responderá sempre com pão e vinho". Estas palavras da peça Anúncio feio a Maria, de Paul Claudel, expressam, de maneira essencial, o valor simbólico arquetípico destes alimentos primários e básicos, mesmo que não sejam completamente universais. Pois, o elemento básico da nutrição para os chineses é o arroz, para a América pré-colombiana foi o milho, para os Esquimós é a carne de foca, enquanto os antigos egípcios - que também atestam quarenta tipos diferentes de pães – usavam, em vez, o estereótipo "pão e cerveja". O pão permanece, no entanto, um sinal decisivo em todas as culturas, tanto assim que é possível falar de uma verdadeira civilização "do pão". Esse é exatamente o título do impressionante tríptico de volumes que recolhem o fruto de uma plurianual pesquisa interdisciplinar, que culminou numa Conferência Internacional, realizada em Brescia, em dezembro de 2014, em conexão com a Expo de Milão, que tinha escolhido, como se sabe, o tema do alimento.

A opinião é do cardeal italiano Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicada por Il Sole 24 Ore, 14-08-2016. A tradução é de Ramiro Mincato

A Santa Sé, naquela ocasião, escolhera, para cobrir as paredes externas do pavilhão, dois motes bíblicos emblemáticos: "O pão nosso de cada dia, dá-nos hoje" e "Não só de pão vive o homem".

É realmente surpreendente, diante desta investigação tão detalhada e enciclopédica, que o pedaço pão que está ainda hoje em nossa mesa, transforma-se numa espécie de planeta, com um mapa impressionante. É suficiente listar as análises temáticas deste trabalho. Parte da matéria-prima, dos instrumentos primários e elaboração (cereais, moinhos e mercados), depois passa para a panificação, em seus vários tipos, e a venda, entra-se no interior das cozinhas e dietas, faz-se uma pausa para contemplar as imagens artísticas em todas as suas variações possíveis, incluindo cinema, penetra-se na sacralidade do simbolismo religioso e no complexo sistema de alegorias e chega-se ao pão, na base da alimentação diária, em vários países do mundo.

Talvez, teria também sido possível um corte sobre a fome e sobre o alarmante desperdício, duas faces antitéticas, mas correlativas, da hodierna civilização do pão.

A fria lista proposta agora não dá conta da extraordinária riqueza, vivacidade, policromia temática e histórica desdobrada nas mais de duas mil páginas da trilogia, por meio da pesquisa de uma centena de estudiosos reunidos em torno de uma realidade, tanto material como metafórica, pedra viva marco da humanidade sedentária, sinal permanente, há milênios, da nossa própria existência física e espiritual.

A esperança é que este trabalho, editado por Gabriele Archetti, da Universidade Católica de Milão, e colocado sob a égide do Centro de Estudos Lombardos, entre em todas as bibliotecas públicas, porque através da história do pão se consegue representar a própria história humana na multiplicidade das suas expressões (não por nada, S. Agostinho declarava: "O pão conta a vossa história"). É uma espécie de retrato antropológico em que nos espelhamos, reconhecendo certa verdade ao famoso lema assonante Der Mensch ist was er isst que Feuerbach propôs em seu artigo de 1850. Sim, o pão é um pouco aquilo que nós somos, pensamos, fazemos, esperamos, acreditamos.

Gostaríamos, portanto, de dedicar livremente algumas palavras para o valor simbólico deste alimento, também amplamente desenvolvido nos ensaios desta obra dedicados aos "símbolos religiosos e às sagradas alegorias”, particularmente à luz do "grande código" da nossa cultura, a Bíblia, na qual este é, em definitivo, sinônimo de "alimento".

Bastaria ler apenas o alerta do Gênesis: "Com o suor do teu rosto comerás teu pão" (3,19), ou repetir a citada invocação do "Pai Nosso": "O pão nosso de cada dia dá-nos hoje", ou replicar o dito bíblico que Jesus opõe a Satanás tentador: "Nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus" (Mateus 4,4). É curioso notar que em hebraico o termo lehem, "pão," tem na base a mesma raiz que rege a palavra "guerra", alusão talvez a uma primária conquista da existência.

O certo é que pão - se seguirmos a Bíblia - evoca múltiplos significados: é um dom divino (Salmo 104,14-15), é metáfora para a sabedoria (Provérbios 9,5), é sinal celestial (o maná é chamado de "pão do céu" e "pão dos anjos"). Na verdade, se chegará ao ponto de representar as doze tribos de Israel, perante o Senhor, por meio de duas pilhas de seis pães cada, colocadas no templo de Sião, e chamadas de "os pães da face" (ou "da proposição"), porque colocados diante da arca da Aliança e por isso diante do rosto de Deus: no Arco do Triunfo de Tito, em Roma, representou-se também a mesa desses pães, saqueados durante a conquista de Jerusalém no ano 70.

O pão recebe, portanto, valor sagrado, como testemunhado na arcaica história do encontro entre Abraão e Melquisedeque, o rei-sacerdote de Salem: ele "ofereceu pão e vinho" ao patriarca bíblico, expressão de sustento material para o clã hóspede, mas reinterpretado em chave ritual já no texto do Gênesis (14,18-24), e em perspectiva eucarística na tradição cristã.

E aqui somos levados, sem esforço, para as palavras de Cristo na sinagoga de Cafarnaum: "Não foi Moisés quem vos deu o pão do céu, mas é meu Pai quem vos dá o verdadeiro pão do céu; porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo ... Eu sou o pão da vida ... Se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo" (João 6,32-35.51).

E, na última noite de sua vida terrena, Jesus sobre o pão da ceia pascal pronunciará as palavras que farão daquele alimento, tão comum e cotidiano, a presença constante de Cristo na história: "Tomai, comei: isto é o meu corpo" (Mateus 26,26). Entre parêntesis, não se deve esquecer que no antigo Oriente Próximo, o pão não poderia ser cortado, como se para não feri-lo, como se se tratasse de uma pessoa. Ele era apenas partido (cf. Is 58,7).

"Partir o pão" tornar-se-á, assim, no cristianismo, uma locução para indicar a Eucaristia, como se nota no relato dos Atos dos Apóstolos (2,42), mas sobretudo na esplêndida narração dos viandantes de Emaús: "Quando ele estava à mesa com eles, tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e deu-o a eles. E aqui se abriram os olhos e eles o reconheceram "(Luca 24,30-31). O pão, o que Cristo tinha multiplicado para saciar a fome dos pobres que o seguiam, é assim partido, todos os dias, para a fome do espirito.

Em resumo, podemos dizer que o pão lembra-nos, por um lado, a tragédia da pobreza e da fome do mundo, uma tragédia que poderíamos expressar com os famosos versos de dantescos do Conde Ugolino: Pianger sentì fra ‘l sonno i miei figliuoli / ch’eram con meco, e domandar del pane. Chorar ouvi, dentro do sono, meus filhos/ que estavam comigo lá, pedindo pão. Inferno XXXIII, 38-39).

Mas o pão, por outro lado, também se refere ao alimento da alma, a Eucaristia, que é "comunhão com o corpo do Senhor ... e é um pão único, porque, embora muitos, somos um só corpo" (Coríntios 10,16-17). E, consequentemente, o pão nos leva ao amor e à misericórdia, como recordava simbolicamente Manzoni no cap. 4 do Promessi Sposi, através daquele “pão do perdão", que padre Cristóvão implora ao irmão do cavaleiro que ele matou.

La Civiltà del Pane: Storia, tecniche e simboli dal Mediterraneo all’Atlantico, Editado por Gabriele Archetti, Centro Studi Longobardi. Ricerche I, Fondazione Centro Studi sull’Alto Medioevo, Spoleto, vol. 3, p. 2075, sip Gianfranco Ravasi.

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