Ortodoxos e Rússia: uma sinfonia variável

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17 Agosto 2016

Um estudioso russo me explicou por que, na história do seu país, há menos liberdade do que na dos Estados europeus. Vocês, ele me disse, tiveram a luta das investiduras, quando um papa, em 1159, condenou a investidura laica dos bispos e se opôs à participação do imperador na eleição do pontífice. Houve momentos em que a vontade do imperador prevaleceu sobre a do papa; houve outros em que a Igreja reivindicou fortemente as suas prerrogativas e foi senhora e soberana de territórios, sobretudo na Itália. Mas, a partir daquela luta entre a Igreja e o Estado, combatida por muitos séculos com instrumentos diferentes, nasceu, de acordo com o meu interlocutor russo, a liberdade dos europeus.

A reportagem é de Sergio Romano, publicada no jornal Corriere della Sera, 13-08-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Na Rússia, em vez disso, Estado e Igreja viveram, de acordo com um termo cunhado pelo Império Bizantino, "em sinfonia". O poder estava firmemente nas mãos do imperador, mas a Igreja Ortodoxa exercia sobre os fiéis, com a aprovação e o apoio do Estado, uma espécie de ditadura espiritual que deixava aos outros cultos um espaço limitado e vigiado. Pedro, o Grande, aboliu o patriarcado e atribuiu a si mesmo as suas prerrogativas, mas a Igreja Ortodoxa continuou encarnando a identidade espiritual do império.

Não é de se estranhar, portanto, que os bolcheviques, quando conquistaram o poder em 1917, consideraram a Igreja, para o futuro do seu regime, como não menos inimiga e pernicioso do que a autocracia imperial. Para conhecer a história do que aconteceu a partir da Revolução de Outubro até os nossos dias, existem agora os dois volumes conclusivos de uma grande obra em quatro volumes intitulada Storia della Russia e dei Paesi limitrofi. Chiesa e Impero (L’Impero sovietico 1917-1990 e La nuova Russia 1990-2015) [História da Rússia e dos países limítrofes. Igreja e Império (O Império Soviético 1917-1990 e A nova Rússia 1990-2015)] (Ed. Jaca Book).

O autor, Giovanni Codevilla, lecionou por muito tempo direito eclesiástico comparado na Universidade de Trieste e hoje é um dos maiores estudiosos europeus de história das relações entre Estado e Igreja na Rússia e na Europa oriental.

Por algum tempo, até o início dos anos 1920, o regime bolchevique foi ferozmente anticlerical. As igrejas foram fechadas e destruídas; as relíquias, dessacradas e profanadas; os ouros e as joias, confiscados; os padres e os bispos, presos ou passados pelas armas.

Codevilla relata o conto de um socialista revolucionário, que emigrou para Berlim, sobre o destino de um venerado ícone da Mãe de Deus em uma região onde a peste espanhola enfurecia. Os agricultores organizaram uma vigília de oração e uma procissão para implorar o fim da epidemia. Os agentes da Cheka, mãe de todos os serviços de segurança da União Soviética, prenderam os sacerdotes, sequestraram o ícone, profanaram-no, cobriram-no de cuspes. E, quando os agricultores decidiram ir "libertar a mãe de Deus", a Cheka os acolheu atirando contra uma multidão que era composta de idosos, mulheres, crianças.

A perseguição continuou até a eclosão da Segunda Guerra Mundial, mas se tornou sangrenta e impiedosa quando o regime entendeu como era difícil e impopular "libertar" o povo russo das suas antigas crenças. Havia, por outro lado, dentro da Igreja, um grupo de prelados que se definiram como "inovadores" e tentaram estabelecer com o regime uma relação de convivência digna. Mas o seu grupo foi rapidamente infiltrado por agentes da GPU (o novo nome da Cheka), que nunca deixaram, desde então, de manobrar a partir de dentro o mundo eclesiástico, para forçar os seus expoentes a prestar atos de homenagem e obediência.

Houve uma radical mudança de rota em 1941, imediatamente depois do início da invasão alemã da União Soviética. Depois de alguns dias de confusão e desorientação, Stalin não hesitou em adotar uma linha que Codevilla define como "NEP", por analogia com a Nova Política Econômica, que Lenin tinha adotado em 1921, quando foi necessário recorrer ao mercado para reparar os danos provocados pela economia marxista.

Tomado por sentimentos antibolcheviques com que muitas populações estavam acolhendo os invasores alemães, Stalin entendeu que os russos iriam combater pela pátria muito mais corajosamente do que combateriam pelo comunismo, e que, no conceito de pátria, havia um espaço solidamente ocupado pela Igreja Ortodoxa.

As igrejas foram reabertas, muitos sacerdotes saíram dos campos de concentração e das prisões, o patriarca e as hierarquias eclesiásticas puderam, com prudência, retomar as suas funções. Houve até um pseudoconcílio dos uniatas em Lviv, em 1946, para orquestrar o retorno à ortodoxia dos católicos de rito grego. Era um presente de Stalin para a Igreja Russa, mas também era uma manifestação da hostilidade soviética em relação à Igreja de Pio XII.

Terminada a guerra, esgotada a função patriótica da Igreja Russa, o regime recomeçou a perseguir processar e a prender. Codevilla assinala uma disposição do dia 26 de outubro de 1948, com que foram novamente presos e deportados aqueles que já haviam concluído o seu período de reclusão.

No dia 1º de outubro de 1949, os sacerdotes nos campos de concentração eram 3.523. Nos anos 1950, com Kruschev, houve uma nova campanha ateia. Nos anos 1970, com Brežnev, foi promulgada uma nova constituição soviética com a qual se garantiu aos cidadãos soviéticos "a liberdade de consciência, isto é, o direito de professar qualquer religião ou de não professar alguma, de praticar os cultos religiosos ou de realizar propaganda ateísta".

Era um passo à frente para a Igreja Ortodoxa, mas os verdadeiros progressos vieram com Gorbachev e Yeltsin. O primeiro autorizou as celebrações para o milésimo aniversário da Rus' de Kiev. O segundo promulgou uma lei que garantia igualmente liberdades de culto e de apostolado a todas as grandes fés religiosas da terra russa: ortodoxia, Islã, catolicismo, judaísmo.

A lei não agradou a Igreja Ortodoxa, porque parecia privá-la do seu primado histórico e foi corrigida por uma norma que restabelecia uma espécie de hierarquia: a ortodoxia em um degrau mais alto, e as outras fés em um degrau mais baixo. Lenta e cansativamente, a Igreja Ortodoxa, com todas as diferenças devidas à mudança das condições culturais e sociais do país, era a identidade espiritual do Estado russo.

Certamente, Vladimir Putin não será o estadista que tornará a Rússia mais laica. Em um belo ensaio publicado no quarto volume da obra de Codevilla, Stefano Caprio desenha um interessante perfil da religiosidade do presidente russo: "Não só ele faz ato de presença nas grandes cerimônias, mas vai regularmente à igreja, até mesmo em igrejas periféricas e não de vitrine, beija os ícones, faz o sinal da cruz, oferece velas aos santos, confessa-se e comunga com louvável frequência". É uma manifestação de religiosidade ou, talvez, mais simplesmente, um ato de fé na continuidade e na grandeza da história russa?

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