A espiritualidade salvará o mundo. Entrevista com Matthew Fox

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09 Agosto 2016

O teólogo estadunidense Matthew Fox (foto) é muito conhecido na Itália pelo seu livro In principio era la gioia [No princípio era a alegria] (Ed. Fazi, 2011), de cujo sucesso editorial também surgiu uma associação cultural que se dedica à difusão do seu pensamento (www.spiritualitadelcreato.it).

A reportagem é de Gianluigi Gugliermetto, publicada na revista Adista Notizie, n. 28, 30-07-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Depois de outros livros publicados novamente pela editora Fazi, nos últimos anos, a Associação Espiritualidade da Criação promoveu a publicação de diversas traduções das suas obras, que, deixando de lado os aspectos já conhecidos do seu pensamento, apresentam a riqueza da sua proposta espiritual a partir da sua primeira obra (Preghiera: una risposta radicale all'esistenza [Oração: uma resposta radical à existência], Ed. Gabrielli, 2014).

Depois de Compassione: spiritualità e giustizia sociale [Compaixão: espiritualidade e justiça social] (Ed. Claudiana, 2014), foi a vez da autobiografia, publicada no ano passado pela editora Garzanti. Em setembro, vai aparecer um novo livro, muito breve e sintético, mas de grande profundidade, intitulado La spiritualità del Creato: manuale di mistica ribelle [A espiritualidade da Criação: manual de mística rebelde] (Ed. Gabrielli).

Publicamos aqui a entrevista que Fox concedeu a Gianluigi Gugliermetto, pastor anglicano e fundador da Associação Espiritualidade da Criação, e que constituirá o posfácio do livro.

Eis a entrevista.

Quando o senhor escreveu este livro, "A espiritualidade da Criação", o mundo talvez se encontrava em uma situação de maior esperança. A Guerra Fria tinha terminado, a Guerra do Golfo ainda não tinha começado. Embora o senhor tenha sido reduzido ao silêncio por um ano e escreveu o livro no fim desse período, o tom geral do volume é muito otimista. Concorda? Escreveria o mesmo livro hoje? Ou, melhor, a síntese da espiritualidade da Criação que o senhor propôs nesse livro de 1991 ainda é válida hoje?

É verdade, obviamente, que a história e a cultura evoluíram desde que eu escrevi esse livro. Quanto à Igreja Católica, por exemplo, na época, alguns teólogos (incluindo Leonardo Boff e eu mesmo) tínhamos sido colocados sob silêncio por períodos limitados, mas ainda não tínhamos sido expulsos, como aconteceu, ao contrário, alguns anos depois. Posteriormente, um total de 106 teólogos e teólogas (a lista se encontra no meu livro La guerra del papa [A guerra do papa] (Ed. Fazi, 2012) foram silenciados, expulsos e postos sob tais condições de estresse a ponto de lhes provocar ataques cardíacos e crises nervosas. O Vaticano da era João Paulo II e Bento XVI estava comprometido a desacreditar a Teologia da Libertação e as Comunidades de Base, em conluio com o presidente Reagan e a CIA (um fato que eu documento no meu livro), mas ainda não era óbvio que conseguiriam isso e que substituiriam líderes cristãos autênticos e realmente heroicos, como Dom Romero, o bispo Casaldáliga, o cardeal Arns, por pessoas extremamente obedientes e pertencentes à extrema direita, membros do Opus Dei, da Legião de Cristo e outros ainda.

A podridão dos padres pedófilos e o seu encobrimento pela hierarquia, começando pelo cardeal Law até o cardeal Ratzinger, ainda não era visível para o público.

Quando o livro foi publicado, portanto, havia mais esperança em relação à Igreja Católica, por causa de uma certa ingenuidade.

Do ponto de vista cultural, o livro chegou bem antes dos dramáticos eventos do 11 de setembro e a resposta cega, liderada pelo seu cérebro reptiliano, dada pelo governo Bush-Cheney, com a invasão do Iraque com falsas razões e com o pandemônio que se seguiu, com o Oriente Médio que continua ardendo, da Síria ao Iraque, à Líbia e a outros lugares ainda. E a sucessiva "primavera árabe", como sabemos, obteve resultados ambivalentes.

Quanto à tese fundamental do livro, no entanto, eu acredito que ela ainda está de pé. Afinal, eu não sou jornalista. Como teólogo espiritual, tento dar um nome às correntes profundas do acontecimento humano, tanto as individuais quanto as comunitárias, correntes que estão presentes em todos os casos, independentemente dos eventos internacionais.

O que eu digo em A espiritualidade da Criação ainda é verdade, a meu ver: agora, mais do que nunca, precisamos de um despertar intercultural que nasça de uma paixão profunda pela justiça e pela compaixão, por um novo sistema econômico que funcione para todos, pela renovação das formas educacionais e de uma filosofia da aprendizagem que enfatize a criatividade em vez da obediência, que considere a ecojustiça como essencial para a nossa sobrevivência como espécie (obviamente, também das outras espécies) e que se comprometa para reunir as tradições sapienciais de toda a Terra (incluindo a ciência de hoje), em vez de continuar as guerras religiosas e as divisões ideológicas.

Eu chamo isso de "os quatro E": a educação, a ecologia, a economia e o ecumenismo. É óbvio que a espiritualidade da Criação, que coloca a Criação como via mestra da experiência do divino e do sentido do sagrado, está no cerne do renascimento que todos estamos buscando. Por isso, eu continuo sugerindo que passemos do conhecimento para a sabedoria, uma passagem que um verdadeiro renascimento espiritual pode realizar ou, melhor, deve. A ciência deu grandes passos nos últimos 25 anos, quando esse livro foi publicado em língua inglesa, despertando a todos nós, através das suas descobertas, para a importância da interconexão como base da compaixão (da qual eu falo no meu livro Compaixão: espiritualidade e justiça social).

Portanto, o senhor não é induzido ao pessimismo pelos acontecimentos dos nossos dias?

Thomas Berry ressaltou que, muitas vezes, é nos períodos mais obscuros da história que emergem as fases mais criativas. Esse foi o caso da dinastia Han na China do século III, e uma coisa semelhante ocorreu na Idade Média europeia. A escuridão não deve induzir ao pessimismo, mas pode ser um convite para acender os focos da criatividade e da imaginação social. O movimento da espiritualidade da Criação faz isso há décadas na área da pedagogia, com resultados estupendos, assim como na área da ecologia e do ecumenismo. E, certamente, devemos pressionar por uma nova economia que funcione e temos, dentre outros, o economista David Korten, que está comprometido em traçar uma economia que funcione para todos, incluindo os não humanos.

Foi Tomás de Aquino que nos advertiu que "o desespero é o mais insidioso dos vícios" (enquanto o pior dos pecados, para ele, é a injustiça). Quando estamos desesperados, observa Tomás, não nos amamos e, por isso, não amamos os outros. O desespero expulsa compaixão dos nossos corações. A esperança, portanto, é necessária para sobreviver, mas eu gosto da definição de esperança que nos é dada pelo ecofilósofo David Orr: "A esperança é um verbo que arregaça as mangas". A nossa esperança e o nosso otimismo são proporcionais ao esforço que decidimos assumir.

Qual a importância, para o senhor, de que a espiritualidade permaneça distinta da religião? Acha que a Igreja Católica ou as outras Igrejas estão se movendo rumo a uma fase de reformas? Acha que as pessoas podem ser alcançadas pela espiritualidade da Criação, embora não pertençam a nenhuma instituição religiosa?

Eu acho que a religião institucional tal como a conhecemos está prestes a terminar a sua corrida, no Oriente e no Ocidente. Gaia – a Terra – está tão seriamente em perigo e as instituições modernas estão tão longe das pessoas que se pode traçar um paralelo entre os períodos semelhantes da história do Ocidente, quando nasceram novas ordens. Eu penso no nascimento dos beneditinos no século VI, nos franciscanos e nos dominicanos no século XIII, nos jesuítas no século XVI. As ordens respondem mais rapidamente às mudanças culturais em relação aos grandes aparatos das religiões institucionais.

Em certo sentido, a multiplicação dos movimentos no interior do protestantismo refletiu o nascimento das ordens na Igreja Católica Romana, mas não completamente. A base do protestantismo foi a reação contra os abusos da Igreja Católica, e, embora o protesto e o "não" profético sejam algo muito positivo, o resultado obtido colocou em segundo plano o "sim" místico à vida e à própria mística. Os limites do protestantismo, que, aliás, nasceu contemporaneamente com o mundo moderno, são bem visíveis hoje, como Paul Tillich havia previsto há 75 anos, falando de "fim da era protestante".

Mas, hoje, nós também vivemos na era do fim do catolicismo romano. O planeta Terra se encontra em circunstâncias tão preocupantes que não podemos nos dar ao luxo de esperar que as religiões organizadas se mexam. A própria Terra está chamando muitos jovens a realizarem novas formas comunitárias, uma nova união entre contemplação e ação, entre mística e profecia, que ocorre fora dos muros dos mosteiros e, muitas vezes, fora das Igrejas. Muitos jovens estão respondendo com generosidade e com coragem a esse chamado e são bem poucos os que esperam que a orientação seja assumida pela Igreja institucional.

Além disso, a assunção de tradições e de práticas espirituais que provêm do Oriente e dos povos indígenas também é um sinal dos nossos tempos. O seu sucesso não depende tanto da religião institucional, mas sim da fome dos corações e do desejo profundo que as almas têm de degustar o divino mediante práticas de meditação que são não dualistas e que unem profundamente corpo, alma e espírito. A ioga e a meditação zen são exemplos, mas existem muitas outras práticas, incluindo a arte-como-meditação, a missa cósmica, os mantras cristãos, o estudo dos nossos místicos ocidentais, a permacultura e as hortas, e, por fim, as práticas de derivação nativo-americanas, como a cabana do suor e a busca da visão.

A espiritualidade da Criação promove todas essas coisas, permanecendo atenta ao que acontece na cultura. A religião e a espiritualidade, muitas vezes, tomam caminhos separados, e eu lamento isso. Mas a espiritualidade vem em primeiro lugar. Obviamente, é bom convidar as pessoas que ainda frequentam os ritos religiosos a se aproximarem do âmbito da espiritualidade. Recentemente, tentamos fazer isso lançando as Estações do Cristo Cósmico, por exemplo. Temos a intenção de lançar em breve uma nova "ordem espiritual" (não – que fique claro – uma ordem religiosa), que terá como único centro a sacralidade da Terra. Será pedido dos seus membros um único voto, que terá dois aspectos: o místico, isto é, a promessa de amar a Terra, e o profético, isto é, a promessa de defender a Terra.

Esperamos que muitas pessoas façam parte, provindo de diversas tradições religiosas ou de nenhuma delas, jovens e idosos, ativistas que também queiram ser contemplativos, e contemplativos que também queiram ser ativistas, pessoas heterossexuais e pessoas homossexuais ou queer.

A minha leitura da história me diz que é o momento para tal escolha, e que devemos aprender a lição do passado, tentando não cair na armadilha montada a São Francisco, cuja visão foi instrumentalizada enquanto ainda estava vivo, e, dentro de um única geração, a sua ordem era fundamental para gerir a Inquisição. Por isso, a ordem de que eu falo deve ser uma ordem espiritual e não religiosa.

O senhor precedeu a ecoteologia, hoje presente nas escolas de teologia, mas ela se tornou uma disciplina em si mesma. Como ocorre originalmente para o senhor a conexão entre teologia e ecologia? É claro que a sua "espiritualidade da Criação" não se limita à questão ecológica, mas está intimamente ligada à Terra. Qual é, portanto, a relação entre a Terra e Deus?

É encorajador descobrir que as Igrejas e a sociedade inteira deram grandes passos desde que esse livro foi publicado pela primeira vez em relação à importância da ecoteologia e das práticas ecológicas. Podemos indicar o Acordo de Paris sobre as Mudanças Climáticas, as revelações da ciência sobre tais mudanças e sobre a extinção das espécies, a encíclica do Papa Francisco Laudato si' (que, entre parênteses, foi escrita em grande parte por uma pessoa que foi meu aluno em um mestrado de espiritualidade da Criação), e o despertar do interesse pelos grandes místicos da espiritualidade da Criação de ontem e de hoje.

A chave é a redescoberta da sacralidade da Terra e da sua casa mais ampla, o universo. A Terra nunca pecou, apenas os seres humanos pecam. A Terra é uma bênção original sem igual, e todas as nossas bênçãos derivam dela. Todos os seres são outro Cristo, um Cristo Cósmico.

Essa "terceira natureza" de Cristo, isto é, o Cristo Cósmico, foi ignorada durante séculos, mas está presente nos primeiros escritos da tradição cristã: nas cartas paulinas, como por exemplo na carta aos Colossenses, e em outros lugares, como no Evangelho de Tomé, que poderia ser datado à época de Paulo, antes ainda dos Evangelhos sinóticos. Uma vez que, como disse Thomas Berry, "a ecologia é o aspecto funcional da cosmologia", o Cristo Cósmico é um Cristo ecológico. A luz e a beleza da Terra nos mostram a divindade criadora, mas os sofrimentos da Mãe Terra nos mostram a crucificação do Cristo cósmico na nossa época. Matar a Terra, a diversidade das suas espécies, as águas e os peixes, as árvores e as florestas significa crucificar de novo o santo Cristo.

Os impérios de hoje fazem com a Terra e com as criaturas aquilo que o Império Romano fez com Jesus. Deus e a Terra estão em relações íntimas. No seu livro Kabbalah and Ecology: God's Image in the More-Than-Human-World [Cabala e ecologia: a imagem de Deus no mundo mais-do-que-humano], o rabino David Seidenberg publicou o seu importantíssimo estudo sobre toda a história do pensamento judaico fazendo-se uma única pergunta: "A noção de imagem-de-Deus do judaísmo é aplicável apenas aos seres humanos ou a todos os seres?". A sua resposta: a todos os seres. Esse é outro modo de falar do Cristo Cósmico que é a luz de todos os seres, como lemos em João 1. Um ensinamento paralelo a esse se encontra na noção de budidade ou de natureza-de-Buda, e assim por diante.

Recentemente eu publiquei, junto com o bispo anglicano Marc Andrus, um livro que explica uma prática muito concreta e importante chamada de "estações do Cristo Cósmico". Nesse livro, apresentamos uma miniperegrinação como a da Via Sacra, mas centrada não nas últimas 18 horas da vida de Jesus, mas nos seus ensinamentos e nos maiores eventos da sua vida, que os Evangelhos situam sempre em um contexto cósmico. Essas estações incluem também os chamados "Eu-sou" do Evangelho de João, que também são palavras do Cristo Cósmico e que derivam da comunidade cristã depois da morte de Jesus, não dos lábios do Jesus histórico. Tanto nos EUA quanto na Itália, há artistas que criaram essas estações em argila [como as imagens que ilustram esta página], e eu gostaria de encorajar outros artistas a contribuir para criá-las para todos os edifícios de culto cristão... do mundo!

O livro abre com a "nova história da criação". De que se trata? Em que sentido ela se conecta com a história bíblica? O cristianismo não deveria manter a sua história da criação?

A ciência nos deu uma nova história da criação que une muitos povos do planeta, para além das suas culturas, etnias ou tradições religiosas. Essa é uma coisa boa, porque as tribos humanas sempre permaneceram unidas em torno da sua história da criação, e hoje nós, seres humanos, estamos nos tornando uma só tribo, embora na diferença de filões de ideias e de costumes culturais.

Não estou dizendo que devemos jogar fora a cornucópia de histórias da criação que recebemos dos nossos antepassados, sejam elas bíblicas ou decorrentes das tradições indígenas etc. Trata-se de um et-et. A história científica desperta a maravilha e nos diz como chegamos até aqui. Trata-se de coisas que é necessário conhecer e que são mais do que banalmente edificantes. São verdades universais, como a ciência. Mas as nossas histórias bíblicas (e há mais de uma, tanto na Bíblia hebraica quanto na cristã) também têm muito a nos ensinar. No entanto, muitas das lições que podemos aprender não estão tanto na letra dos fatos científicos, mas no nosso comportamento quando chegamos a conhecê-los.

O senhor oferece uma série de "regras para viver no universo". Qual é a sua relação com a disciplina, no sentido de que o senhor geralmente parece mais interessado na libertação das regras do que em ditar novas. Além disso, quão difícil é obedecer às regras de que o senhor fala?

Quando eu falo de "regra", também falo de "habitus" ou de "virtus", no sentido latino, ou de valores. Para que esses valores se sustentem, é necessária a disciplina interior e de apoio coletivo. Mas, se a sociedade decide aderir a eles, torna-se mais fácil fazê-los viver. Eles se tornam parte da nossa educação escolar, das histórias coletivas e da arte, seja ela música, cinema, teatro, dança ou ritos. É tarefa de uma coletividade sadia tornar mais fácil a adesão a essas "regras". São necessárias, sobretudo, coragem e generosidade, que eu sempre vou buscando nas pessoas, porque considero que são os sinais mais relevantes do espírito do nosso tempo. Fico contente de encontrá-los especialmente nos jovens. Celebrar esses valores e louvá-los publicamente faz parte da sabedoria intergeracional que queremos promover, assim como também encarná-los na educação, na religião etc. [Entre as "regras" de que Fox fala no livro, encontram-se a extravagância, a expansão, a variedade, o vazio, a criatividade, a justiça e a beleza].

Como o senhor percebe a especificidade da cultura italiana em relação à espiritualidade da Criação? Quais são as possibilidades de que esse movimento se afirme na Itália?

Estou convencido de que, quanto mais os italianos forem a fundo no seu DNA espiritual, mais se encontrarão em casa na espiritualidade da Criação, que, no fundo, deu origem a muitas das maiores almas. Eu penso, obviamente, em Francisco de Assis, mas também em Tomás de Aquino e em Dante (cujo professor Brunetto Latini estudou com o Aquinate)... e no Papa João XXIII, apenas para citar alguns.

Os italianos, porém, devem se livrar dos grilhões de um tomismo velho e defunto, para reencontrar o Tomás de verdade, que foi um profundo teólogo da espiritualidade da Criação, um místico e um intelectual genial. Eu acho que provei essa tese em muitos dos meus escritos e especialmente no meu livro principal sobre São Tomás, intitulado Sheer Joy: Conversations with Thomas Aquinas on Creation Spirituality [Pura alegria: conversações com Tomás de Aquino sobre a espiritualidade da Criação], ainda não traduzido em italiano.

É preciso lembrar, além disso, que, sem Tomás, não haveria o Meister Eckhart, que tinha apenas 17 anos quando Tomás morreu e que está, por assim dizer, sobre os seus ombros, como uma espécie de Tomás mais poético. Também não podemos nos esquecer de Giordano Bruno! Durante a minha visita na Itália no ano passado, veio ao meu encontro um dominicano italiano para me dizer que a minha interpretação do Aquinate era a mais sólida e substancial que ele já tinha ouvido. Ele me dizia: "O senhor deveria ensinar no Angelicum essa versão de Tomás!". Uma versão que, devo insistir, não nasce do tomismo, mas da visão da espiritualidade da Criação.

No meu livro Compaixão, tendo decidido atualizá-lo para a versão italiana, falei de algumas realidades que justamente vocês, da Associação Espiritualidade da Criação, me fizeram conhecer, como, por exemplo, o movimento pela água pública e a campanha "Declaremos a pobreza ilegal". Esse tipo de "ativismo contemplativo", como eu o defino, se encaixa plenamente na espiritualidade da Criação, já que o ápice do percurso espiritual é a via transformativa, ou seja, a criatividade posta a serviço da justiça social e das partilhas profundas. Estou muito contente, em particular, com o caminho que a associação que o senhor fundou está seguindo.

Eu penso, de fato, que a escolha de apontar, para além da arte-como-meditação, para "seminários experienciais", como vocês os chamaram, que permitam que as pessoas coloquem um pouco de lado as ideias e as coisas que já sabem, para aprender a ouvir as próprias emoções, o próprio corpo e os outros... e a partir daí partir novamente, é realmente a chave necessária nesta época para uma abordagem profunda da espiritualidade.

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