A guerra dos tradicionalistas ao Papa Francisco. Entrevista com Andrea Grillo

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05 Agosto 2016

Nos últimos dias, Massimo Franco, comentarista político e especialista nos assuntos do Vaticano do Corriere della Sera, em um texto intitulado “Os tradicionalistas contra Francisco”, relata, no artigo, o apelo feito, por meio do blog ultraconservador Corrispondenza romana, por 45 teólogos e historiadores que pedem ao Colégio Cardinalício a intervenção junto ao Papa para que repudie “os erros presentes no documento de modo definitivo e final, e declare com autoridade que não é necessário que os fiéis acreditem naquilo que é afirmado em ‘Amoris Laetitia’”. Esse é o último de uma série de episódios da guerra dos tradicionalistas contra Francisco. Vamos conversar com Andrea Grillo, professor de Teologia e Filosofia da religião do Pontifício Ateneo Sant’Anselmo, de Roma.

A entrevista é de Pierluigi Mele, publicada por Rai News, 02-08-2016. A tradução é de Fernanda Pase Casasola.

Eis a entrevista. 

Professor, a impressão que se tem é que o dissenso está aumentado. É isso? Ou é apenas um exagero da mídia?

Acredito que seja uma boa ideia, mesmo para os jornalistas famosos, verificar as fontes nas quais fundamentam seus artigos. O documento do qual se fala no artigo citado é um texto escrito em uma linguagem de 150 anos atrás, e assinado por alguns desconhecidos. Os únicos signatários conhecidos pertencem a setores isolados, marginais e autorreferenciados da Igreja Católica. Fazer disso uma oposição a Francisco é uma operação midiática sem qualquer fundamento. É engraçado. Além dos jornalistas, eu diria àqueles que têm problemas, de demonstrarem algum argumento fundamentado, qualquer raciocínio convincente. Até o momento, apenas apresentaram propaganda velha e desespero presunçoso.

Qual a adesão que estes posicionamentos têm sobre o povo de Deus?

Estes posicionamentos chamam atenção – e são também estimulados – apenas em alguns ambientes curiais – romanos ou periféricos – que nada têm a ver com o povo de Deus. São jogos de poder de quem vê posto em discussão o próprio papel clerical, que antes estava fora de controle e agora não goza mais de liberdade. Papa Francisco, inevitavelmente, é atacado por quem tem medo da Reforma da Igreja e de perder poder. O povo de Deus não tem nada a ver e, com razão, não se interessa por isso.

O que assusta os tradicionalistas na abordagem de Francisco? A leitura complexa da modernidade?

O Papa Francisco sai explicitamente do antimodernismo que caracterizou fortemente a cultura católica antes e também depois do Concílio Vaticano II. Nós confundíamos frequentemente o catolicismo com o antimodernismo. Ser católico era ser “contra os trens”, “contra a luz elétrica”, “contra o cinema”, “contra o voto feminino”, “contra os anticoncepcionais”... De uma forma muito simples, mas com extrema coerência, Francisco rejeita uma leitura unilateral e hostil da modernidade.

Esse aspecto é insuportável para os tradicionalistas, mas é também de difícil compreensão por aqueles que, sem serem tradicionalistas, aceitaram passivamente uma leitura “de conveniência” da relação entre Igreja e mundo. Na realidade, inquieta aqueles que se refugiaram em uma “autorreferenciação” consoladora, felizes de estarem sem saída e de não precisarem nunca “sair”.

Uma das críticas que o fronte conservador faz ao Papa é a de ser mais preocupado com a “realidade” do que com a “verdade”. Eu, francamente, acho isso um insulto a Francisco. Há fundamento nessa acusação?

Isso me parece um dos pontos que Francisco trouxe uma mudança decisiva. O primado do tempo sobre o espaço e da realidade sobre a ideia – afirmado com grande força em todos os textos magisteriais de Francisco, Evangelii Gaudium, Laudato Si' e Amoris Laetitia – constitui uma “tradução da tradição” que recoloca em relação verdade e realidade. A acusação contra Francisco pressupõe que o relacionamento com a verdade pode dispensar a realidade. Com essa abordagem – que depende do antimodernismo do fim do século XIX e do início do século XX – a Igreja perdeu a relação com a realidade e se fechou em uma autorreferenciação perigosa e infrutífera.

Um outro “projeto” do fronte tradicionalista é contrapor Wojtyla e Ratzinger a Bergoglio. O senhor não vê uma continuidade?

Todas estas posições ressentidas – que são de tradicionalistas radicais, mas também de alguns Bispos e Cardeais – buscam enfatizar as “contradições” entre Francisco e seus dois antecessores.

Aqui é necessária boa compreensão. Não há nenhuma ruptura. Mas não há também uma simples continuidade. A tradição continua traduzindo-se de modo novo. Este é também o significado mais autêntico das palavras de Bento XVI, quando, em 2005, falou da “hermenêutica da reforma” como solução às duas hermenêuticas equivocadas do Concílio, ou seja, aquelas da pura continuidade e do puro rompimento. Francisco não rompe, mas reforma. Mas é consciente da urgência da reforma, enquanto que aqueles que se opõem, com o pretexto de uma suposta ruptura, apenas têm medo do novo, que na Igreja é sempre apresentado como uma benção nos momentos de crise.

O comportamento do Papa emérito perante ao atual Papa é exemplar. Na realidade, Ratzinger manifestou grande apreço com relação a Bergoglio. E mesmo assim continua essa instrumentalização contra Francisco. Por quê?

Não há dúvida que o relacionamento pessoal entre o Papa atual e o Papa emérito seja bom e cordial. O ponto não é esse. Todavia, entre o magistério de Bento e de Francisco existem algumas diferenças significativas, sobretudo com relação ao Concílio Vaticano II. Francisco está plenamente convencido da reforma invocada do Vaticano II, enquanto Bento foi hesitante, impreciso, às vezes, até mesmo assustado e meramente defensivo. Em três anos, Francisco encontrou a confiança em um magistério que assume novas responsabilidades, enquanto que o magistério de Bento – e o último de João Paulo II – estava paralisado pelas tradições e totalmente negativo. Ao assumir essa grande iniciativa, Francisco teve que cumprir, não sem dificuldades, as escolhas diferentes dos seus predecessores.

Um outro fronte de crítica, formada pela parte tradicionalista que encontra apoio na área política de direita, é aquele da opinião sobre o Islamismo. Em resumo, para eles, Bergoglio é muito benévolo. Mais uma infâmia com relação a Francisco. Qual é a sua opinião a respeito?

Aqui também é necessário considerar apenas as coisas sérias. Nesse assunto, as opiniões influentes não são muitas e os boatos são muitíssimos. A posição com relação ao Islamismo encontra sua origem em uma abordagem reconciliadora com as “outras religiões”, que com Francisco encontrou profunda revitalização. Nenhuma concessão às generalizações propagandísticas e considerações da complexidade das tradições singulares. Na entrevista de retorno da JMJ, Francisco lembrou que o fenômeno do “fundamentalismo” não identifica nenhuma tradição religiosa. “Mesmo entre nós”, lembrou, “encontramos muitos”. Acrescenta-se que sobre o tema do relacionamento com o Islamismo devemos, antes de mais nada, ter clara a qualidade e a densidade da nossa tradição.

Afirmar, como fez um famoso jornalista, que os muçulmanos não podem participar da missa “por que não creem na presença real” me parece a demonstração de uma aproximação teológica e eclesiástica muito preocupante. E sobre o fundamento dessa evidente ignorância, essas pessoas pensam que devem dar conselhos ao Papa...

Até mesmo em relação à pastoral da “misericórdia” são provocadas críticas. Nos encontramos diante de duas visões opostas da Igreja. Como fazem para coexistir?

Como escreveu Stella Morra, em um belo livro intitulado “Dio non si stanca”, o tema da “misericórdia/perdão” é central nos ensinamentos de Francisco, não como um “conteúdo”, mas como um modo de compreender a Igreja e o relacionamento com Deus. É o “estilo da misericórdia” a tirar a Igreja da sua autorreferência, a forçar a “sair à rua”, a não “observar em silêncio”, a construir “hospitais de campanha” e “campos de refugiados”. Essa linguagem irrita a todos os monsenhores com limosines, abotoaduras, empregadas, casas com muitos cômodos...

É um modelo de Igreja e de Evangelho a ser recolocado em campo e em jogo, depois de décadas de condicionamento ao exercício do poder formal e do reconhecimento puramente autoritário.

Até mesmo no plano litúrgico os tradicionalistas parecem padecer com Francisco. É isso mesmo?

De um lado não parece que Francisco esteja interessado na liturgia quanto era Bento... Mas por outro lado, as mudanças introduzidas no “Lava-pés” e o recente pedido de “evitar o uso da expressão ‘reforma da reforma’” indicam claramente uma orientação para a plena valorização da “participação ativa” como lógica “popular” da liturgia e da oração cristã. Aqui também quem quisesse ter protegido seu direito de “estar para trás” se sente prejudicado. Quando os pés das mulheres e a reforma litúrgica retornam ao foco central, muitas preocupações curiais e teimosias sobre rubricas se encontram inesperadamente na extrema periferia!

Última pergunta: O que parece, na realidade, ser o objetivo final dos conservadores é a notificação formal da criatividade do Concílio Vaticano II. É esta a verdadeira questão?

Na verdade, é melhor não “personalizar” muito a questão. Com Francisco nós encontramos, 50 anos depois do Concílio, o primeiro Papa “filho do Concílio” – ou seja, que é “nascido à vida ministerial na Igreja não pré -, mas pós-conciliar” – que propõe o Concílio não apenas teoricamente, mas com o seu modo de pensar a realidade, de comunicar, de estabelecer relações, de rezar ou de fazer piadas.

Tudo isso é “concílio posto vivo e eficaz”. Quem pensava que com João Paulo II e depois com Bento XVI tínhamos “sob tutela” o lançamento conciliar, agora está surpreso, entristecido e, por vezes, com raiva. Mas Francisco prossegue sereno. Como disse diversas vezes, dorme bem à noite. Seria bom que seus interlocutores mais entusiasmados apaziguassem seus corações e conseguissem pegar no sono à noite.

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