“O abusador não é um monstro, é um tipo comum e corrente”

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Por: Jonas | 03 Agosto 2016

Graciela González (foto) é licenciada em Psicologia, diretora do Departamento de Violência de Gênero e Prevenção de Abusos e Maus-tratosa Meninos(as), da Associação de Psicólogos de Buenos Aires. Também coordena a equipe de meninos, meninas e adolescentes da Fundação Alicia Moreau de Justo.

 
Fonte: http://goo.gl/Jmfo3a  

Desde 2014, impulsiona o “Foro a palavra dos menin@s frente à problemática do abuso sexual”, para combater a investida contra as mães de meninos e meninas abusados pelos pais. Trata-se de um espaço de conversas semanais, que são realizadas todas as quartas-feiras, às 19h, na Biblioteca Nacional. Nesses encontros, especialistas se somavam para refletir a respeito de um tema tão tabu como continua sendo o abuso sexual infantil. Em abril, no mesmo espaço, foi apresentado o livro que reúne esses diálogos. Estiveram presentes as especialistas Norma Chiapparrone, Gabriela Dueñas, Cristina Gartland, Adriana Granica, Beatriz Janin, Miriam Maidana, María Beatriz Muller, María Elena Naddeo e Gisela Untoiglich.

González observa que as mulheres e os meninos e meninas que passam pela situação de abuso não só são vítimas do abusador, como também, muitas vezes, do próprio sistema judiciário. Também, a partir de seu olhar baseado na prática, faz notar o vínculo necessário entre um trabalho integral com as mães e os meninos e meninas abusados, que tenha enfoque de gênero.

O abuso sexual “é muito mais comum do que se pensa. Há muitas pessoas que se excitam com as crianças”, afirma a psicóloga Graciela González, que organizou o livro “La palavra de los niños. Silencio y banalidade em la escucha de niños abusados sexualmente”. “É compreensível que não se queira acreditar que as pessoas abusam. É como que eu dissesse para você que “seu pai abusou de sua irmã” ou que “seu marido abusou de sua filha”. É muito difícil. Tende-se a pensar que não porque, além do mais, se tem a visão de que o abusador é um monstro, mas não, é um tipo comum e corrente”, disse.

A entrevista é de Sonia Santoro, publicada por Página/12, 01-08-2016. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Como passa a trabalhar com estes temas?

Formei-me muito jovem, aos 21 anos. Nessa época, o tema nem sequer estava no auge. Entrei na Fundação Alicia Moreau de Justo, há muito tempo também, e a fundação se ocupava de mulheres vítimas de violência. Era a época em que Carlos Monzón havia matado sua mulher Alicia Muñiz e muitas mulheres se aproximaram da instituição para denunciar porque pensavam que se Monzón havia sido preso, os maridos delas que não eram conhecidos poderiam ir presos. O fato de atender mulheres vítimas de violência fez com que a fundação tivesse que formar uma equipe. Fomos nos capacitando entre nós, fazendo cursos onde havia, aprendemos algumas coisas por ensaio e erro, por exemplo, nunca coloque juntos o homem violento e a mulher vítima. Estas mulheres vinham com crianças, naquele momento, nós não as assumíamos.

Nós erámos formadas na perspectiva de gênero, além da violência, e outras pessoas não. Então, levavam as crianças ao hospital ou a analistas particulares que culpavam a mãe da razão pela qual essa criança estava vendo essas cenas, de como essa criança sofria tudo isto e ela não fazia nada. Então, nós tentávamos tirar a mulher da culpabilização em que estava submersa e tínhamos o problema de que os terapeutas das crianças diziam coisas que não eram... por carecer da perspectiva de gênero e porque o tema, como disse antes, não estava no auge.

Nos anos 1990?

Sim. Percebemos que além das crianças que eram vítimas de violência, havia uma categoria que eram vítimas por ser testemunhas da violência. Eram crianças que não eram agredidas pelos pais, mas que se apavoravam e se escondiam e viam como pegavam a mãe. Então, é uma categoria que começamos a ver bastante. Depois, apareceram várias crianças com sintomas de abuso sexual. Crianças que contavam, outras que não contavam, mas tinham sintomas. Isso nos fez nos especializar, ler. Tinha a Irene Intebi que falava disto. E, finalmente, adquirimos uma certa experiência em atender crianças vítimas de abuso.

Primeiro, partindo da base de que se uma criança conta isto é muito difícil que seja mentira. De fato, em apenas um só caso que tive a criança estava preparada para dizer algo que haviam armado, mas questionando, em seguida, isso se desarma. Ao contrário, as crianças que passam por essas coisas sustentam o relato. São crianças que estão angustiadas e a pior coisa que se pode fazer é não acreditar nelas. E há duas categorias, as crianças em quem não acreditam, que as fazem mal. E as crianças que contam para alguém que acredita e, então, arma-se um dispositivo para poder solucionar isto. Neste caminho, tivemos várias coisas boas. A lei de proteção integral dos direitos das crianças que revogou a lei do patronato, na qual a criança era como um objeto; aqui, o menino é sujeito de direito. A lei de violência nacional também serviu. E quando parecia que isto melhorava, começamos a ter muitos problemas na justiça.

Houve um artigo do jornal La ley, de um ex-juiz que se chama Cárdenas, que se intitulava “O abuso da denúncia de abuso”... É compreensível que não se queira acreditar que as pessoas abusam. É como que eu dissesse para você que “seu pai abusou de sua irmã” ou que “seu marido abusou de sua filha”. É muito difícil. Tende-se a pensar que não porque, além do mais, se tem a visão de que o abusador é um monstro, mas não, é um tipo comum e corrente. Então, no momento em que o juiz publica este artigo e diz que, na realidade, há mulheres que são más e despeitadas, que quando se divorciam não só não querem compartilhar a criança com o pai, como também inventam uma denúncia de abuso para que [o pai] não a veja mais, para lhe retirar dinheiro, etc., tudo isto vem temperado com uma teoria que não é científica, a da Síndrome de Alienação Parental (SAP), que foi inventada por um senhor, Richard Gardner, que tem uma história bastante interessante, porque foi o assessor no caso da filha de Woody Allen. Então, pensa-se em Woody Allen com os maravilhosos filmes que faz e não é possível acreditar.

Bom, isso ocorre com nós todos. Eu compreendo que há uma série de juízes e juízas que não conseguem acreditar. Alguns não agem assim de má fé. E outros defendem com todo rigor que a criança mente, que a mãe a manipulou e, então, aplicam o que Gardner chamava “a terapia da ameaça”, retiram a criança da mãe, fazem a sua cabeça para que diga o contrário, para fazer acreditar que isto nunca aconteceu.

Há um caso famoso na Argentina, em que os três pequenos estão com o pai. Não é abusador, é violento. Mas, diziam que ela não os queria dar e os retirou dela. Ou seja, uma mãe teme por seus filhos e não permite que se encontre com o violento ou o abusador, e a justiça pode retirá-los e dar ao abusador e, depois, não permitem que vejam a mãe. Com o objetivo de reparar que o abusador não os vê, impedem que vejam o outro progenitor. Nós nos deparamos com muitíssimos casos que fracassam na justiça. A mãe acredita nos filhos, isso é bom. Também a família, a professora. Chegam à justiça, passa um tempo, e as vítimas se tornam vitimários que estão anulando este pobre homem, como podem estar dizendo essas mentiras (!). Eu sou psicanalista. Nós temos uma teoria, mas cada caso é um caso. Não fazemos encaixar os casos na teoria. Sino que aplicamos a teoria a casa caso. Agora, estas pessoas não duvidam, dizem: “o abuso sexual não existe”.

E por que surge o foro?

Para constituir um espaço onde possamos juntar psicólogos, médicos, professores que atendem estes casos. Mães, pais de crianças abusadas. Para entrarmos em um acordo para estabelecer uma teoria. Porque existe algo na teoria da SAP, pois avança muito. Então, analisemos como é esse discurso para poder combatê-lo a partir de seus próprios argumentos. Quando nasceu o foro, em 2014, um dos objetivos foi procurar fazer uma declaração dos colégios de psicólogos contra a SAP, e nós conseguimos. A Associação de Psicólogos de Buenos Aires e a Federação de Psicólogos da República Argentina a assumiram. Então, muitas mães utilizaram essa declaração para se defender na justiça. Alguém disse, consegui. Mas não, porque o que conseguimos é que se organizem de outra forma. Então, agora não dizem SAP, fazem o mesmo, aplicam o mesmo, mas não a mencionam como conceito.

Por que não é possível combater?

Não sei. Às vezes, penso se não é por uma questão de dinheiro. Se é uma questão de classe. A abusador sempre tem mais dinheiro, mesmo o mais pobre sempre vai acompanhado de um advogado, enquanto as mulheres vão penando por aí.

É uma questão de gênero.

Exato. Uma coisa que eu digo no livro é que os menores precisam ser considerados filhos por todos, não só por seus pais. Todos teríamos que investir para ajudar uma criança que passa por algo. Acontece bastante, há um movimento. Ou seja, agora, ninguém mais sai dizendo que está certo abusar de uma criança ou pegar uma mulher... o que não quer dizer que deixem de pensar nisso.

Mas, em relação ao abuso sexual há maior rejeição.

Há pessoas para quem parece uma aberração. Por isso, digo que há juízes que não conseguem acreditar, então, não podendo ver, pensam que é tudo mentira. Mas, acredito que outros sabem que é verdade. De fato, houve um caso famoso em San Isidro, em que algumas meninas denunciam um avô por abuso. Esse avô era um ex-juiz de San Isidro, a metade da família apoia as pequenas, a outra metade, entre eles dois juízes de San Isidro em atividade, diz que fazem isto pela herança. É muito difícil acreditar. Os casos de abuso são muito aberrantes. Eu, quando alguém me conta, preferiria que não fosse verdade. E mais, quando se conversa com quem apontam como abusador e diz “eu não fui”, digo-lhe: tomara que não seja. Mas, isso transparece. E também transparece quando as crianças mentem.

O que significa dizer que as crianças não mentem?

Quando dizemos “as crianças não mentem” é que não mentem em questões graves, porque uma criança pode mentir. Se questionar: “Quem quebrou isto?” Ela diz: “eu não”. Mas, não consegue mentir em conhecimentos que não possui. Por exemplo, todas nós, mulheres, antes de conceber, fomos avisadas sobre como era o parto, fomos ao curso. Agora, o momento em que sai a criança, como não o havia vivido, não o esperava. Não se sabe antes. Então, não é que as criancinhas não falam de sexo, não é que não veem coisas, às vezes, veem canais que não deveriam. O assunto é como incorporam isso. E se vivenciou isto, a vivência é muito distinta.

Em um caso que tive, o sintoma da menininha era que a roupa lhe queimava. Queria ficar nua o tempo todo. Tinha sido abusada sexualmente. Porque o abuso não consiste só na penetração ou no toque. Como havia sido o abuso? Enquanto a mãe estava fazendo algo, o pai colocava filmes pornográficos para a menininha de 6 anos. Não a tocava, nada. Sentava-se com ela na sala para ver pornografia. A menininha se excitava muitíssimo, não podia compreender, não podia processar. E a roupa a queimava. E, além disso, queria se despir como via nos filmes.

O pai pediu que fizessem um exame ginecológico. Para mim, isso foi a confirmação de que ele havia abusado da menininha, porque ele sabia o que havia feito, sabia que se comportou mal, mas sabia que não a havia tocado. Então, com um exame ginecológico, iria ficar demonstrado não havia nada com a menininha. Mas, que um pai peça um exame ginecológico de sua filha de seis anos é abuso.

E o que aconteceu?

Não concederam. Ou seja, o abuso não é somente que toquem ou penetrem a criança, mas exibições obscenas, mostrar filmes, fazer a criança ficar nua ou se despir. Os efeitos são os mesmos. Eu o relaciono com as crianças testemunhas de violência. Não são elas que estão sendo atingidas, mas estão vendo como fazem com a mãe ou com a irmã mais velha. Assustam-se. Possuem quase o mesmo sintoma da criança que é golpeada.

E o que seria necessário fazer para se opor ao que ocorre na justiça?

Como profissionais, somos obrigados a denunciar. Os professores também. Uma das coisas que acontece quando se denuncia, é que caso a pessoa não seja condenada, você é processado por danos e prejuízos a alguém. Então, estamos em uma situação meio sem saída.

Aconteceu comigo, quando uma menina disse aos pais: “o tio avô me tocou”, em uma visita. Armou-se uma confusão. O pai se reúne com seus irmãos e conta. As irmãs se põem a chorar e dizem: “conosco também, quando éramos pequenas”. E por que não me disseram?, diz ele. Bom, não dizem a você porque lhes causa vergonha, ou porque talvez disseram à mãe, que não acreditou. Não é lindo. A sensação de todo mundo é que você tem a culpa, que você se vestiu assim, provocou, então, calam a boca. Então, ele disse “O que eu faço?”. Eu disse a ele para que apoie as irmãs e que elas o denunciem e que retiremos a menina do meio. Porque esta menina contou, os pais a protegeram. É uma situação horrível, mas como qualquer trauma. É possível continuar vivendo com isso, caso seja lidado com esse trauma. A questão é quando você não tem palavras e fica flutuando e ninguém lhe ampara com esse trauma. Ou seja, os traumas podem ser superados, não é que a sua vida foi arruinada para sempre. Não. É muito difícil se dar conta. Quantas pessoas existem que foram abusadas (!).

Eu sempre digo em oficinas que ofereço, meio na brincadeira, que todas nós fomos abusadas. Em quem nunca colocaram uma mão na rua ou tocaram no coletivo (!). E, certa vez, duas senhoras bastante idosas começaram a chorar e contaram, pela primeira vez, que há 50 anos um vizinho havia tocado nelas e que as mães bateram nelas, pois “como poderiam dizer isso desse senhor” (!). Então, isto é muito mais comum do que se pensa. Há muitas pessoas que se excitam com as crianças. Veja na publicidade. Há como uma hipersexualização das meninas. E se isso existe é porque há consumidores. Por isso, é necessário fazer uma campanha do tipo: “não obriguemos as crianças a beijar as tias”. Refiro-me ao fato que as crianças, às vezes, se negam a ser abraçadas ou beijadas e nós insistimos. Ou não querem ir onde antes iam e são obrigadas.

Não há muita consciência.

E outra coisa que é nova é a teoria do apego, que diz que as crianças precisam dormir no meio dos pais até os três anos e que é necessário lhe oferecer a mama até essa idade... nessa idade, o bebê tem dentes, come outras coisas. É como se outra vez mandassem as mulheres para casa, para se ocupar unicamente do bebê e sobre uma simbiose. Não sei se é bom para a consciência subjetiva que uma criança possa recordar como mamava no peito. Colocar o bebê no meio para dormir... inclusive, pode sufocá-lo.

E o que ocorre com as novas tecnologias, há mais risco?

É preciso conversar com as crianças. Dizer a elas: “não enviem fotos nuas”, “não faz mal que chateie desconhecidos, mas não marque encontro”. Quando eu era pequena, diziam-nos: “Superman não é verdade, é um filme, não pense em se atirar do teto com uma capa”. A maioria das pessoas não se atirava dos tetos porque assistia Superman.

Acredito que as crianças precisam ter os elementos, porque alguns dizem “se disser a elas muitas coisas, perdem a inocência”. Mas, se não as disser, não as protege.

Isso também acontece com as mulheres?

Muitas mulheres vivem mal. Se você sai à noite com um short corre o risco, agora se volta para sua casa, aí tem um namorado que te envolve. Ou seja, nós, mulheres, sempre corremos mais risco. Muitos que refutam os argumentos feministas dizem que se um homem sai à rua, tem muito mais risco de ser morto que uma mulher. É certo. Morrem mais homens assassinados que mulheres, mas não são mortos pela mulher.

Não são mortos por alguém que se supõe que os deseja.

Essa é a diferença.

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