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29 Julho 2016

"Abrir conscientemente nossas mentes e corações ao contexto global e cósmico em que vivemos vai permitir que a visão e os valores da Palavra de Deus ressoem com mais poder. Isso abrir-nos-á para um sentido mais adequado da revelação orientadora de Deus para a família humana aqui e agora", escreve James Hug, padre jesuíta, que foi presidente do Center for Concern, organização sediada em Washington, DC, centrada na promoção da justiça social, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 19-07-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

O primeiro aniversário da encíclica Laudato Si’ – Sobre o cuidado da casa comum, do Papa Francisco, foi comemorado em todo o mundo com uma semana internacional de oração, formação, reflexão e ação. Foi algo bem diverso do tratamento habitual que uma encíclica social papal costuma receber. A semana foi uma homenagem ao espírito ativista e ao apelo generalizado que Francisco possui – assim como ao fato de que as pessoas comuns ao redor do planeta estão dolorosamente conscientes da urgência das questões que ele levanta de modo tão acessível, com tanta força e tão bem neste seu escrito.

Francisco mostra experiência pastoral e sabedoria ao insistir que as grandes mudanças sociais e culturais que devem ocorrer em um curto período de tempo exigirão formação e desenvolvimento espiritual, tanto pessoal como comunitária.

Os recursos litúrgicos para desenvolver e expressar esse tipo de consciência e crescimento espiritual maduro, no entanto, são difíceis de encontrar. As reflexões contemplativas de Jesus sobre o cuidado de Deus para com as aves do céu ou para com a beleza das flores silvestres no campo são, de fato, textos para uma época de oração focada na ecologia. E há alguns belos salmos. Mas, geralmente, a Igreja Católica carece de recursos litúrgicos para nutrir a transformação ecológica a que Francisco está convidando e que a família humana precisa tão desesperadamente.

Alguns teólogos litúrgicos de diferentes denominações cristãs estão começando a pedir por materiais renovados, estão desenvolvendo-os e desejando sua aprovação para o uso geral. Catherine Vincie, teóloga litúrgica e sacramental do Instituto Aquino de Teologia, da Universidade de St. Louis, no Missouri, é uma voz de destaque e bem-vinda na comunidade católica. Mas não podemos nos dar ao luxo de termos um processo de aprovação demorado, caso queiramos desenvolver uma espiritualidade ecológica saudável, em tempo de reverter as abordagens destrutivas atuais e evitar um sofrimento mundial devastador.

Até que esses materiais possam ser desenvolvidos e até que estejam amplamente disponíveis, o desafio posto pelo Papa Francisco de nutrir essa espiritualidade deve ser assumido localmente pelos planejadores e celebrantes litúrgicos. Isso pode acontecer se trazerem para a preparação litúrgica uma consciência deliberadamente ampla do contexto ecológico mundial da vida e da liturgia conforme Francisco descreve. Os textos litúrgicos semanais devem ser conscientemente lidos como se abordassem o contexto social e ecológico das nossas vidas em meio a toda a família humana e no coração dos sistemas complexos e inter-relacionados da Terra, nossa casa comum.

Nutrir Laudato Si’ nas leituras de domingo

Pode-se encontrar um exemplo dessa abordagem nos textos para a liturgia de domingo do dia 12 de junho, que abriu a semana do aniversário de um ano da publicação de Laudato Si’. À primeira vista, os textos pareciam não ter nada a ver com os temas que Francisco dispôs na encíclica.

Na primeira leitura (2 Samuel 12:7-10,13), o profeta Natã repreende o rei Davi por ter assassinado Urias, o heteu, para que pudesse se casar com sua mulher, Betsabé. Mas quando Davi admite que pecou, Natã lhe conta que Deus o perdoou. No evangelho (Lucas 7:36-8:3), Jesus está jantando na casa de um fariseu quando “uma pecadora” entra, banha os pés com as lágrimas, seca-os com os cabelos e os unge com perfume, dando a Jesus uma ocasião para ensinar ao fariseu e assegurar à mulher que seus pecados estão perdoados.

Textos para alimentar uma espiritualidade do cuidado da família humana e da casa comum? Não, com certeza – até que eles sejam ouvidos no contexto do que está acontecendo com o nosso planeta e com a comunidade humana hoje. Nesse contexto, somos Davi, somos a pecadora, somos o fariseu.

Somos Davi

Através de Natã, Deus lembra Davi: “Eu ungi você como rei de Israel. E eu o salvei de Saul. Eu dei a você a casa do senhor. Eu coloquei em seus braços as mulheres do seu senhor. Eu dei a você a casa de Israel e de Judá. E se isso ainda não é suficiente, eu darei a você qualquer outra coisa (…)”. Deus doou de forma generosa, mas Davi não podia olhar ao redor sem querer mais e pegar para si.

Como pode sermos Davi? Deus não está dizendo para nós também: “Eu dei a vocês... Eu dei a vocês... Eu dei a vocês... e em vez de gratidão vocês sempre querem mais, tomando daqueles ao redor do mundo que tão pouco têm”? Cada um de nós pode completar estas reticências. Nós [o povo dos EUA] somos o país mais rico da história da humanidade. No entanto, o que temos nunca é o suficiente; insistimos que não é possível compartilhar com os que tão pouco têm. Milhares de eleitores querem inclusive que muros sejam construídos para manter pessoas desesperadas, necessitadas, do lado de fora e proteger para nós mesmos o que temos.

O nosso próprio sistema econômico é construído sobre o – e impulsionado pelo – consumo, pela acumulação, concorrência e crescimento. Temos certeza de que, se ele não continuar crescendo, gerando mais produção, mais consumo e mais acumulação, a economia global entrará em colapso, resultando em sofrimento para todo mundo. E podemos ter certeza de que ouviremos promessas infinitas de crescimento econômico e aumento da riqueza por parte dos nossos políticos e candidatos na medida em que nos aproximamos no auge das campanhas eleitorais deste ano.

Mesmo assim, o nosso sistema econômico e a nossa cultura de consumo são as mesmas forças que nos conduziram às crises ecológicas e sociais que o planeta enfrenta. Eles prometem acentuar rapidamente a destruição e o sofrimento nas décadas seguintes.

Somos Davi, o rei com a potência dominante no mundo também. Somos a superpotência com a capacidade e o compromisso de dirigir a economia global pelos caminhos que criamos. Em inúmeras reuniões mundiais, lobistas americanos e negociadores governamentais compartilham políticas e instituições globais para servir aos interesses econômicos corporativos sem se preocupar com o que tais políticas trarão como consequência aos pobres e à própria Terra.

Somos Davi.

Por fim, o pecado de Davi foi perdoado (2 Samuel 12:13), ainda que tenha havido consequências. O Papa Francisco é insistente em que o perdão misericordioso de Deus está disponível para nós também. Porém as consequências permanecem, e nós devemos resolvê-las.

Somos a pecadora

Quem presta atenção às questões ecológicas do nosso tempo aproxima-se da liturgia sabendo que as nossas próprias decisões, ações e estilos de vida nos levaram até onde estamos. As nossas escolhas, dia após dia, já levaram inúmeras espécies à extinção e estão destruindo habitats, incluindo a nossa.

Somos interpelados por esta realidade. Muitos de nós querem que ela seja de outra forma, e mesmo choramos diante da destruição e do sofrimento que estamos começando a ver em recifes de corais enfraquecidos, milhares de quilômetros de oceano morto, mais tempestades severas, inundações e incêndios florestais, sem falar na subida do nível do mar. Sentimo-nos presos nas instituições, nos sistemas e padrões de nossas vidas, sem saber como mudar, com medo sobre quais poderão ser os custos, mas também ansiando por liberdade, coragem e melhores jeitos de ser e estar.

Somos a mulher pecadora.

Somos o fariseu

Tenho de admitir – e certeza também tenho de que não estou sozinho – que tomo um refúgio pessoal na certeza de que, pelo menos, não sou eu um negador das mudanças climáticas. Eu faço o que posso em pequena escala. Faço minhas compras nas feiras, comprando alimentos locais e orgânicos. Não viajo tanto quanto antes. Desligo as luzes que não estão sendo utilizadas e reduzi o meu consumo d’água. Reciclo e faço compostagem. Prego e escrevo sobre estas questões e, nos lugares onde vivo e trabalho, peço para considerarmos utilizar a energia solar.

Não faço nada parecido com o dano feito por líderes empresariais que se recusam a assumir responsabilidade pelos custos ambientais que estão causando a comunidades, governos e gerações futuras. E olho criticamente para os políticos que se esquivam de suas responsabilidades morais e políticas pelo bem comum de seus povos por causa da dependência que têm das contribuições de campanha feitas por pessoas e empresas que colocam o lucro econômico antes de saúde da comunidade e do bem-estar planetário. Essas são as pessoas e as situações em que uma conversão faria uma diferença real.

Sim, somos o fariseu também.

O que tem acontecido à Terra e aos povos vulneráveis e excluídos entre nós é pecado. Quando espécies são levadas à extinção pelas nossas escolhas de vida, estamos diante de um pecado contra Deus na criação. Usamos e abusamos da autoexpressão divina na natureza e na sociedade humana, fracassando na reverência e na gratidão.

Somos convidados a sermos como Jesus

No contexto do que está acontecendo à Terra vista através dessas escrituras, somos Davi. Somos a pecadora. Somos o fariseu. Mas também somos convidados a ser como Jesus.

Jesus entra na história com um coração aberto. Ele esteve aberto a Simão, o fariseu, que o convidou e depois não lhe mostrou nenhuma das cortesias normais como água para os pés empoeirados ou uma saudação calorosa. Jesus esteve aberto aos outros convidados. Mostrou-se aberto à pecadora que veio chorando, fez uma cena enorme, atreveu-se a tocá-lo, banhou seus pés com as lágrimas, enxugou-as com os cabelos e os ungiu com perfume. Foi quando percebeu a resposta julgadora de Simão que Jesus falou gentilmente: “Simão, tenho uma coisa para dizer a você”.

Ele então conta a parábola do credor que perdoa a dívida de duas pessoas que não tinham como quitá-las. Um tinha uma dívida pequena, o outro uma dívida grande. Quando Jesus pergunta qual devedor amaria mais o credor, Simão, relutante, dá a resposta que Jesus está obviamente esperando: a pessoa que tinha a dívida maior.

Em seguida, Jesus sugere uma forma diferente de contemplar o que acaba de se passar. A assim-considerada “pecadora” tem agido com um amor grande e profundo. Dessa maneira, aos olhos de Jesus ela já está perdoada por seus muitos pecados, porque “aquele a quem foi perdoado pouco, demonstra pouco amor” (Lc 7:47), e ela obviamente ama profundamente e muito.

Não estaremos nós a ouvir Jesus, o mestre, explicar aqui o cerne de sua boa nova ao mundo? Se quer ver como Deus, não olhe através dos olhos da lei; olhe através dos olhos do amor.

Através dos olhos da lei, ela é uma pecadora. Através dos olhos do amor, ela está perdoada, é sagrada.

Então Jesus se vira para a mulher e diz: “Seus pecados estão perdoados”. Convencido estou de que os outros convidados estão errados quando interpretam esta cena como se Jesus estivesse perdoando os pecados. Não ouço estas palavras como aquilo que chamaríamos hoje de “absolvição”. Ouço-as como a reafirmação de Jesus junto à mulher no sentido de que ela pode confiar: “Seus pecados ‘estão’ perdoados” porque você é tão amável. Essa amorosidade é a vida divina presente e ativa nela. Ela está viva com o Espírito de Deus.

Nova descoberta e contemplação

É essa visão contemplativa através dos olhos do amor que Jesus nos convida a adotar em nossa presença e resposta à vida. É uma visão contemplativa, amorosa que Papa Francisco nos convida a abraçarmos em Laudato Si’. Ele quer que contemplemos a beleza e a complexidade da criação, quer que vejamos como tudo está interligado, quer que nos vejamos como estando nela e sendo parte dela.

Francisco quer que descubramos novas possibilidades, quer que vejamos e reverenciamos o seu valor e mesmo a sua sacralidade. Ele nos convida a uma contemplação clássica a partir de sua espiritualidade jesuíta/inaciana: convida-nos a abrirmos os olhos e corações para descobrir na criação a presença amorosa de Deus. Ele está convencido, assim como esteve o fundador dos jesuítas, Santo Inácio de Loyola, que iremos, assim, encontrar os nossos corações animados com um amor gracioso.

Somos Davi. Somos a pecadora. Somos o fariseu.

Mas quando contemplamos a criação e a sociedade humana com amor, nós também somos perdoados. Vendo através destes olhos, iremos reconhecer os resultados daquele pecado, o sofrimento e a destruição em nível mundial. Seremos, como Francisco está convencido, movidos à compaixão, à transformação e à ação curativa.

Laudato Si’ é um chamado à conversão e à ação urgente, uma ação que se levanta naturalmente e com força a partir dos espíritos contemplativos, amorosos e orantes.

Sim, somos Davi. Somos a pecadora. Somos o fariseu. E estamos sendo chamados a sermos como Jesus, falando com coragem do seu jeito de abordar cada pessoa e o mundo com um coração aberto e com os olhos do amor. Estamos sendo chamados a sermos como Jesus, descobrindo no – e através do – nosso cuidado e contemplação de amor pela casa comum que também nós somos perdoados em muitos pecados porque amamos muito. E a nós está sendo oferecida a oportunidade de participar no nascimento da nova criação.

Abrindo mentes e corações

Como neste exemplo, o contexto dentro do qual refletimos e rezamos com os textos bíblicos possui um impacto profundo no significado que descobrimos para as nossas vidas no mundo de hoje. Por várias vezes esse contexto fica limitado ao pessoal ou, na melhor das hipóteses, às dimensões interpessoais. Abrir conscientemente nossas mentes e corações ao contexto global e cósmico em que vivemos vai permitir que a visão e os valores da Palavra de Deus ressoem com mais poder. Isso abrir-nos-á para um sentido mais adequado da revelação orientadora de Deus para a família humana aqui e agora.

Textos litúrgicos mais apropriados irão acabar ajudando-nos a crescer nesta consciência. Que eles possam vir logo. E que possam vir numa linguagem acessível que abra nossos olhos e toque os corações das pessoas comuns em todos os lugares.

Enquanto isso, podemos e devemos ler a Palavra e celebrar a Eucaristia cônscios da casa comum, do contexto cósmico e da missão ecológica integral.

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