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26 Julho 2016

Os Mundukuru não são pessoas de muitas palavras ou de grandes sorrisos. São um povo guerreiro, um daqueles que causou mais problemas para os primeiros portugueses que se aventuraram na floresta amazônica. Cleudivaldo Karo tem apenas 16 anos, uma esposa e um filho de sete meses. Ele não hesita, como os seus antepassados, diante daqueles brancos de aparência ainda mais forte do que ele: "Eu quero ficar aqui até a morte, não há há lugar melhor do que este no mundo para se viver. Ao menos para mim".

A reportagem é de Sara Gandolfi, publicada no jornal Corriere della Sera, 24-07-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ele não sente os mosquitos na pele, não se importa de dormir em uma rede, debaixo de um teto de palha, nem de se lavar no rio e de não ter sinal de celular, que nunca possuiu. Os seus dias passam monotonamente desde sempre: a caça ao queixada, o porco selvagem, a pesca no rio, o jogo de futebol no campinho da aldeia. Uma vida tranquila, que corre o risco de ser varrida pelos ambiciosos projetos energéticos do governo brasileiro: a poucos quilômetros da aldeia de Cleudivaldo no Estado do Pará, eles querem construir uma megausina hidrelétrica de 8.400 MW, com uma barragem tão grande quanto a cidade de Nova York.

"O rio e a floresta nos dão os peixes, os animais, as frutas com as quais nos sustentamos. Se tudo isso for alagado, como poderemos sobreviver?", diz o jovem. Prontos para lutar? "Sim, não vamos nos render."

Um "monstro" de 50 metros de altura

Cerca de 65% da energia produzida no Brasil provém das usinas hidrelétricas. Apenas dois rios da Amazônia não foram submetidos às barragens, o Rio Negro e o Tapajós, mas não por muito tempo, se os planos de Brasília seguirem em frente, apesar da substituição da cúpula presidencial depois do impeachment de Dilma Rousseff.

O projeto mais ambicioso prevê a construção de nada menos do que 43 barragens na bacia do Tapajós. Uma já foi inaugurada, outra está em fase de conclusão, ambas em dois afluentes desse rio que corre por 2.291 quilômetros (dos quais apenas 280 navegáveis), no coração da floresta, antes de adentrar no Rio Amazonas.

O "monstro" que mais preocupa o povo Munduruku e os ambientalistas do Greenpeace que acorreram em sua defesa é a megabarragem de São Luís: sete quilômetros de largura e 50 metros de altura, ela terá uma bacia de 729 quilômetros quadrados e vai submergir 400 quilômetros quadrados de floresta tropical intacta. Será uma das seis maiores barragens do mundo, a terceira no Brasil, depois da de Itaipu, na fronteira com o Paraguai e a Argentina, e aquela, muito contestada, de Belo Monte, no Xingu.

Em um futuro ainda nebuloso, também por causa dos escândalos que abalaram a indústria nacional da energia, o sistema de barragens poderia ser a primeira etapa de um projeto muito mais ambicioso: a construção de uma hidrovia do Mato Grosso até Santarém, para transportar, depois, a soja até os portos no Atlântico. O plano já foi aprovado por uma comissão do Congresso. Resta o mistério sobre como o Brasil vai encontrar o dinheiro para uma obra tão gigantesca. Talvez indo bater na porta dos cofres chineses.

Para chegar de Manaus até a aldeia de Sawré Muybu, é preciso um dia de viagem em avião bimotor, ônibus em uma estrada de terra e, por fim, uma lancha pelo rio. Ela é habitada por centenas de pessoas que venceram a tradicional relutância a abrir as portas das casas para os novos aliados de luta: os "ecoguerreiros" do Greenpeace, armados com boas intenções e computadores, sempre ligados, graças ao satélite, até mesmo no meio da selva tropical. Eles são guiados por um homem de barba branca, Paulo Adario, um ícone do ambientalismo no Brasil.

Há muito tempo ele luta contra o desmatamento da Amazônia, que anualmente leva embora 5.000 quilômetros quadrados de mata virgem: "Conseguimos, em parte, barrar o avançado dos cultivos extensivos de soja. Estamos trabalhando nas pastagens, mas esse é um desafio de um porte muito mais amplo: as barragens provocarão o desmatamento de milhares de quilômetros quadrados de floresta, a construção de estradas e, portanto, a chegada de novos colonos, prontos para explorar o solo e o subsolo, legal e ilegalmente", explica.

Cerca de 15.000 Munduruku vivem ao longo do Tapajós. A maioria em uma reserva na parte alta do rio. Muitas aldeias, porém, encontram-se a pouca distância do local onde a usina está prevista. As ocas de Sawré Muybu, se o projeto seguir em frente, acabarão cercada de água. A aldeia vizinha de Dace Watpu será submersa. E eles não serão as únicas vítimas: o alagamento de grandes áreas de desova de peixes e a alteração dos ciclos do rio, de acordo com os biólogos, causarão um desastre em nível de biodiversidade.

Nas aldeias da floresta, galos e galinhas, cães e porcos vagueiam livres e inconscientes do perigo, assim como as crianças que acabaram de ir à escola. Adultos e adolescentes, no entanto, estão ocupados preparando os cartazes a serem pendurados ao longo do rio. Neles, está escrito, em letras garrafais: "Território Munduruku". São iguais em tudo aos cartazes oficiais preparados pelo governo brasileiro para demarcar as reservas, falta apenas o selo da Funai, a Fundação Nacional do Índio, responsável pela proteção dos povos indígenas e das suas terras.

A primeira mulher entre os 128 caciques

"O pedido de reconhecimento desse território ficou fechado nas gavetas de Brasília durante dez anos – disse Adario – até que, poucos dias antes do afastamento de Dilma Rousseff da presidência, a Funai reconheceu que os Munduruku também habitam por tradição essas áreas do médio Tapajós. Agora falta o reconhecimento do Ministério da Justiça."

Os Munduruku decidiram forçar a questão e começar a pregar os cartazes nas árvores por conta própria, delimitando uma área de 178.000 hectares, para enviar um aviso também às companhias que, há alguns anos, circulam por esses lados. "Logo depois do anúncio da Funai, o Ibama (o Instituto Nacional do Meio Ambiente) suspendeu a licença temporária para a fase de exploração. A bola agora está nas mãos do governo do novo presidente Temer: a partir de um ponto de vista ambiental, ele é ainda pior do que os seus antecessores, mas é politicamente muito mais fraco, porque não foi eleito, ele goza de uma baixa popularidade e dificilmente poderá governar por decreto, como Lula e Dilma faziam."

Os Munduruku aproveitam o refeitório e os chuveiros trazidos pelos ambientalistas à sua aldeia. Os rapazes com bermudas Adidas e chinelos entram na zona da internet, mexem nos celulares, os mais corajosos brincam com os videogames. Mas se vê que estão perdidos com a presença de todas essas pessoas na quietude do seu mundo.

Eles são liderados por 128 caciques, os líderes tribais, dentre os quais, recentemente, apareceu uma mulher. À noite, nas aldeias, eles se reúnem em círculo com o restante da população, sob um céu estrelado que, no Ocidente, não estamos mais acostumados a ver.

"É uma guerra, mas nós queremos a paz. Paz para a floresta e para o rio. A usina vai destruir tudo, e nós devemos nos defender", diz Raimundo Saw Munduruku, 49 anos, líder dos guerreiros do médio Tapajós. Ele tem o rosto e as costas cobertas com linhas e símbolos, pintados com as tintas naturais da floresta. Ele guia cerca de 50 homens, prontos para entrar em ação.

Isso já aconteceu alguns anos atrás, quando os Munduruku "capturaram" pesquisadores brasileiros que chegaram aqui para a fase exploratória. As autoridades responderam enviando helicópteros e soldados, mas, no fim, eles reconheceram o direito dos índios de serem consultados (um parecer, contudo, não vinculante, de acordo com o governo).

Os Munduruku não confiam: "Os representantes do governo nunca chegaram às nossas aldeias. No entanto, nós também somos filhos deste país". O antropólogo Jeremy Campbell, estadunidense da Roger University, em Rhode Island, estuda há mais de três anos as populações Munduruku. E não tem dúvidas: "Eles não vão desistir. Para vencer, estão se aliando com os ribeirinhos, os colonos brancos que chegaram aqui no século XIX, quando o boom da borracha levou para as profundezas da Amazônia milhares de pessoas em busca de fortuna. Com o tempo, os ex-inimigos tornaram-se vizinhos de casa: comem as mesmas coisas, vivem no mesmo rio, opõem-se à barragem".

A floresta ferida pelos garimpeiros

Sobrevoando de hidroavião a bacia do Tapajós, o risco é evidente. O verde da floresta está marcado pelas minas legais e ilegais, por novas estradas e longas pistas de terra para a aterrissagem dos aviões que servem de transporte para a cidade vizinha de Itaituba, reino incontestável e violento dos garimpeiros, os buscadores de ouro.

Se Brasília, no fim, aceitar reconhecer o território indígena, os Munduruku terão o direito exclusivo sobre a terra (não sobre o subsolo!). Mas os interesses em jogo são enormes e envolvem, além da empresa elétrica estatal Eletrobras, também grandes empresas internacionais. O Greenpeace para que as empresas já envolvidas na usina de Belo Monte – como a Siemens e a General Electric – que se distanciem do projeto de São Luiz de Tapajós e visem, em vez disso, ao desenvolvimento de energia de fontes renováveis, como a energia eólica e solar. Tomando como exemplo a italiana Enel, que declarou que não queria participar.

"O Tapajós não faz parte dos projetos que o Grupo Enel pretende desenvolver ou nos quais deseja investir – confirma um porta-voz ao Corriere –, até porque são usinas já claramente insustentáveis do ponto de vista do consenso e do impacto ambiental".

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