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22 Julho 2016

Há cinquenta anos falecia o dominicano francês que esteve entre os primeiros estudiosos do subdesenvolvimento e inspirador da “Populorum Progressio”.

A reportagem é de Filippo Rizzi, publicada por Avvenire, 20-07- 2016. A tradução é de Benno Dischinger.

Uma vocação nascida entre os pobres marinheiros da Bretanha: “Vocês procuram um profeta que vos dê uma nova esperança e que clareie o vosso caminho; tendes um no vosso meio; redescobri o padre Lebret”.

Eis o mandato que na metade dos anos Oitenta o carismático e então arcebispo brasileiro de Recife dom Helder Câmara consignou numa visita à França a um grupo de jovens bretões. E redescobrir – a exatos 50 anos do desaparecimento, ocorrido em Paris aos 20 de julho de 1966 – da figura do dominicano Louis Joseph Lebret, nascido em 1897 precisamente na Bretanha, em Minihic-sur-Rance (perto de Saint Malo), significa relembrar a história deste religioso de raça, ex-oficial da marinha e pertinaz fumante de pipa, que graças aos seus estudos de sociologia e economia representou um guia e quase um farol para inteiras gerações de católicos do seu tempo (entre os quais Giuseppe De Rita, que o definiu como “um dos meus pais de trabalho”, e Giorgio Ceriani Sebregondi).

Mas o padre Lebret foi também o homem que, graças ao olhar harmônico em torno ao “desenvolvimento integral do homem” e “global” do planeta, foi escolhido por vontade de Paulo VI como principal redator da encíclica Populorum Progressio, definida por Bento XVI como a “Rerum novarum da época moderna”.

Mas, quem era Lebret antes de vestir o hábito branco e preto típico da ordem dos pregadores?

Para a primeira parte de sua vida o futuro religioso, com um prestigioso bacharelado em matemática cultiva uma vocação que será o futuro de sua ação de sacerdote atento aos débeis, em particular os pescadores: um ilimitado amor pelo mar. Por anos, de fato, presta serviço como oficial de Marinha, dando uma excelente prova de si também durante a primeira guerra mundial a bordo do caçador espião Bouclier. É em 1923 que dispara no jovem Lebret a motivação de mudar de vida e a fazer a escolha de tornar-se dominicano: tinha de fato acariciado a ideia de entrar na Trapa, mas fundamental nos anos de sua formação teológico-filosófica na Holanda foi o encontro com dois confrades e mestres de autêntico saber como Antonin Dalmace Sertillanges e Barnabé Augier. O que muda a rota de sua existência – precisamente como acontece aos marinheiros experientes – é a destinação ao convento de Saint Malo na Bretanha.

Durante esta permanência em sua terra de origem Lebret amadurece muitas das suas mais importantes intuições: funda aqui (entre 1932 e 1939) o Movimento de Saint Malo e sucessivamente o periódico La Voix du marin [A voz do marinheiro]. Serão estes os instrumentos privilegiados de Lebret para sensibilizar a opinião pública francesa sobre as condições de vida dos pescadores bretões e de seu estado de miséria e exploração. O frade dominicano compreende não só a importância de valorizar o laicato, mas também a centralidade do “apostolado do mar” no interior da Igreja.

Em 1940 é chamado coo perito econômico ao ministério da Marinha mercantil.

Em 1942, com um grupo de leigos e de dominicanos, funda o centro de estudos e depois a revista Economie et Humanisme. E é precisamente nestes anos que Lebret revestirá uma ascendência fundamental para fazer descobrir e quase infundir no coirmão Jacques Loew a pioneirística vocação que o tornará famoso Além dos Alpes: aquela de se tornar o primeiro padre operário da França, entre os descarregadores do porto de Marselha.

Em 1947 Lebret é convidado a dar um curso de introdução à economia humana na escola de sociologia e política de São Paulo, no Brasil. É no circuito destes anos que sua figura emerge: é chamado pelas Conferências episcopais na América Latina, na África (entre as quais o amado Senegal que no dia de sua morte proclamará o luto nacional) e no Vietnã para explicar as razões mais profundas do subdesenvolvimento.

Quase na veste de precursor do magistério de Francisco, explica aos importantes interlocutores encontrados nas suas viagens que “a misericórdia não é paternalismo nem esmola, mas é um sentimento revolucionário que consiste em viver com os deserdados e tornar-se um deles”. Agora já não jovem, o dominicano toca com a mão a miséria do terceiro mundo nas suas manifestações mais degradantes: a fome, os tugúrios, o analfabetismo, a mortalidade infantil.

Certamente singular, em 1956, o “primeiro giro”, empreendido a bordo de uma espartana Renault 16, para conhecer a Meridional Itália e sua economia. A acompanhar o carismático dominicano foi o então jovem estudioso e futuro presidente do Censis De Rita que, numa entrevista dada em 1987 em Giampiero Forcesi para a revista Voluntários e Terceiro mundo reevocou aquela experiência: “Era um grande operador cultural, um mobilizador de consciência coletiva: um homem que fazia profecia com a memória. Foi sempre muito cético perante a experiência italiana da Cassa per il Mezzogiorno [Caixa para o Meio-dia]”.

Em 1958 o padre Lebret fundava o Irfed (Instituto internacional de pesquisa e de informação para o desenvolvimento), um centro surgido para oferecer adequada preparação a estudantes que já tinham às costas uma experiência de trabalho no terceiro mundo. O dominicano bretão era então conhecido por toda parte: a Santa Sé o enviou como seu representante a algumas conferências da ONU.

Com o advento de Paulo VI em 1964 é nomeado perito conciliar: não marginal será a sua contribuição ao esquema XIII da Constituição pastoral do Vaticano II Gaudium et spes.

Mas, a marca decisiva de sua ação, quase um testamento (a encíclica social foi publicada em 1967: um ano após a sua morte), é aquela deixada na Populorum Progressio. Através dos diários do padre Lebret se pôde apurar como e quanto o Papa Montini tenha solicitado ajuda ao seu religioso de confiança (por quem nutria “veneração e devoção”) para a elaboração definitiva do texto, no qual o dominicano propugnador de uma “economia humana” é amplamente citado com os seus escritos.

Em julho de cinquenta anos atrás o padre Lebret foi sepultado no cemitério de Minihic, junto aos concidadãos bretões e ante aquele mar que representou a sua primeira vocação.

“O padre Lebret passou entre nós – foi a recordação pronunciada a um ano da morte por seu sucessor no Irfed, o dominicano Vincent Cosmao – como alguém que sabia, porque Deus se apoderara dele, o havia assinalado no coração como alguém que não tinha outra inspiração do que perder-se Nele uma vez por todas”.

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