Brexit, Nice e Ancara: o esforço de entender. Artigo de Roberto Esposito

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21 Julho 2016

"A mutação atual tem a aparência de um verdadeiro cataclismo. O que está em colapso, antes que as fronteiras geopolíticas, são as categorias que marcaram profundamente todo o horizonte da modernidade até ontem. Brexit, Nice e Turquia são as três ondas de choque que, à distância de alguns dias, vão abalando a paisagem histórica e mental que por muito tempo percebíamos como nossa."

Segundo ele, "um universo conceitual inteiro está caindo aos pedaços. Nenhum dos parâmetros válidos até o fim do século XX funciona mais na globalização e na política da vida e da morte. Em que os corpos humanos são usados como bombas explosivas, e a web parece ser o único espaço viável de debate público. Tudo isso não pode deixar de alarmar".

"Mas, - conclui o filósofo italiano - se quisermos responder eficazmente ao desafio em curso, devemos nos equipar para modificar rapidamente o modo de nos relacionarmos com o nosso tempo – de enfrentar as suas ameaças e de empregar os seus recursos".

A opinião é do filósofo italiano Roberto Esposito, professor da Escola Normal Superior de Pisa e ex-vice-diretor do Instituto Italiano de Ciências Humanas. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 20-07-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Por que custamos tanto a entender o que está acontecendo? Talvez porque os fatos destas semanas, do Brexit à Turquia, até o terror de Nice e, muito recentemente, na Alemanha, tão diferentes entre si no porte, nos efeitos e nas causas, têm um ponto em comum: "os fatos" destas semanas não são mais o de antigamente. A própria ideia de "fato" ou de acontecimento é tal porque podemos inseri-la em um marco de pensamento mais ou menos consolidado.

Ora, aquele marco que regeu a segunda parte do século XX não existe mais. A Inglaterra, que salvou a Europa, decide deixá-la; podemos assistir na Turquia àquilo que foi um golpe democrático contra uma democracia autoritária; podemos ver terroristas que não têm mais uma forte relação com uma ideologia, louca e totalitária, mas a tomam emprestada, em leasing, por poucas semanas, colocando em jogo o seu corpo, a sua vida.

O que está mais sob ataque é aquilo que chamamos por muito tempo de "velho mundo" – Europa e Oriente Médio, de Lisboa a Ancara, passando por Paris e por Londres. É claro que, também nos Estados Unidos, o novo poderia se anunciar em breve com o perfil, não exatamente reconfortante, de Trump. Mas, até agora, os sobressaltos que abalam o país parecem vir de longe, das vísceras do século passado. Do Alabama a Dallas, em uma história que viu se alternarem Ku-Klux-Klan e Panteras Negras, segregação racial e Martin Luther King. São fantasmas de retorno de um antigo conflito, aparentemente adormecido, mas, na realidade, sempre rastejante sob as cinzas da integração.

Na Europa, em vez disso, com a sua ramificação anatólica, a mutação tem a aparência de um verdadeiro cataclismo. O que está em colapso, antes que as fronteiras geopolíticas, são as categorias que marcaram profundamente todo o horizonte da modernidade até ontem. Tentemos alinhar os eventos: Brexit, Nice e Turquia são as três ondas de choque que, à distância de alguns dias, vão abalando a paisagem histórica e mental que por muito tempo percebíamos como nossa.

Brexit. É verdade que o Reino Unido nunca foi o país mais europeísta. É verdade que a sua opção atlântica é tão antiga quanto a oposição simbólica entre terra e mar. É verdade, em suma, que a Grã-Bretanha nunca deixou de se sentir Ilha – orgulhosamente autônoma em relação ao Continente. Mas também é verdade que a embarcação que, nos anos 1940, salvou a Europa dos seus demônios internos rompe as amarras, zarpando rumo a um destino desconhecido. Desconhecido para a Europa, que perde uma de suas partes em muitos aspectos insubstituível, junto com a sua maior potência militar. E desconhecido também para a sua tripulação, que ainda olha, perdida, para a terra de onde se separa, sem saber em qual porto irá desembarcar.

Nice. Certamente, tratou-se do último tiro de uma deriva terrorista em curso há pelo menos 15 anos. Mas também de um salto de qualidade na fúria destrutiva que deixa sem palavras. Não só pela ferocidade obtusa do terrorista, mas também pela anomalia da sua figura. Inassimilável tanto àquela, já desaparecida, do partidário, quanto àquela do soldado da fé. Diferente de uma e de outra, a sua silhueta se perde na insensatez absoluta da morte pela morte. Se pensarmos que o agressor fez um número de vítimas igual às produzidas pelo grupo de foco organizado no Bataclan com um caminhão alugado por poucas centenas de euros, a diferença aparece claramente. A escalada niilista sem comparações. A ponto de tornar ainda mais fantasmagórico o panorama que temos pela frente e mais indistinto o inimigo a ser combatido.

Por fim, a Turquia. No golpe de algumas noites atrás – verdadeiro ou falso: as duas coisas, na sociedade das novas mídias, se aproximam cada vez mais – cai aos pedaços uma categoria à qual, ao menos no Ocidente, estávamos particularmente afeiçoados – a de democracia liberal. Devemos nos acostumar a pensar que esses dois termos não andam necessariamente juntos. Que pode existir, a leste do Bósforo, uma democracia iliberal e, de fato, decididamente autoritária. Não muito diferente, aliás, daquela democracia russa com a qual, há muito tempo, ela está em concorrência na mesma área. Devemos constatar que tal democracia pode englobar, funcionalizando-o ao poder do seu chefe, até mesmo um putsch militar. Que também, aliás, se referiu à democracia. Os meios repressivos empregados nestas horas à luz do sol e na escuridão dos subterrâneos são apresentados como democráticos pelos seguidores de Erdogan.

É o suficiente para dizer que um universo conceitual inteiro está caindo aos pedaços. Nenhum dos parâmetros válidos até o fim do século XX funciona mais na globalização e na política da vida e da morte. Em que os corpos humanos são usados como bombas explosivas, e a web parece ser o único espaço viável de debate público. Tudo isso não pode deixar de alarmar.

Mas, se quisermos responder eficazmente ao desafio em curso, devemos nos equipar para modificar rapidamente o modo de nos relacionarmos com o nosso tempo – de enfrentar as suas ameaças e de empregar os seus recursos.

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