Criatividade pastoral em tempos de Francisco

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20 Julho 2016

"A criatividade mencionada pelo Papa Francisco não tem nada a ver com excentricidade ou afastamento das grandes linhas da Tradição, mas sim, com a capacidade profética de abrir novos horizontes, de saber adaptar a palavra consoladora do Evangelho às cruzes da hora, de criar novos modelos e formas de pastoral e de renovar a linguagem para anunciar aos homens do nosso tempo a Palavra que nunca passa (Mc 13,31), que não é outra coisa senão continuar a realizar a intuição claramente profética de João XXIII, com a ideia do ''aggiornamento”, o papa que retomou o otimismo evangélico, ou seja, o olhar de misericórdia sobre o mundo e sobre o tempo de hoje", escreve Michele Giulio Masciarelli, em artigo publicado por Settimana News, 13-07-2016. A tradução é de Ramiro Mincato.

Eis o artigo.

Uma paróquia capaz de "criatividade missionária"

1. Francisco pede para as paróquias espírito criativo. Para o Papa, a paróquia da "Igreja de saída" é uma comunidade dotada de dinamismo pastoral e missionário: "A paróquia – lê-se no manifesto do seu pontificado - não é uma estrutura caduca; porque tem grande plasticidade, pode assumir formas muito diferentes que requerem docilidade e criatividade missionária do pastor e da comunidade".

A criatividade mencionada pelo Papa Francisco não tem nada a ver com excentricidade ou afastamento das grandes linhas da Tradição, mas sim, com a capacidade profética de abrir novos horizontes, de saber adaptar a palavra consoladora do Evangelho às cruzes da hora, de criar novos modelos e formas de pastoral e de renovar a linguagem para anunciar aos homens do nosso tempo a Palavra que nunca passa (Mc 13,31), que não é outra coisa senão continuar a realizar a intuição claramente profética de João XXIII, com a ideia do ''aggiornamento”, o papa que retomou o otimismo evangélico, ou seja, o olhar de misericórdia sobre o mundo e sobre o tempo de hoje.

Debate-se, às vezes, se o Papa Bergoglio inspira seu pontificado no Papa Roncalli. Paul Rodari perguntou a um bispo teólogo, reitor da Pontifícia Universidade Católica de Buenos Aires, que o conhece bem, ao que ele respondeu: "Francisco é bastante diferente dos papas que o precederam, embora, é verdade, pode ter as características de um ou de outro. A coisa mais importante é que ele sempre segue o caminho que o Concílio indicou. Sem dúvida, ele prefere ficar fora das discussões teóricas sobre o Concílio, porque o que lhe interessa é continuar no mesmo espírito de renovação e reforma. [...] Antes, aplica o Concílio na sua totalidade, sem pausa e sem retrocessos, com a intenção de varar a Igreja para fora de si mesma, para que possa chegar a todos . “Volta, assim, o tema da "Igreja em saída", o que, obviamente, também se estende à ideia de uma "paróquia em saída".

2. A criatividade pastoral leva o coração para céu e os pés para as becos. Uma pastoral criativa na paróquia, entre as muitas condições que requer, deve incluir um pré-requisito imprescindível, o da sua proximidade ou vizinhança ao povo, que o Papa Francisco expressa desta forma: "Isto supõe que, realmente, esteja em contato com as famílias e com a vida das pessoas, e não se torne uma estrutura prolixa, separada das pessoas, ou um grupo de eleitos que olham para si mesmos ". Isso explica, no modo mais surpreendente, que o impulso criativo não afasta a paróquia da sua própria história e da sua própria geografia, mas, ao contrário, a aproxima delas.

Dizia-se que isto é surpreendente, mas olhando bem, é apenas normal. Quando é que sentimos uma pessoa como estranha, uma proposta, como extemporânea, uma linguagem, como obsoleta, uma instituição, como distante? Sempre e somente quando passam distantes, para além das nossas necessidades, situações de vida e desejos do coração. A boa notícia evita tudo isso porque se engendra em encontrar formas de avizinhamento, formas de proximidade procurando resolver distâncias e afastamentos.

Neste contexto entende-se porque o Papa Francisco chama também as paróquias à renovação: "A paróquia é a presença eclesial no território, âmbito para a escuta da Palavra, do crescimento da vida cristã, do diálogo, do anúncio, da caridade generosa, da adoração e da celebração" .

Trata-se, no entanto, não da realização automática de uma fórmula, mas de um esforço pastoral nunca feito, que deve ser sustentado constantemente, alargado com generosidade, envolvendo, internamente, todos os membros da paróquia: "Por meio de todas as suas atividades, a paróquia incentiva e forma seus membros, para serem agentes da evangelização" .

Mais. A unidade da medida para fazer comunhão na paróquia não é mais dada por indivíduos, nem só por famílias, mas por sujeitos potencialmente maiores. Para Bergoglio a paróquia "é uma comunidade de comunidades, o santuário onde os sedentos vão beber para continuarem a caminhar, um centro de constante envio missionário" .

Refletindo sobre a criatividade evocada por Francisco

1. O valor pedagógico da "criatividade missionária" solicitada pelo Papa Francisco. É logo fácil entender que a criatividade - em sua proposição, motivação e prática - pode ser complexa e muito difícil de ser usada sempre e em todas as situações paroquiais, devido à escassez de recursos humanos e escassez de outras naturezas. No entanto, da criatividade a paróquia (mesmo a menor e mais modesta) não deve nunca desistir: particularmente urgente, nestes casos, será atingir todos os agentes de pastoral com ajudas e estímulos adequados da parte da diocese, das zonas pastorais e foranias, criando possíveis integrações úteis. A criatividade não é um talismã, mas é útil para a pastoral.

Claramente, a capacidade de interpretar criativamente os atos pastorais das paróquias são diferentes, mas é importante saber como participar, com humildade e com senso comum, à lei do possível, da gradualidade e até mesmo da parcialidade. Não devemos esquecer que o trabalho cristão precisa de modos criativos em tantos níveis: na escolha do momento certo, na escolha de códigos linguísticos elaborados mais adequadamente para a transmissão de mensagens de pré-evangelização e de evangelização; em colocar sinais mais significativos de testemunho, missão e pastoral; em exemplificar, no modo mais significativo; em usar, de forma inequívoca, o grande registro do silêncio.

De maneira interessante, a criatividade nos ajuda a ver além dos limites da existência, bagunçando e recombinando, além da maneira usual e padronizada, planos pastorais, estruturas organizacionais, modelos de estar no mundo e na Igreja e, especialmente, tentando usar o olhar direito (como o Papa Francisco ensina em sua refinada "pastoral do olhar") sobre os homens de seu tempo e de compreender - pelo menos um pouco - o mistério que trazem com eles, e o desejo que os anima e os retalha, na busca de Deus, de seu nome e de seu rosto. 

2. Criatividade é bom, mas cuidado com as armadilhas do pensamento líquido. Vivemos num contexto sociocultural onde tudo é reduzido a forma cangiante, e estruturalmente mutável. É preciso, hoje, ter cuidado para não conceber a fé nas formas lábeis do pensamento debole e do pensamento líquido, sendo necessário, portanto, distinguir o crer do crer que se crê, e o crer do sentir que se crê. Ora, uma linguagem sem precisão, feita a partir de diferentes origens linguísticas, cedendo à moda, aforismática, a efeito, provocante, de supermercado, pode afetar a pureza do pensamento cristão que deve, obviamente, manter-se.

É verdade: muitos deixam de crer porque não sentem, ou não sentem mais sua fé. Esta é uma das contrafações atuais do crer mais insidiosas, que encontram fácil aceitação em nosso contraditório mundo pós-moderno, tão ávido e guloso de sensações e experiências mutáveis e inconsistentes, "líquidas" na verdade, efêmeras e transitórias, como há anos adverte sociólogo anglo-polonês Zygmunt Bauman.

3. Empenhar-se com inteligência e sabedoria pastoral, evitando o "killer" da criatividade. Finalmente, também pastoralmente a criatividade precisa impor seu tempo e até mesmo a sua lentidão, evitando assim, os que comumente são chamados de killers da criatividade:

  1. A supervisão (excesso de controle);
  2. A avaliação (preocupação com o juízo dos outros);
  3. A recompensa (fazer infantilmente ou interessadamente a pastoral para agradar o superior);
  4. A competição (conceber o trabalho pastoral sem respeitar os ritmos dos agentes das comunidades cristãs, etc.);
  5. O controle excessivo (conceber a pastoral como ditado impositivo, e não como tema a ser feito, buscando todos os recursos humanos, carismáticos, ambientais que se possui);
  6. Limitar as escolhas (sugerir sempre, de modo frequentemente obsessivo, nas realizações pastorais, título, objetivos, meios, tempos ...);
  7. Pressão (pressionar insistentemente sobre os meios, os tempos de realização e de verificação, tudo projetado ao minuto, tudo organizado com perfeição, impondo também metas excessivamente grandes, o que abre as condições para fracassos e decepções);
  8. Hábito (que envolve pensar segundo esquemas habituais, que chamam à repetição obsoleta);
  9. Medo de metástases (que cria ansiedade de estar errado, de perder algo, de regredir, de se expor, de ficar mal, de ser julgado, de não estar a altura);
  10. O complexo de Hera (levando a agarrar-se aos ídolos, estereótipos, preconceitos, totens, ao invés de agarrar-se ao que está vivo e em evolução);
  11. Baixa autoestima (o tom baixo da autoestima que priva da motivação e do estímulo necessário para operar projetos desafiadores).

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