O significado da nomeação de Cupich

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12 Julho 2016

A nomeação de Dom Blase Cupich, de Chicago, para a Congregação para os Bispos, certamente causou um rebuliço. Acho que nunca fiquei tanto tempo ao telefone conversando com tantas pessoas diferentes num único dia desde que Cupich foi nomeado para a Arquidiocese de Chicago em setembro de 2014. Não há nada de mais a respeito do arcebispo de Chicago, nenhuma novidade, incluindo os sentimentos que as pessoas nutrem sobre ele. Pessoalmente, penso que a escolha foi esplêndida. Como colunista, deixe-me fazer algumas observações, hoje, do porquê essa escolha traz consequências.

O comentário é de Michael Sean Winters, publicada por National Catholic Reporter, 08-07-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Em primeiro lugar, no mês passado o Papa Francisco publicou um motu proprio intitulado “Come una madre amorevole” (ou “Como uma mãe amorosa”), no qual decretou quem tem a obrigação na Cúria Romana de responsabilizar os bispos caso eles ajam de forma negligente em proteger os menores de serem abusados sexualmente por membros do clero, bem como por outras formas de negligência em matéria de governo da Igreja. Vem havendo um debate sobre se esse motu proprio foi, ou não, um passo à frente no esforço católico em enfrentar o flagelo dos abusos sexuais clericais, posto que ele deu competência nesta matéria para as quatro congregações encarregadas de indicar os futuros bispos em primeiro lugar, em vez de dar a um novo tribunal da Congregação para a Doutrina da Fé, como foi originalmente planejado. A congregação responsável pela grande maioria dos bispos é a Congregação para os Bispos, e esta agora terá de desenvolver procedimentos para conduzir tais investigações. O fato de que Cupich estará nessa Congregação é um enorme passo em frente para aqueles que esperam que a supervisão dos bispos seja real e traga consequências.

Devemos lembrar que Cupich presidiu a Comissão para a Tutela dos Menores, da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA, e há muito tem sido um defensor das vítimas de abusos sexuais na Igreja. Depois que muitos dos defensores das vítimas se queixaram do motu proprio, o arcebispo publicou um artigo em que desafiou tanto os que criticaram o novo regulamento como os que o defenderam a olhar para a questão de forma mais ampla. Ele escreveu:

A leitura que faço deste decreto me leva a crer que o papa tem uma pauta muito mais abrangente do que a punição dos bispos, convencido como ele está de que os líderes eclesiásticos deveriam ser responsabilizados e punidos como uma questão de justiça, caso sejam negligentes. Há evidências em todo o documento de que o Santo Padre está mais preocupado com a garantia e a proteção, dentro da Igreja, dos jovens e vulneráveis de uma forma sustentável. Noutras palavras, embora seja um passo inicial importante o fato de ter um processo de prestação de contas que mantenha os bispos pessoalmente responsáveis em todos os momentos, o papa está dizendo que a Igreja também deve abordar a tarefa de salvaguardar os pequenos de uma maneira sistêmica e holística. Isso deve acontecer numa série de níveis.

E aqui vai a minha segunda observação: o artigo citado é expressão fiel de seu autor, ao visar expandir uma conversa em vez de contraí-la, convidando as pessoas cujos preconceitos conduzem-lhes a conclusões fáceis ao invés de olhar de novo e refletir mais aprofundadamente. Cupich será mal compreendido caso for percebido apenas como um guerreiro da cultura vindo do lado da esquerda. Este prelado é dotado do talento de forjar um consenso que sempre exige que as pessoas olhem com mais profundidade para um assunto sobre o qual as suas opiniões são discordantes das opiniões dos outros, buscando denominador comum a partir do qual possam construir um compromisso compartilhado.

Isso é de suma importância por causa da mudança geracional que ocorre dentro do episcopado católico. O Cardeal William Levada completou 80 anos no mês passado e, por isso, deixou a Congregação para os Bispos. Levada não é da direita católica. Não é um guerreiro cultural. Ele é extraordinariamente inteligente. Mas ele também foi ordenado em 1961. Cupich foi ordenado em 1975. Isso quer dizer que toda a formação seminarial do Cardeal Levada aconteceu antes do Vaticano II e toda a formação de Cupich se deu depois do Vaticano II. O Cardeal Donald Wuerl, o outro prelado americano na Congregação para os Bispos, foi ordenado em 1966, e é apenas nove anos mais jovem que Cupich. Mas será que alguém consegue imaginar um único período de nove anos em que houve mais mudanças na vida recente da Igreja do que aqueles nove anos, de 1966 a 1975? Eu não consigo.

Muitos dos meus amigos conservadores viam os anos pós-conciliares como um tempo de desastre absoluto para a Igreja: a frequência à missa caiu, padres deixaram o sacerdócio e freiras deixaram o convento, a revolução sexual trouxe o divórcio generalizado, a Suprema Corte legalizou o aborto, e assim por diante. No entanto, apesar de toda a dor desses anos, a questão permanece: essa dor não seria aquela que temos ao arrancarmos um curativo? Será que a dor não teria sido pior se tivesse sido deixado a apodrecer e se prolongar? E, vendo agora, percebemos que a taxa de divórcio começou a aumentar, e frequência à missa começou a cair, na década de 1950, antes do Concílio, o que complica a narrativa de que foi o Concílio, ou pelo menos a sua recepção, o culpado.

Muitos dos meus amigos progressistas não estão dispostos ainda a admitir que, sim, houve erros, que as coisas infelizmente foram longe demais na direção oposta à desejada nos anos subsequentes ao Vaticano II. Eles são rápidos em apresentar desculpas pelos excessos, em perdoar a si próprios, ao mesmo tempo mantendo os demais sob um severo julgamento; não conseguem ver por que a tradição, a nossa tradição, é essencial e deveria ser levada em conta – e não ignorada. Houve realmente uma escassez de catequese, e os desafios do secularismo são reais, embora diferentes em escopo e natureza na comparação com a forma como os conservadores tendem a descrever esses desafios.

Para a hierarquia, no entanto, duas coisas chamam a atenção. Na geração anterior, eles ficavam juntos, não importa o que acontecesse. Eles poderiam discordar, na verdade eles discordavam e muito. Porém os bispos gostavam uns dos outros, e policiavam-se ainda que não oficialmente. Para o bem ou para o mal, havia um grau de autocontrole, de discurso calculado, que, em parte, crescia do desejo de não desbaratar as penas de outros bispos, para manter a grande maioria dos prelados num mesmo nível, a fim de falar com uma só voz. Apesar de todos os problemas com o clericalismo, o sentido de unidade que isto produzia era um benefício para a Igreja e caracterizava tanto os bispos mais conservadores como os bispos mais progressistas daquela geração anterior.

Resta saber se a geração pós-conciliar dos bispos pode forjar um tal grau de unidade entre si e, francamente, eu duvido muito. Nunca vi os bispos tão divididos. Nunca vi bispos tão dispostos a dizer coisas sobre este papa que eles jamais diriam sobre os papas anteriores. Nunca vi tantos bispos dispostos a aceitar conselhos de leigos ao invés de procurar conselhos de um bispo com quem sabem que irão discordar. É este o desafio que se apresenta ao Cardeal Wuerl, que permanece na Congregação para os Bispos, ao arcebispo Cupich e ao nosso novo núncio apostólico, Dom Christophe Pierre: Será que eles conseguem escolher bispos que irão pôr a unidade da Igreja à frente do desejo de se mostrarem certos sobre algum tema de teológico divergente? Será que eles vão ser capazes de identificar os bispos que expandirão esta conversa em vez de restringi-la, que conseguirão aprofundar uma questão em vez de enterrarem-se num buraco mais profundo?

A segunda coisa decorre da primeira. Parece-me que as diferenças reais dentro da hierarquia são diferenças ideológicas secundárias. Antes de tudo, elas são temperamentais. Na semana passada, fiz referência a um artigo de Alessandro Rovati em que ele contrastou o lamento com o testemunho. Muitos dos bispos pós-conciliares acham ser o suficiente notar os horrores do mundo, e lamentá-los, talvez construir muros imponentes para manter o rebanho a salvo de tais horrores. Eles são proféticos no discurso. Amam aqueles que, como eles, sentem o desejo de resistir à idade e todas as suas tentações e maldades, às quais são rápidos em denunciar. Eles anseiam a certeza e creem que a Igreja só pode florescer se as suas fronteiras forem distintas.

Outros, e eu coloco Cupich neste campo, reagiram às mudanças na Igreja e na cultura buscando descobrir, a partir do povo, como Deus já atuava em suas vidas, buscando encontrar os copos que estavam meio cheios e não meio vazios, para ver os desafios dos anos pós-conciliares como oportunidades de crescimento, especialmente o crescimento nas atitudes de adulto, e para encontrar novos jeitos de testemunhar o amor de Cristo, nestes tempos mudados e cambiantes. Eles amam o mundo e as pessoas nele, não importa os crimes e pecados que encontram aí. Na verdade, seguindo o exemplo de Jesus, eles enxergam um chamado a amar os pecadores ainda mais. Tendem a não invocar o manto do profeta e ficam mais confortáveis nas sandálias de peregrinos. Eles não estão tão preocupados em ter fronteiras distintas; preferem construir pontes.

Eu não questiono a religiosidade de nenhum destes grupos. Aliás, é central para o futuro da Igreja nos EUA que paremos de questionar a fé uns dos outros. As divergências observadas acima originam-se em avaliações sociológicas conflitantes da cultura ambiente e em temperamentos pessoais diferentes, e não na capacidade de alguém de confessar que Jesus é o Senhor. Alguns de nós nascem com corações progressistas e alguns com corações conservadores, e a Igreja precisa de ambos os tipos de corações e, parafraseando Maritain, a melhor parte da sabedoria é aprendermos a apreciar as ideias recebidas especialmente pelo tipo de coração com o qual não nascemos. No Cardeal Wuerl e em Cupich, vemos dois homens que aprenderam a cultivar uma grande variedade de relacionamentos com pessoas de todo o tipo de opinião, fundos culturais e formação, o que é um dos motivos pelos quais eles foram tão importantes e eficazes na Sínodo dos Bispos do ano passado. Ambos são homens de dons intelectuais óbvios. Vemos homens que são, antes de tudo, clérigos – e não guerreiros da cultura.

Por fim, um pensamento final, uma reflexão que me vem esta manhã depois de assistir a uma entrevista que Cupich deu dias atrás. Entre algumas fotografias que acompanharam a história está uma tirada no Sínodo 2015. Vemos uma fila de bispos em seus lugares e apenas um está inclinado para a frente, uma vontade evidente até mesmo em sua postura: Cupich. Muitos dos clérigos, não os bispos da guerra cultural, estão chegando à idade limite, aproximando-se do período de se aposentar. Há uma lassidão discernível entre aqueles bispos que foram formados pelo falecido Cardeal Joseph Bernardin. Por muito tempo, eles vêm lutando para manter a Conferência dos Bispos americana ainda mais dentro em território da direita, e por terem perdido tantas vezes essas batalhas, eles às vezes se parecem como o equivalente eclesiástico daqueles que sofrem da síndrome da esposa espancada.

O fato de que o Papa Francisco encontrou o líder óbvio da próxima geração de bispos clérigos, um alguém que ainda se senta na ponta do seu assento e tem a energia e a inteligência para ajudar a moldar o futuro da Igreja nos EUA, muito nos diz sobre o quão eficaz é a coleta de informação que ele, o papa, tem. E àqueles de nós que acreditam que a Igreja não está velha e cansada, mas que sempre é capaz de se renovar no Espírito, sempre uma igreja pecadora convertida distante de uma nova vida, sempre um alguém com fome longe de uma nova experiência de graça, um prisioneiro longe de um uma compreensão mais profunda da liberdade, um sem-teto distante de uma nova experiência da Encarnação, há uma esperança, uma grande esperança, naquela foto do ávido arcebispo na ponta de seu assento, ansioso para difundir a boa nova e, agora, com esta nomeação, em encontrar colegas de trabalho na vinha.

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