Por uma Igreja com mulheres. Peregrinação ilustra um ‘grande problema’ no catolicismo

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07 Julho 2016

Um grupo de oito peregrinos caminhou mais de 950 quilômetros, da Suíça até Roma, para apoiar uma “Igreja com mulheres”, sem contudo defender a ordenação feminina, mas apenas querendo abrir um diálogo. A boa notícia para essas pessoas é que há uma gama surpreendentemente ampla de medidas possíveis que não contrariam o magistério católico nem a tradição.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 06-07-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Uma das peregrinações católicas mais marcantes na memória recente foi feita no início de julho deste ano culminando com uma pequena missa celebrada em um altar lateral da Basílica de São Pedro.

Um grupo de oito fiéis – sete mulheres e um homem – percorreu mais de 950 quilômetros, de São Galo, na Suíça, a Roma transportando nada mais do que mochilas e bengalas. A jornada foi concluída atravessando a Porta Santa da Basílica de São Pedro e, em seguida, participando de uma liturgia em privado.

A princípio, não há nada incomum nesta experiência, já que cobrir longas distâncias a pé sempre fez parte da tradição de peregrinação.

O que distingue a caminhada feita neste caso é o motivo por detrás: os oito peregrinos percorrem o trajeto carregando cartazes que pediam “Por uma Igreja com mulheres”, afirmando que queriam salientar a necessidade de o catolicismo fazer um trabalho melhor de escuta às vozes femininas.

“Nós não queremos que, no futuro, os homens da nossa Igreja mantenham espaços de reflexão sem a presença de mulheres quando se tratar de questões que dizem respeito a elas, ao papel delas e às suas funções. E nós não queremos que eles tomem decisões sem a presença de mulheres em qualquer coisa que se refira à vida da Igreja”, disse Hildegard Aepli, que iniciou o projeto.

O grupo, que partiu em 2 de maio e chegou a Roma em 29 de junho, não tem a intenção de desafiar a ortodoxia católica; eles não defenderam a ordenação de mulheres, por exemplo.

“Queremos avançar no sentido de igualdade de direitos com os homens na Igreja, e não contra eles”, disse Aepli.

O grupo contou com o apoio de Dom Markus Büchel, da Diocese de São Galo, que disse que “caminhou espiritualmente” com eles e que viajou a Roma para celebrar a missa com o grupo no dia 2 de julho.

Os oito peregrinos esperavam ter uma reunião com o Papa Francisco, mas acabaram conseguindo apenas entregar uma carta a ele.

“Nós sofremos porque muitas mulheres se sentem em nossa Igreja como se fossem pessoas estranhas”, diz a carta. “Sofremos por não sermos levadas a sério ou por haver uma sensação não sermos bem-vindas, pois as mulheres estão muito pouco envolvidas nos órgãos responsáveis pelas atividades e nos processos de tomada de decisão da Igreja”.

A carta diz ainda que o grupo “não elencou uma lista concreta de demandas”, querendo com a iniciativa apenas abrir um diálogo. O texto pede a Francisco que ajude a garantir que as mulheres “tenham voz”, tanto no Vaticano como nas igrejas locais ao redor do mundo.

Apesar de ter sido feita por um grupo relativamente pequeno, esta peregrinação ilustra um desafio muito maior para a Igreja Católica, a saber: Ela tem um “problema de mulher”.

Antes de tudo é preciso dizer: estamos falando aqui no nível da percepção e da forma como algumas pessoas vivenciam a Igreja, sem fazer juízos de certo e errado sobre essas percepções.

Com certeza, existem dezenas de mulheres católicas emancipadas, satisfeitas que não se consideram cidadãs de segunda classe; são fiéis que consideram muitas das críticas à Igreja, por esta ser “contra as mulheres”, como críticas exageradas.

No entanto, outros fiéis – homens e mulheres – não se sentem assim. Eles e elas enxergam uma Igreja cuja liderança é dominada por homens, e na qual as decisões que mais importam são tomadas por homens.

O próprio Papa Francisco é uma dessas pessoas. Ele repetidamente diz que quer papéis mais decisivos para as mulheres, incluindo uma presença maior nas arenas onde se tomam decisões, afirmando também que o catolicismo precisa de uma teologia feminina mais profunda.

Ao mesmo tempo, ele excluiu totalmente de pauta a questão da ordenação feminina ao sacerdócio, dizendo que São João Paulo II fechou esta porta e que ela irá permanecer fechada. Ele também disse que, em sua opinião, mais importante do que funções e cargos que as mulheres desempenhem na Igreja, é encontrar novas maneiras de fazer suas vozes serem ouvidas.

Claro, esses dois pontos não são totalmente independentes, já que as mulheres com funções e postos visíveis que geram consequências geralmente contam com melhores oportunidades de serem escutadas.

Em todo caso, há várias etapas que Francisco pode tomar para impulsionar os papéis desempenhados por mulheres e que não envolvem ordenação. Sem qualquer pretensão de concluir a lista, aqui estão alguns exemplos concretos.

• Nomear mulheres para cargos de alto escalão no Vaticano que não dependem do sacramento da Ordem, tais servir como porta-voz papal, ser presidente do Banco Vaticano, ou fazer parte do Conselho para a Economia.

• Aceitar a sugestão de Lucetta Scaraffia, editora de uma seção especial sobre mulheres para o jornal vaticano L’Osservatore Romano, criando um conselho de assessores leigos de todo o mundo para complementar “C-9” (o conselho de nove cardeais assessores do papa). Ambos poderiam servir como grupos consultivos a Francisco, e o grupo dos leigos poderia incluir mulheres assim como homens.

• Deixar claro que as conferências episcopais podem muito bem nomear mulheres para atuar como secretária-geral. Os bispos sul-africanos fizeram exatamente isso em 2012, mas quando os americanos consideravam a ideia em 2000, foram advertidos por Roma a não seguirem neste caminho.

Politicamente falando, há uma escola de pensamento em alguns ambientes da Igreja que nunca estará satisfeita com nada menos do que a ordenação de mulheres, seja para o sacerdócio, seja para o episcopado, escola que irá considerar passos como estes listados acima como apenas um movimento de fachada.

A maioria dos católicos, no entanto, são suficientemente realistas para perceber que, seja qual for a opinião particular que se tenha sobre a ordenação, tal coisa não vai acontecer e, portanto, um progresso real tem que vir de um outro lugar.

A boa notícia para as pessoas tais como os peregrinos de São Galo, que dizem que vieram para o diálogo sem ter uma pauta pré-determinada, é que existe uma gama surpreendentemente ampla de passos possíveis que não contrariam o magistério católico nem a tradição.

“Homens e mulheres da nossa Igreja estão à espera e irão agradecer-lhe” por dar alguns desses passos, escreveram os peregrinos em sua carta a Francisco “e a Igreja só pode vencer se as mulheres estiverem em melhores condições de trazer os seus carismas e os seus dons”.

Muitos católicos provavelmente dirão: é difícil discordar disso.

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