Fator Ratzinger: a última tentação do integralismo anti-Bergoglio. Artigo de Alberto Melloni

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29 Junho 2016

"O ministério de unidade e a sinodalidade são hoje o problema de todas as Igrejas (e de todas as sociedades, se colocarmos no lugar do ministério a soberania e, no lugar da sinodalidade, as instituições democráticas). O vigor espiritual da renúncia de Ratzinger, primeiro, e, depois, o extraordinário vigor evangélico de Francisco fizeram surgir na Igreja uma intolerância para com um e para com outro. E confirmam que a reforma do papado e da Igreja é necessária e está em curso".

A opinião é do historiador italiano Alberto Melloni, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 28-06-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Nota da IHU On-Line: Na imagem acima, o papa emérito entrega a Francisco um livro publicado ontem, por ocasião dos 65 anos de ordenação presbiteral. de Ratzinger.

Eis o texto.

Por ocasião do 65º aniversário da sua ordenação presbiteral, foram reunidas em um livro quase 40 homilias sobre o sacerdócio proferidas por Joseph Ratzinger em diversas ocasiões, entre os anos 1950 e os anos do seu pontificado.

Essas fontes têm uma introdução do cardeal Gerhard Müller, que lê a queda das vocações como uma "crise" do sacerdócio e a remete, assim como grande parte da apologética integralista, a fatores como "a abertura, por parte de tantos âmbitos católicos, à exegese protestante em voga nos anos 1950 e 1960".

O volume, porém, também tem um prefácio do Papa Bergoglio, no qual Francisco entra com afiada leveza na fisionomia atual do "ministério petrino". O pontífice escreve que, "renunciando ao exercício ativo do ministério petrino, Bento XVI decidiu agora se dedicar totalmente ao serviço da oração", e explica que a oração não é o tempo livre do sacerdócio ministerial, mas a sua razão de ser.

Portanto, Francisco considera que a tarefa orante que o bispo emérito de Roma assumiu, absorve e esgota a sua função: ele também repetiu isso no avião ao voltar da Armênia. É a linha a que Ratzinger se ateve inflexível e irrepreensivelmente: como dissera, ele não voltou à "vida privada" do professor feita "de viagens, encontros, recepções, conferências etc.", e escapou de todas as tentativas de transformá-lo na bandeira dos descontentes de Bergoglio – e justamente Bergoglio reconheceu isso, ao informar que Bento XVI tinha expulsado aqueles que, antes e durante o Sínodo, tinham ido ao seu encontro para lhe pedir para dar força às minorias zelosas.

A questão do posicionamento de Bento, porém, ressurgiu várias vezes e continua ressurgindo periodicamente com teses excêntricas, mas reveladoras. Em 2014, um padre de Modena, Stefano Violi, escreveu um artigo para a revista da Faculdade Teológica de Lugano. Nele, ele defendia que Bento XVI tinha se privado apenas do exercício ativo do ministério petrino e, portanto, tinha levado consigo, por assim dizer, uma parte do "múnus". De acordo com ele, o que o Papa Francisco tinha recebido, portanto, não era "o" papado: mas o exercício "em condomínio" de uma autoridade que permanecia, de algum modo, também com o seu antecessor.

A tese – que se uniu com o febril "sedevacantismo" de Antonio Socci, que vê em Bergoglio um papa ilegítimo e, de fato, herético – tinha em si um postulado simplesmente subversivo: isto é, que o papado não é um ministério dotado de prerrogativas e limites próprios do bispo de Roma ("statim ordinetur episcopus", diz a regra do conclave caso seja eleito um leigo ou um padre): mas que é um oitavo sacramento, do qual não é possível se despojar.

Não seria, portanto, o fato de ser bispo que conserva uma identidade ao papa emérito, mas sim o fato de ter sido papa que faz manter prerrogativas. Então, Dom Georg Gänswein, secretário de Bento XVI e prefeito da Casa Pontifícia, liquidou a asneira do professor de Ticino em uma frase: "Eu acho que é uma bobagem [sciocchezza] teológica e também lógica". Lapidar, como deve ser um canonista da escola de Munique.

Porém, ao apresentar na Universidade Gregoriana a biografia de Bento XVI de Roberto Regoli, intitulada Oltre la crisi della Chiesa. Il pontificato di Benedetto XVI [Além da crise da Igreja. O pontificado de Bento XVI] (Ed. Lindau), o próprio Gänswein voltou ao tema.

Depois de dizer que não há "dois papas", acrescentou que, hoje, na Igreja Católica, haveria, "de fato, um ministério alargado, com um membro ativo e um contemplativo: por isso, Bento não renunciou nem ao seu nome nem à batina branca. Por isso, o apelativo correto para se dirigir a ele ainda hoje é "Santidade".

Pode ter se tratado de uma brincadeira: como aquela sobre o "lento apagar-se" de Ratzinger, que escapou dele em março e que, depois, retirou, percebendo que uma frase afetuosa parecia um prenúncio fúnebre.

Mas é o sinal de uma inquietação que não tem nada a ver com a renúncia de Bento, mas com o papado de Francisco e com aqueles que se lamentam dele. A questão, de fato, não é o hábito ou o nome. Bento XVI poderia ter retomado os hábitos pretos e o nome de batismo.

Mas aqueles que viram no batistério de Florença o monumento fúnebre de Donatello ao cardeal Cossa, o João XXIII "quondam papa" deposto em Constança, sabe que ele usa os suntuosos hábitos cardinalícios que lhe foram concedidos em troca da sua submissão.

A batina branca de Ratzinger, portanto, é um modo  para dizer que ele não é emérito por deposição, mas por um gesto livre. Feito com o mesmo amor pela Igreja de tantos bispos que cessam o ofício, de acordo com o cânone 401, aos 75 anos (idade que, nos anos 1960, era considerada o limiar da decrepitude, e que a Santa Sé nunca atualizou, apesar de ter tido os dois últimos papas eleitos além desse limiar).

Também não é relevante a questão do título. Como sugeriu Gianfranco Ghirlanda, Bento, por analogia com o cânone 401, podia se valer do título de "bispo emérito de Roma": foi preferido o título genérico de "papa" (o patriarca de Alexandria também é "papa").

O verdadeiro ponto é outro: isto é, se é possível inserir o papa emérito – sem o seu conhecimento – em um "ministério alargado" com dois "membros", um que reza (e aconselha?), o outro que governa (e tem o dever de se consultar?).

Bergoglio se posiciona em um "não" claro: depois do "exercício ativo do ministério petrino", um bispo e um padre continuam exercendo o ministério sacerdotal da oração. Nada mais. Amém.

Porém, o repetido surgimento de excogitações sobre o ministério petrino existe. E não se aplaca, com inúteis engenhos voltados a produzir in vitro uma "continuidade" entre Francisco e Bento que só se obtém imergindo-os em um absoluto papista em que todos os papas são negros.

O ministério de unidade e a sinodalidade são hoje o problema de todas as Igrejas (e de todas as sociedades, se colocarmos no lugar do ministério a soberania e, no lugar da sinodalidade, as instituições democráticas). O vigor espiritual da renúncia de Ratzinger, primeiro, e, depois, o extraordinário vigor evangélico de Francisco, que se fundamenta em uma mística contemplativa que eu desaconselharia de subestimar, fizeram surgir na Igreja uma intolerância para com um e para com outro. E confirmam que a reforma do papado e da Igreja é necessária e está em curso.

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