O PT não terá um cheque em branco

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28 Junho 2016

“O golpe, de certa forma, zerou o jogo político no embate entre direita e esquerda”, escreve Aldo Fornazieri, professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em artigo publicado por Jornal GGN, 27-06-2016.

Segundo ele, “na medida em que o jogo foi zerado, setores Ministério Público, da Polícia Federal e do Judiciário, coadunados com o golpe, desencadearam uma nova ofensiva contra o PT visando desbalancear o jogo novamente. Prender petistas e não prender tucanos e peemedebistas é a fórmula de desequilibrar o jogo novamente. Se existem petistas que merecem ser presos, por que tucanos e peemedebistas que também merecem ser presos não o são? Aqui está o viés antirepublicano do judiciário e do Ministério Público, sua parcialidade e sua partidarização”.

“O PT não se reconciliará com a sociedade, com a militância e com os movimentos sociais – assevera o sociólogo - se não propor uma repactuação, se não assumir seus erros e se não apontar um novo caminho político e uma nova conduta e uma nova prática política. O PT precisa perceber que está curto circuitado politicamente e que ninguém está disposto a dar-lhe um cheque em brando como lhe foi dado várias vezes no passado. Trata-se de um partido sob a suspeição da militância petista, dos movimentos sociais e da sociedade democrática e progressista. Não basta dizer que os outros são piores do que o PT. O PT precisa dizer que será melhor e diferente do que foi até agora é essa promessa precisa vir carregada de fidedignidade”.

Eis o artigo.

Não resta dúvida de que a esquerda vive um quadro de defensiva mundial, tendo como contraface o fortalecimento da direita e do conservadorismo. Na América do Sul o quadro é desolador: derrota na Argentina, derrota de Evo Morales no plebiscito boliviano, iminência de queda de Maduro na Venezuela, problemas de Bachelet no Chile, no Peru a esquerda ficou de fora do segundo turno e o golpe no Brasil enredado com o fracasso do governo Dilma. No plano mais abrangente, temos a ascensão de Trump nos Estados Unidos, o fortalecimento da direita em vários países europeus, a vitória do Brexit na Reino Unido e do Partido Popular (Conservador) na Espanha.

No Brasil, a tendência é a de que o impeachment se consolide de forma definitiva no Senado com a consumação do golpe. Nem o PT e nem o conjunto das forças progressistas e democráticas mostram-se capazes de resistir ao golpe. O PT e Dilma não se mostram aptos a oferecer uma saída política que possa acolher o apoio da sociedade. Consumado o impeachment, não devem pairar dúvidas para as pessoas sensatas e inteligentes acerca do aprofundamento do caráter conservador e repressivo do governo Temer. O ataque aos direitos sociais e trabalhistas se ampliará e o corte aos recursos das políticas sociais já está anunciado nas propostas da equipe econômica.

É preciso perceber que o golpe, de certa forma, zerou o jogo político no embate entre direita e esquerda. Ocorre que o início desastroso do governo Temer, somado às denúncias e as delações premiadas que atingiram em cheio as principais figuras do governo golpista e do PSDB, incluindo o próprio presidente interino, disseminaram a sensação de que houve um engodo da sociedade durante as mobilizações anti-Dilma, anti-PT e anti-Lula. Aquilo que foi ativismo nas grandes mobilizações pelo impeachment se transformou em vergonha e recolhimento por boa parcela da sociedade. Nas últimas semanas, o governo Temer e o PMDB vinham aparecendo com uma face mais corrupta do que o governo Dilma e o PT.

As citações de Aécio Neves em várias delações premiadas e a aceitação de sua investigação por parte do STF foram outros ingredientes que contribuíram para zerar o jogo e fortalecer a ideia de que na política todos os gatos são pardos e de que todos os políticos são corruptos. Não bastasse tudo isso, firmou-se, em boa parte da sociedade, a tese de que o impeachment não foi impeachment, mas foi golpe mesmo. Tudo somado, o governo Temer ficou sem linhas de defesa na sociedade, a não ser os setores já desmoralizados que atuam na mídia, os economistas sem credibilidade e alguns analistas que querem se cacifar para vender consultorias.

Outro elemento do equilíbrio do jogo diz respeito ao fato de que o conservadorismo perdeu as ruas – recuperadas agora pelos setores progressistas e democráticos, contrários ao golpe, mas que não necessariamente dão seu aval para o PT e para Dilma. Em que pese tudo isto, nem esses setores, nem o PT e nem Dilma oferecem uma saída para a crise. Desta forma, diante da ausência de uma estratégia, a única tática existente consiste na tática da reorganização e da acumulação de forças.

Na medida em que o jogo foi zerado, setores Ministério Público, da Polícia Federal e do Judiciário, coadunados com o golpe, desencadearam uma nova ofensiva contra o PT visando desbalancear o jogo novamente. Prender petistas e não prender tucanos e peemedebistas é a fórmula de desequilibrar o jogo novamente. Se existem petistas que merecem ser presos, por que tucanos e peemedebistas que também merecem ser presos não o são? Aqui está o viés antirepublicano do judiciário e do Ministério Público, sua parcialidade e sua partidarização.

O PT precisa propor uma repactuação com a esquerda e com a sociedade

É neste cenário que ocorrerão as eleições municipais. Mesmo diante da tragédia do avanço do conservadorismo, a esquerda deverá se apresentar dividida em importantes centros da disputa, a exemplo de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Se as esquerdas fossem responsáveis e refletissem sobre o atual momento histórico deveriam se unir em torno das candidaturas mais viáveis em cada cidade.

Para ficar apenas em dois exemplos, deveriam se unir em torno de Fernando Haddad em São Paulo, e de Marcelo Freixo no Rio de Janeiro. Por um lado, existe a ilusão de setores do PSol que acreditam que podem se fortalecer na mesma proporção do enfraquecimento do PT. Por outro, o PT vai para a disputa como se nada tivesse acontecido, como se o partido continuasse hegemônico, como se ele não devesse nenhuma explicação para a militância, para os movimentos sociais e para a sociedade.

O PT não se reconciliará com a sociedade, com a militância e com os movimentos sociais se não propor uma repactuação, se não assumir seus erros e se não apontar um novo caminho político e uma nova conduta e uma nova prática política. O PT precisa perceber que está curto circuitado politicamente e que ninguém está disposto a dar-lhe um cheque em brando como lhe foi dado várias vezes no passado.

Trata-se de um partido sob a suspeição da militância petista, dos movimentos sociais e da sociedade democrática e progressista. Não basta dizer que os outros são piores do que o PT. O PT precisa dizer que será melhor e diferente do que foi até agora é essa promessa precisa vir carregada de fidedignidade.

Se o PT não for capaz de fazer essa repactuação sofrerá uma erosão por duas vertentes: a primeira será aquela que escoará parte da militância de esquerda para candidaturas ideológicas, com pouca chance de se viabilizarem eleitoralmente; a segunda será a vertente do desânimo, da depressão, do abstencionismo e do abandono da luta. O PT não terá razão em culpar essas pessoas, pois suas opções são produtos da desastrosa condução do partido, de sua aliança desmesurada com as elites conservadoras, da corrupção do partido.

Recentemente, foi possível ouvir da boca de um importante ex-ministro petista, em tom autocrítico, afirmar que a militância e os movimentos sociais eram vistos como um estorvo para o governo. Essa mesma afirmação já foi verbalizada por secretários municipais e por prefeitos. Essa concepção denota um profundo desapreço à democracia, uma arrogância de pequenos tiranos no exercício do poder, a ausência de valores republicanos como a humildade, a simplicidade e a frugalidade. Revela também uma postura manipulatória e instrumentalizadora da militância e dos movimentos sociais: recorre-se a eles apenas no momento das eleições e depois são esquecidos em suas fadigas, em suas lutas e em suas demandas, pois eles “atrapalham”, são “incômodos” e enfeiam o poder.

Essa arrogância de governantes e dirigentes petistas não pode mais ser aceita. Se é necessário apoiar candidatos petistas com chance de vencer eleições que se os apoie, não só em nome de barrar o avanço do conservadorismo, mas também em nome de uma repactuação, de compromissos explícitos e verbalizados de que esses candidatos, se eleitos, e o próprio partido trilharão caminhos diferentes de agora em diante e que caminharão junto com o povo e não junto com as elites e suas benesses.

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