Armênia, o país da verticalidade

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28 Junho 2016

Na Armênia, viaja-se apenas na vertical: alguns pela espiritualidade, alguns pela altitude. Na horizontal, permaneceu apenas um pedaço de terra um pouco maior do que a Sicília, apesar do gigantesco reino antigo que se estendia do Mar Cáspio ao Mediterrâneo: alguns séculos depois, em 301, o país foi o primeiro a adotar o cristianismo de Estado.

A reportagem é de Camilla Tagliabue, publicada no jornal Il Sole 24 Ore, 26-06-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Justamente nestes dias, o Papa Francisco se dirigiu para lá como peregrino, hóspede de Karekin II, o Catholicos (a mais alta autoridade) da Igreja Apostólica Armênia: durante a visita, o pontífice rezou pelas vítimas da "primeira da tragédia do século XX", o "genocídio "que, em 1915-1918, quase exterminou o povo armênio.

Planejado pelos Jovens Turcos, o genocídio ceifou mais de 1,5 milhão de vítimas, sem contar o ódio e as perseguições germinados ainda no fim do século XIX: o luto nacional é comemorado todo dia 24 de abril, dia do início das prisões e deportações, cujo "destino final" era o deserto sírio.

Também por isso, um dos símbolos da república caucasiana é a romã, em memória do sangue derramado e do único alimento disponível aos deportados: um grão por dia durante cerca de um ano.

Em Yerevan, a capital, foi erguido, no final dos anos 1960, um memorial (foto acima): uma chama eterna protegida por 12 placas de basalto e uma estela de 44 metros dividida em dois, em recordação da separação forçada entre Armênia oriental e ocidental (agora Turquia), mas também da tensão comum à verticalidade, já que as pontas parecem se unir no alto.

O complexo é muito frequentado por moradores locais, estrangeiros e autoridades internacionais, que aqui plantam os pinheiros da memória. Infelizmente, o jardim não está igualmente lotado: apenas cerca de 30 países do mundo reconheceram o genocídio armênio.

No museu adjacente, está gravada como aviso a frase de Hitler: "Quem fala mais hoje do genocídio armênio?". Era 1939, o Holocausto estava prestes a começar.

No século XIV, foi Tamerlão que violou a Armênia, terra desde sempre saqueada e invadida por romanos, bizantinos, otomanos, curdos, persas, mongóis e depois pela URSS, à qual incorporada em 1922 e até 1991, enquanto hoje é uma república parlamentar com cerca de três milhões de habitantes mais sete milhões da diáspora (sobretudo na Rússia, EUA e França).

É forte a influência russa, da minoria dos molokani às arquiteturas soviéticas da capital ou de Gyumri e Goris. O lago de Sevan, além disso, é um encantador set tchekhoviano a 2.000 metros de altitude, assim como cerca da metade da superfície armênia.

As paisagens lembram ora a Suíça, ora um vale estadunidense, mas é melhor evitar dizer isso a um nativo, porque se ofenderia: aqui tudo é "armênio", da cabra ao manjericão.

Uma eloquente metáfora do país é o Ararat, "gentilmente concedido" a Ataturk pelos soviéticos em 1921: hoje, o monte, com os seus 5.137 metros de altura, olha e protege o seu povo do outro lado da fronteira, justamente como um armênio da diáspora, que, de longe, envia ajuda e apoio aos compatriotas. Por aqui passou Marco Polo, e, reza a lenda, a Arca de Noé ancorou no seu topo, onde desembarcaram os sobreviventes do dilúvio universal.

O Ararat é quase sinônimo de armênio, um povo cuja espiritualidade contaminou até mesmo o álcool: da cerveja ao brandy, tudo se chama "Ararat". Até mesmo a cave da fábrica de conhaque se chama "paraíso" porque conserva as garrafas mais valiosas.

Sagrado e profano, ou "pagão", como se diz aqui, estão unidos: a tradicional cruz armênia está colocada no cimo de uma árvore da vida, e dos seus braços brotam flores. As mais famosas são as khatchkar, as cruzes de pedra, admiráveis às centenas no cemitério de Noratus.

Os armênios são religiosos e orgulhosos, mas não ostentam nada; são hospitaleiros, gentis e extraordinariamente irônicos, com aforismas como: "Na Armênia, há o mar, mas não há a água". A convivialidade é apreciada, sobretudo à mesa, comendo o lavash, um pão "pergaminho", patrimônio da Unesco desde 2014.

Para apreciar a criatividade armênia, no entanto, pode-se visitar a casa-museu de Sergei Parajanov, diretor poliédrico e visionário, amigo de Tonino Guerra, estimado por Pasolini e Fellini. Ele foi perseguido e preso pelo regime soviético: quando não podia fazer filmes, compunha colagens numinosas com objetos comuns, até mesmo na prisão.

Entre os escritores, destacam-se Antonia Arslan e William Saroyan, ambos filhos da diáspora; o segundo apontou: "Avante, destruam a Armênia. Vamos ver se vocês conseguem. Mandem-nos ao deserto sem pão nem água. Depois, vocês verão se eles não vão rir, cantar ou rezar ainda".

O patrimônio cultural vai dos complexos megalíticos, como Karahunj, às cidadezinhas características como Dilijan, do templo helênico de Garni aos esplêndidos mosteiros e igrejas de Geghard, Sevanavank, Noravank, Tatev... Esta última foi recentemente requalificada, graças também à Idea Foundation, uma organização filantrópica, fundada por Ruben Vardanyan, que incentiva o desenvolvimento cultural e econômico da Armênia.

Tatev agora tem o teleférico mais longo do mundo, que lhe permite chegar rapidamente ao mosteiro encastelado nas montanhas da região de Syunik: só o passeio de teleférico, com vista lunar sobre o vale, já vale a excursão.

O nome Tatev vem do arquiteto: ele construiu uma cúpula tão alta que, ao fim dos trabalhos, não conseguiu mais descer. Então, gritou: "Astvats indz ta tev", "Que Deus me dê asas". Que o viajante vertical se lembre de colocar um par delas na mala.

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