A arquitetura mental insustentável por trás do assassinato da onça-pintada Juma

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23 Junho 2016

"A morte/assassinato de Juma mostra que a relação homem-animal irracional precisa mudar, pois, da forma como está, é insustentável. Frente a essas insustentabilidades do pensar e do agir, para aprofundar a discussão e compreender o problema porto, é possível buscar suporte na Teoria da Complexidade de Morin, com a noção de que tudo está interconectado, em rede. Levando-se em consideração esse pressuposto teórico em conexão com o fato ocorrido, pode-se inferir, dentre outros pontos, que a morte de Juma significa que o projeto de ética do humano falhou em algum ponto da escala evolutiva", escrevem Elissandro dos Santos Santana, especialista em sustentabilidade, Denys Henrique R. Câmara, licenciado em letras e especialista em educação de jovens e adultos, e Rosana dos Santos Santana, estudante do curso de Artes da Universidade Federal do Sul da Bahia, em artigo publicado por EcoDebate, 22-006-2016.

Eis o artigo.

A grande mídia encabeçou a notícia como “A morte da onça-pintada Juma”, mas a chamada deveria ser outra “O assassinato da onça-pintada Juma”, pois o que aconteceu, nesse caso, foi, exatamente, a banalização da vida de outro ser que, assim como o humano, possui todo o direito de existir e coexistir no Planeta. Listada como ameaçada de extinção, o assassinato de Juma configura-se como atentado não somente a um indivíduo, mas à existência de toda a espécie. A história dessa onça-pintada revela-se, semanticamente, como a própria história da extinção. 

Antes de mais elucidações e teorizações acerca do fato, torna-se importante trazer à tona a narrativa do triste episódio através do jornal Folha de São Paulo. Segundo esse periódico, na matéria “Exército diz que pode punir militar por morte de onça após revezamento da tocha”, a morte da onça-pintada Juma, que foi exibida durante passagem do revezamento da tocha olímpica por Manaus, nesta segunda-feira (20), será averiguada pelo Exército. Que Juma morreu no final da manhã desta segunda, depois de escapar de sua jaula de proteção no zoológico do CIGS, no bairro São Jorge, na zona oeste da capital do Amazonas. O centro estava fechado, sem visitação pública, como em todas as segundas-feiras. Primeiro, um tratador foi tentar resgatá-la e houve disparo de tranquilizante. O projétil não a acalmou e ela partiu em direção a um militar. Segundo o CMA, “como procedimento de segurança, visando proteger a integridade física do militar e da equipe de tratadores”, foi desferido um tiro com pistola, que foi fatal. 

A morte/assassinato de Juma mostra que a relação homem-animal irracional precisa mudar, pois, da forma como está, é insustentável. Frente a essas insustentabilidades do pensar e do agir, para aprofundar a discussão e compreender o problema porto, é possível buscar suporte na Teoria da Complexidade de Morin, com a noção de que tudo está interconectado, em rede. Levando-se em consideração esse pressuposto teórico em conexão com o fato ocorrido, pode-se inferir, dentre outros pontos, que a morte de Juma significa que o projeto de ética do humano falhou em algum ponto da escala evolutiva. Ainda no tocante a esta discussão, subentende-se que o ser humano, todavia, não se deu conta de que acelerando a extinção dos outros animais, silencia a vida com a própria morte, pois todos os nichos ecológicos que existem atuam no planeta com finalidades e propósitos bio-químico-físico-espírito-cosmos-ecológicos específicos, com serviços ambientais para toda a Terra.

Para Santana (2016): via teoria da complexidade de Morin, pode-se perceber que tudo está interligado e, dessa forma, há a possibilidade de enfraquecimento da visão utilitária que o ser humano, muitas vezes, possui em relação aos animais. Nessa visão reducionista utilitária, em sociedades altamente dependentes da pecuária para o desenvolvimento interno, é trivial a estrutura cognitiva do cuidado travestido de interesse capital para o abate ou outras finalidades culturalmente aceitas para o uso do animal com fins de aumento na balança comercial. Consoante aos animais domésticos é recorrente o discurso entre os membros da sociedade brasileira, em especial, em relação aos cidadãos que ainda não atingiram a concretude da fase das necessidades fisiológicas, uma ausência total em relação ao cuidado com os animais, partindo-se sempre do pressuposto de que se não darão lucro, não são importantes.

O ponto mais marcante e que, por isso, comporta diversas análises e reflexões, é a banalização da vida com a espetacularização dos animais em eventos. A banalização se dá em várias frentes. A primeira delas é o fato de que diante do design relacional atual, pelo menos, a equipe responsável por levar Juma ao evento e devolvê-la ao espaço no qual residia deveria ter planos eficientes de gestão e de trato com o animal, mas o resultado confirma o contrário. Por último, pode-se dizer que, na ausência de práticas sustentáveis no manejo do animal, podem ser levantadas questões como a necessidade emergente do fim do uso de animais em eventos públicos, principalmente, animais selvagens.

O caso em análise demonstra que é urgente outro design mental que leve em consideração o fato de que os animais merecem todo o respeito e cuidado.

Em relação à teoria do cuidado, é possível recorrer a Boff (2013), quando ele pontua o seguinte: o outro modo de ser-no-mundo se realiza pelo cuidado. O cuidado não se opõe ao trabalho, mas lhe confere uma tonalidade diferente. Pelo cuidado não vemos a natureza e tudo o que nela existe como objetos. (…) A natureza não é muda. Fala e evoca. Emite mensagens de grandeza, beleza, perplexidade e força. O ser humano pode escutar e interpretar esses sinais. Coloca-se ao pé das coisas, junto delas e a elas sente-se unido. Não existe, coexiste com todos os outros. A relação não é de domínio sobre, mas de con-vivência. Não é pura intervenção, mas inter-ação e comunhão.

Ao pensar a situação de Juma, oncinha resgatada após a morte de sua mãe, com certeza, resultante da cultura de produção capital predatório vigente, é possível recorrer, mais uma vez, ao que afirma Boff (2003) acerca do ideário humano de conquistar a tudo e todos: surgiu bem cedo o paradigma de conquista no processo de hominização. Saiu da África de onde irrompeu como “homo erectus”, há sete milhões de anos, pôs-se a conquistar o espaço, começando pela Eurásia, passando pela Ásia, América e terminando pela Oceania. Com o crescimento de seu crânio, evoluiu para “homo habilis”, inventando, por volta de 2,4 milhões de anos atrás, o instrumento que lhe permitiu alargar ainda mais sua capacidade de conquista. 

Ainda recorrendo-se a Boff (2003), fica evidente que para o bicho homem, praticamente, tudo está sob o signo da conquista. Para o ser humano, o objetivo é conquistar a Terra inteira, os oceanos, as montanhas mais inacessíveis e os recantos mais inóspitos.

No caso em questão, o animal foi usado para um evento em torno do revezamento da Tocha Olímpica em Manaus e faz parte de algo complexo que passa pela arquitetura mental equivocada de que os outros animais estão a serviço da raça humana, inclusive, para entretê-la. Para fins de reiteração, o que aconteceu com a onça-pintada Juma foi assassinato e não uma simples morte e isso é fruto do desligamento do homem com o meio-ambiente do qual também é parte integrante. 

Para explicar o desligamento do homem com o natural, pode-se trazer à tona o que afirma Boff (2015): e o pior aconteceu: o ser humano se isolou na natureza, quebrou os laços de pertença à comunidade de vida, esquecido da teia das interdependências e da sinergia de todos os elementos naturais e cósmicos para que emergisse no processo evolucionário.

Os sinais de desligamento do homem com a natureza estão por todas as partes, na religião, dado que muitas, na atualidade, isolam-se em discursos obsoletos do mito da fundação do mundo, ainda ancorados na velha noção do crescei e multiplicai-vos, concepção bastante insustentável que pode gerar a bomba populacional e aniquilar a vida de outros seres que lhes servem de alimentos, na ciência que deveria ter atingido a consciência do papel que assume para o progresso da humanidade em linhas mais holísticas, mas que, infelizmente, ainda segue mergulhada nos processos cartesianos de análise e em outros campos do sensível para o humano.

Esse desligamento do homem com a natureza/meio-ambiente pode ter causado rupturas e tornado a Terra um inferno para os animais. Acerca desse ponto, mais uma vez, pode-se apoiar em Boff (2015), quando ele, ao discorrer sobre o antropoceno, questiona se o ser humano seria o satã da Terra, elucida: o fato é que nos últimos trezentos anos, o homo sapiens/demens montou uma investida poderosíssima sobre todas as comunidades ecossistêmicas do planeta, explorando-as e canalizando grande parte do produto terrestre bruto para os sistemas humanos de consumo. A consequência equivale a uma dizimação como outrora. O biólogo E. Wilson fala que a humanidade é a primeira espécie na história da vida na terra a se tornar uma força geofísica destruidora. 

A guisa de considerações finais pode-se afirmar, sem exageros, que ainda que o caso não esteja completamente explicado, no assassinato de Juma reside a triste verdade de que o ser humano tem sido mais demens que sapiens sapiens ao longo de seu processo de existência. Nesse âmbito, para alargar a discussão, faz-se necessário trazer à tona o que afirma Capra (2012): as últimas duas décadas do século XX vêm registrando um estado de profunda crise mundial. É uma crise complexa, multidimensional, cujas facetas afetam todos os aspectos de nossa vida – a saúde e o modo de vida, a qualidade do meio ambiente e das relações sociais, da economia, tecnologia e política. É uma crise de dimensões intelectuais, morais e espirituais; uma crise de escala e premência sem precedentes em toda a história da humanidade.

Referências bibliográficas

BOFF, Leonardo. Ética e Moral: a busca dos fundamentos. 4. Ed. Petrópolis: Vozes, 2003.

Saber cuidar. 19. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres. Dignidade e direitos da Mãe Terra. 19. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. A Ciência, a Sociedade e a Cultura emergente. São Paulo: Cultrix, 2012.

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