O histórico Concílio Ortodoxo irá alcançar resultados após as greves da Igreja?

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21 Junho 2016

Quando a Igreja Ortodoxa russa anunciou que estava saindo do importante Concílio Pan-Ortodoxo, no início desta semana, o temor foi grande de que o evento, há muito esperado, teria de ser cancelado.

A reportagem é de Jonathan Luxmoore,jornalista especializado em coberturas religiosas do Leste europeu, publicada por National Catholic Reporter, 17-06-2016. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Mas quando o coordenador honorário do Concílio, o Patriarca Ecumênico Bartolomeu I de Constantinopla, chegou ao local em Creta, em 15 de junho, ele insistiu que o evento fosse adiante. "Ajudar neste trabalho formidável de amor, com inúmeros homens e mulheres de todo o mundo - o secretariado Pan-Ortodoxo tem trabalhado arduamente, construindo fundamentos para isso", o Patriarcado Ecumênico confirmou em um comunicado. "Sua Santidade é sensível às necessidades particulares de seus irmãos, hierarcas das igrejas irmãs-ortodoxas amplas e distantes, e sempre atentos às expectativas e aspirações de cada membro fiel da Igreja Ortodoxa. Ele chamou todas para a união - podemos responder com caridade e generosidade". 

Planos para o Concílio, que irá debater a doutrina ortodoxa de 19 a 26 de junho, bem como os laços com os católicos e com outras igrejas cristãs, foram estabelecidos pela primeira vez em 1901, pelo Patriarca Ecumênico Joaquim III. Seu local de evento foi transferido para Kolymbari, em Creta, em janeiro deste ano, pela Sinaxe ortodoxa, ou assembléia de dirigentes religiosos, depois que líderes da Igreja russa se opuseram que o evento fosse realizado na Sé do Patriarcado Ecumênico da Turquia. No entanto, em cartas do início de junho ao Patriarca Bartolomeu, igrejas ortodoxas na Geórgia e na Bulgária disseram que elas não iriam mais participar, citando discordâncias sobre a agenda do Concílio, procedimentos e documentos de trabalho.

Enquanto isso, o Patriarcado da Antioquia, um dos nove no mundo ortodoxo, também desistiu, reclamando que nenhuma solução tenha sido encontrada para a "invasão do território" do Patriarcado de Jerusalém

Uma quarta igreja, na Sérvia, também ameaçou a se retirar, depois de exigirem o adiamento do Concílio. Em 16 de Junho, o seu líder, o Patriarca Irinej, cedeu e disse que sua igreja iria a Creta. Mas que ela iria sair prontamente, Irinej avisou, se "todas as questões, problemas e diferenças" não fossem totalmente contabilizadas.

O Patriarcado de Moscou, na Rússia, se queixou que não tinha sido suficientemente envolvido nos preparativos do Concílio e tinha apresentado "propostas urgentes" para uma reunião prévia ao evento, para discutir as desistências das Igrejas.

Mas isso foi rejeitado pelo Patriarca Bartolomeu, que insistiu que a agenda e os documentos tinham sido "aprovados por unanimidade" pela Sinaxe, em janeiro. Adiar o Concílio após tanta preparação comprometeria a Igreja Ortodoxa internacionalmente, disse Bartolomeu aos russos, e infligiria "danos irreparáveis à sua autoridade."

Em 13 de junho, ofendida pela repreensão, a Igreja Ortodoxa russa acusou Bartolomeu de violar o "princípio de consenso pan-ortodoxo" e confirmou que também estava desistindo. 

"Estávamos dispostos a fechar os olhos para os problemas em prol da paz e da unidade", explicou em uma declaração, o diretor de relações estrangeiras da Igreja, o bispo Metropolitano Hilarion Alfeyev. "Deveríamos tirar uma lição disso e entender que as vozes das Igrejas não devem ser desconsideradas. Se uma igreja expressa sua preocupação com alguma coisa, essa preocupação deveria ser resolvida".

O Patriarca Bartolomeu é tradicionalmente reconhecido como o "primeiro entre iguais" por líderes mundiais de 300 milhões de cristãos ortodoxos e tem 11 Igrejas autônomas, exarcados e arcebispos sob sua jurisdição ao redor do mundo.

No entanto, seu próprio Patriarcado em Istambul (o nome moderno para Constantinopla) exerce autoridade direta sobre apenas 3,5 milhões de cristãos ortodoxos na Turquia, em Creta, nas Ilhas do Mar Egeu e no Monte Atos; e por mais que ninguém conteste sua primazia nominal, alguns hierarcas ortodoxos opõem-se ao modo como ele o utiliza - especialmente na Rússia, cuja Igreja Ortodoxa afirma lealdade espiritual da maioria dos 144 milhões de cidadãos do país e é de longe o maior no mundo ortodoxo.

As 14 igrejas que devem participar do Concílio, cada uma trazendo a Creta 24 representantes, são reconhecidas como membros plenos da comunhão ortodoxa de maneira igualitária, independentemente de seu tamanho e de seus recursos.

No entanto, os antigos Patriarcados de Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém são tradicionalmente vistos como os primeiros na ordem canônica; e todas as 14 igrejas invejam sua autoridade e independência. 

Isso ajuda a explicar a complexidade de organizar um Concílio Pan-ortodoxo.

Apesar das desistências, o apoio público à agenda combinada para a reunião de Creta veio de líderes ortodoxos em Chipre, na Romênia e na Albânia, bem como de Teodoro II de Alexandria, que disse esperar que os líderes dissidentes da igreja não permanecessem afastados por causa de "rixas pessoais" enquanto grande parte do mundo enfrentava fome e conflitos.

Várias dúvidas foram expressas, no entanto, acerca dos cinco projetos de documentos do Concílio, elaborados por uma comissão especial em 2014 e 2015. Estes documentos abrangem a missão da ortodoxia no mundo, a diáspora ortodoxa, a autonomia da igreja, o jejum, o casamento e as relações com "o resto do mundo cristão."

O último, particularmente, registra como igrejas ortodoxas têm "aberto caminhos" em "esforços para restaurar a unidade entre aqueles que acreditam em Cristo."

Ele também critica implicitamente a igreja russa, que saiu de uma Comissão Internacional de Diálogo Teológico com os católicos, em Ravena, em 2007, após divergências sobre o primado papal.

Longe de contradizer "a natureza e a história" da Ortodoxia, conforme manifesta o documento, o engajamento ecumênico "representa uma expressão coerente da fé e da tradição apostólicas em um novo contexto histórico." Seu objetivo é "recuperar a unidade perdida dos cristãos baseando-se na fé e na tradição da Igreja antiga". 

"A Igreja Ortodoxa reconhece a existência histórica de outras igrejas e denominações cristãs com as quais não está em comunhão e acredita que a sua filiação com elas deve ser baseada em uma elucidação rápida e objetiva de todos os tópicos eclesiásticos, especialmente os seus ensinamentos gerais sobre sacramentos, benevolência, sacerdócio e sucessão apostólica", estipula o documento.

"Assim, por razões teológicas e pastorais, a Ortodoxia tem visto o diálogo com várias igrejas e denominações cristãs de maneira favorável, bem como a sua participação, em geral, no atual movimento ecumênico". 

No entanto, isso também provocou reações tensas, particularmente da Igreja Ortodoxa da Grécia, que tem resistido tradicionalmente a todos os contatos com os católicos e com outras igrejas. No final de maio, os jornais de Atenas disseram que pelo menos metade dos bispos nomeados para representar a igreja grega haviam se recusado a participar do Concílio.

Eles disseram que um líder metropolitano conservador, Seraphim Mentzelopoulos de Piraeus, tinha desistido da questão do ecumenismo, enquanto o Bispo Metropolitano Hierotheos Vlachos de Nafpaktos, outro delegado, havia se oposto à descrição da Igreja Católica e da Protestante como "Igrejas".

Embora o Vaticano tenha desfrutado de laços amigáveis com o patriarcado ecumênico de Istambul, bem como com várias outras igrejas ortodoxas, os laços com a igreja russa têm sido tensos há bastante tempo, devido a acusações de expansionismo Católico na Ucrânia e na Rússia pós-comunista.

As relações parecem tender a uma melhora desde o encontro histórico do Papa Francisco com o Patriarca Cirilo em Cuba, em fevereiro.

Mas o sentimento anticatólico e antiecumênico permanece forte na Rússia.

"Este documento não especifica claramente que a plenitude da verdade só existe na Ortodoxia - a ponto de as pessoas começarem a se preocupar: isso significa que nós aceitamos que a plenitude e a verdade também podem existir em outro lugar, fora da Ortodoxia?" comentou Padre Philipp Iliashenko, reitor assistente da faculdade de História na Universidade Ortodoxa St. Tikhon de Moscou, em 15 de junho. "Felizmente, devido à igreja ortodoxa russa, os documentos do Concílio receberam uma grande exposição - recebeu-se feedback e algumas sugestões. E o que ouvimos em troca? Sem comentários, sem mudança".

A maioria dos especialistas concorda que as tensões sobre o Concílio também refletem as rivalidades pessoais e institucionais entre a rica e poderosa Igreja Ortodoxa Russa e o pequeno Patriarcado Ecumênico de Constantinopla, com uma existência precária na Turquia, que é predominantemente muçulmana.

Os oficiais da igreja russa há muito tempo se opõem ao uso do título de "Ecumênico" pelo Patriarca Bartolomeu I e se queixaram de que sua igreja deve ter votos extras no Concílio devido ao seu tamanho e predominância.

Outras disputas bilaterais também podem vir à tona durante o Concílio, tais como a alegação da igreja romena sobre a jurisdição espiritual em áreas reivindicadas pelas igrejas sérvia e russa, reivindicações envolvendo a igreja ortodoxa na Estônia e apelos recentes por parlamentares ucranianos por uma Igreja Ortodoxa ucraniana independente.

Em um apelo internacional na semana passada, no entanto, mais de mil teólogos e acadêmicos ortodoxos pediram que tais disputas fossem postas de lado e que os líderes da igreja que estão descontentes não "coloquem em perigo" o trabalho do Concílio. Eles reconheceram que "questões legítimas" sobre os documentos haviam sido levantadas, enquanto "muitos problemas" enfrentados pela Ortodoxia contemporânea teriam de aguardar discussões futuras.

No entanto, o Concílio foi "muito esperado e preparado", como observaram os signatários, e não deve haver "dificuldades insuperáveis" para que o mesmo aconteça no dia 18 de junho, como previsto.

"Ninguém pode esperar que o Concílio resolva todas as questões importantes ou cada conflito de competências em 10 dias - mas esperamos que ele comece um processo de cura e inaugure uma nova era de conciliaridade global e unidade", disse o recurso. "Este Santo e Grande Concílio oferece a oportunidade de iniciar uma nova fase de testemunho ortodoxo. Os olhos do mundo inteiro estão sobre a Igreja ortodoxa, por isso clamamos a nossos líderes para que ouçam o chamado do Espírito em prol da unidade conciliar".

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