Paróquia, aonde vais?

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08 Junho 2016

"Penso em formas novas e diversas de comunidades cristãs, como de resto a exortação Evangelii gaudium convida a imaginar e experimentar. As pessoas necessitam de uma proposta de fé e de vida que fala a elas e à sua situação existencial, sobretudo quando vivem em condições e momentos particulares", escreve Christian Albini, teólogo leigo italiano, em seu blog Sperare per Tutti, 06-06- 2016. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis o artigo

Recentemente, o Papa voltou a insistir que encontrar uma paróquia e, sobretudo uma igreja, fechada, é um fato triste. No entanto, há também tantos padres que, embora sozinhos, anciãos e responsáveis por várias comunidades, os quais dizem: “Não damos conta”.

Se à igreja falta o alento, não adianta sair! Pode parecer exagero, mas por trás disso há uma reflexão que me empenha há tempo e me suscita preocupação. Estou profundamente convencido que a direção indicada pelo Papa Francisco seja a correta: o movimento do Deus bíblico e o movimento de Jesus é aquele de sair; ir para os outros. Jesus era um mestre que rompia limites; diz isso um fiel de olhar límpido como dom Angelo Casati. Somente assim os cristãos conseguem caminhar junto a outros homens e mulheres, também ao longo das estradas mais escuras. Somente assim podem colocar-se em sintonia com aquilo que habita a sua imaginação e o seu coração para fazê-los arder.

O ponto crucial é que em muitos casos parece não existirem mais as forças para realizar esta passagem. Há tempo no meu blog houve muitas leituras da mensagem de um padre alemão, brilhante e apreciado, que decidiu deixar o ministério em paróquia e retirar-se a um mosteiro, após ter constatado que a comunidade cristã vivia como uma agência de serviços religiosos, sem que as pessoas empreendessem verdadeiros percursos de fé e conversão. Neste período, a arquidiocese de Chicago está procedendo a uma operação de agrupamento e fechamento de paróquias, como ocorre em tantas igrejas locais.

Há, depois, os não poucos padres que vivem formas de fadiga, mal-estar e frustração. Entre eles estão aqueles que na pastoral se mensuram pela perda de relevância da própria função e pela indiferença do povo, como também pelas próprias problemáticas pessoais. Alguns se encerram num espaço controlado e circunscrito, fazendo da paróquia um pequeno feudo ou fortim, uma só dimensão fechada e em escassas relações com o mundo externo. Entre aqueles que desenvolvem o seu ministério com dedicação e autêntico espírito de serviço, humildade e atenção às pessoas segundo o Evangelho, há quem tem dotes pastorais e sabe criar comunidade, anima paróquias vivazes, cálidas, mas se mensura, de outro lado, através de um limite sempre mais evidente. Quando se chega ao ponto de dar um passo de saída, as energias e o tempo não bastam.

Conheço párocos realmente valiosos que quereriam ir às casas e aos lugares de convivência, iniciar novas relações com quem está longe ou no limiar, os quais têm intuições preciosas, mas não conseguem concretizá-las porque a gestão das atividades tradicionais das nossas paróquias absorve completamente tanto eles próprios como os leigos que estão dispostos a empenhar-se.

A atual tendência a aumentar as unidades ou comunidades pastorais (ou outras denominações) segue o mais das vezes uma lógica de agregação somatória ditada pela necessidade de obviar à escassez de padres, sem que haja uma verdadeira e própria projetividade subjacente.

Tudo isso não faz senão alimentar uma mentalidade para a qual a única via possível parece ser aquela da gestão do existente, renunciando aos poucos àquilo que não é mais sustentável. Isso afeta famílias e ordens religiosas. É um modo de pensar inevitável, enquanto se permanecer apenas, com algum ajustamento, dentro do modelo de paróquia que tem sido herdado da estação pós-tridentina e de uma sociedade substancialmente rural, cujo contexto sociocultural era aquele da cristandade. Essas paróquias eram pequenos universos autossuficientes nos quais a pessoa era acompanhada por ritos, práticas e devoções desde o berço até a tumba. Hoje já não é possível que seja assim, porque as pessoas não aderem mais espontaneamente a esta modalidade invasiva de vida cristã e transitam em contextos muito diversificados.

Penso, então – falei sobre isso também recentemente ao Conselho Pastoral da Diocese de Piacenza-Bobbio – num território onde diversas paróquias vivem uma pastoral integrada naquilo que diz respeito às atividades ordinárias de catequese, liturgia e sacramentos. Nem todos fazem tudo; cada um por sua conta, mas cada um carrega a sua parte numa comunhão de comunidade onde se raciocina e se percebe conjuntamente.

Mas, penso também em formas novas e diversas de comunidades cristãs, como de resto a exortação Evangelii gaudium convida a imaginar e experimentar. As pessoas necessitam de uma proposta de fé e de vida que fala a eles e à sua situação existencial, sobretudo quando vivem em condições e momentos particulares. Pretendo prospectar, numa diocese ou em parte dela, comunidades extraterritoriais nas quais a gente se dedique a acolher, encontrar, escutar e acompanhar pessoas que vivem em condições que não são interpeladas pelas paróquias, assim como as conhecemos habitualmente, e que não teriam a possibilidade de lhes dedicar atenções particulares.

Seriam, em suma, espaços de primeiro anúncio. Por analogia, o modelo poderiam ser as capelanias para os estrangeiros nas grandes cidades. Depois, em cada contexto local, seria preciso ler os sinais dos tempos para individuar as pessoas às quais se deveria endereçar um olhar privilegiado (jovens, casais, desempregados, enfermos, anciãos solitários...). Isto não é uma solução, mas uma hipótese a estudar. No entanto, corresponderia a uma igreja que entra nos caminhos das mulheres e dos homens de hoje e com eles compartilha, como fez o próprio Jesus com os discípulos de Emaús.

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