Frades dominicanos, por ocasião dos 800 anos, olham para o futuro observando o passado

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06 Junho 2016

O 800º aniversário da Ordem Dominicana é uma oportunidade para que ela “volte às suas raízes” e não para se autoglorificar. É uma oportunidade para celebrar com “humildade e verdade”, diz o mestre geral da Ordem dos Pregadores, o Frei Bruno Cadoré.

A entrevista é de Edward Pentin, publicada por National Catholic Register, 31-05-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Nesta entrevista exclusiva ao National Catholic Register concedida em Roma, o 87º grão-mestre da Ordem dos Pregadores discute o atual estado da ordem religiosa, os desafios de hoje e eventos jubilares.

Eleito no capítulo geral da ordem em Roma no ano de 2010, Frei Cadoré nasceu em Le Creusot, França, em 1954. Atuou como médico antes de entrar para o noviciado dominicano em 1979. É grão-chanceler ex-officio da Pontifícia Universidade de São Tomás de Aquino, o Angelicum, possui doutorado em Teologia Moral e é especialista em Bioética.

Confira a entrevista.

Qual a importância deste aniversário para a Ordem Dominicana?

Como sempre acontece numa celebração jubilar, o significado primeiro é dar graças ao Senhor pelos 800 anos, pela confiança que nos foi dada por ele e pelos inúmeros irmãos e irmãs que doaram suas vidas durante todos estes séculos.

Um jubileu é sempre significativo por dois motivos: primeiramente, para olhar para as nossas raízes e história e reconhecer a graça do Senhor ao longo desses anos, e em como o Senhor tem tentado nos ajudar a tirar o melhor desta tradição. O melhor a se fazer é abordar este momento com realismo e humildade porque, ao longo de oito séculos, teve-se tempo para fazer coisas muito bonitas e para experimentar algumas falhas também. Assim, desse ponto de vista, e vendo hoje a nossa história, este momento é também uma boa oportunidade para nos fortalecermos, para olharmos para o futuro e para o mundo, a fim de entender, através desta experiência, como se pode servir o mundo e a Igreja hoje.

Gostamos de pensar num pássaro mítico presente na cultura africana, o “sankofa”, que olha para trás, olha de onde está vindo, e para frente, para onde está se dirigindo no futuro. Portanto, para a ordem, viemos um bom momento para fazer isso. É um bom tempo para praticarmos a humildade, olhando para a verdade: O que nós fizemos, por que e com quem? Como compreendemos a missão que o Senhor nos tem confiado?

Este ano então significa um olhar para as tradições e a herança a fim de vislumbrar o futuro?

Sim, como os irmãos, os sacerdotes e leigos dominicanos pregam e tentam fazer do Evangelho a boa nova. Esta é a nossa missão: estar em diálogo com o mundo e, neste diálogo, tentar fazer conhecido o Evangelho como a boa nova, como alguém que está chegando para se dirigir a este mundo.

Antes o senhor disse que este Ano Jubilar irá celebrar os 800 anos da Nova Evangelização.

Sim, porque a evangelização é sempre nova, no sentido de que o mundo se transforma, a busca da verdade transforma e a história transforma as relações entre as pessoas, culturas e religiões. Então, em cada momento da história é preciso considerar este mundo como um mundo novo. E, para mim, a surpresa é que o mundo é sempre novo porque ele, o Senhor, está sempre criando o mundo de uma nova maneira. Portanto, evangelizar é sempre ter um olhar renovado sobre o mundo e, com isso, tentarmos nos permitir ser surpreendidos pela presença do Senhor neste mundo.

Qual o atual estado da sua ordem religiosa em termos de vocações? Onde ela mais cresce?

Temos 6 mil irmãos, assim como irmãs, freiras e irmãs enclausuradas; elas são, aproximadamente, 3 mil. Entre as irmãs apostólicas, partícipes da família dominicana, elas somam mais ou menos 25 mil. Leigos dominicanos, vivendo em fraternidades, são cerca de 120 mil, mais ou menos, e entre eles estão leigos/as, membros de institutos seculares e movimentos juvenis. Há ainda as fraternidades sacerdotais da ordem. Estes são os números, mas na Bíblia se diz que não importa tanto ter números.

Entre os 6 mil irmãos, 1 mil estão na formação inicial, o que é um belo sinal. Estes novos irmãos são jovens, isto é, têm menos de 30 anos de idade; eles estão indo para províncias no Velho Mundo. Temos novas vocações na Ásia, na Índia, no Paquistão, nas Filipinas, em Mianmar, na China, mas também temos novos irmãos nos Estados Unidos, na África e Europa. Portanto, felizes estamos em dar as boas-vindas a novos irmãos de todas as partes do mundo, não exatamente nos mesmos números, mas o movimento, o dinamismo, está presente em todos os lugares.

A ordem está presente em cerca de 100 países, e possuímos entre 40 e 45 províncias ou entidades. Na ordem, a célula da vida é a comunidade, e várias comunidades no mesmo país, na mesma região constituem uma província, e elas estão vinculadas, hoje, para construir a ordem.

Frequentemente ocorrem relatos de uma crise das vocações nos países europeus e na América do Norte. Isso faz parte da experiência dominicana de hoje?

Se entendermos por “crise” o chamado ao discernimento e à decisão, a acolhida de novas vocações sempre esteve em crise. Isto significa um chamado ao entendimento. O que temos de entender? Quando se trata de vocações, temos de acolher uma mensagem do Senhor.

A minha preocupação é sempre – e suponho que é a preocupação de todos os meus irmãos – entender: O que Ele quer nos dizer quando manifesta esta confiança em mandar um novo irmão a pregar aqui ou ali? O que estes novos membros estão trazendo para a ordem? Que tipo de cultura estão trazendo à ordem religiosa? O que tipo de habilidades sociais, que tipo de habilidades profissionais, que tipo de experiência para a Igreja eles estão trazendo?

Qual o senhor diria que é a maior contribuição da Ordem dos Pregadores ao longo destes oito séculos?

Espero que seja ter tentado ajudar as pessoas a compreender que o Senhor gostaria de ter um diálogo com humildade e ser amigo delas de diferentes maneiras – por meio da fraternidade, da presença pastoral, da pesquisa teológica –, tentando mostrar que o ser humano é capaz de entender algo a partir deste diálogo com o Senhor, esforçando-se, trabalhando em vista do reconhecimento dos direitos humanos, apoiando-os e promovendo-os.

Espero que a ordem tenha aberto esta pregação aos irmãos, às irmãs, aos sacerdotes, leigos e leigas, para que tentem construir uma família, dar testemunho da relação com o Senhor, ou do desejo de ter uma relação, uma relação com as pessoas. Portanto, espero que seja este o fruto da pregação dominicana.

Pregar é também central à ordem, evidentemente. Qual tem sido a maior contribuição da ordem a esse respeito?

Pregar é importante neste sentido: para receber a Palavra de Deus; para tentar viver com esta Palavra; para tentar entendê-la e compartilhá-la de muitas maneiras.

Obviamente, podemos falar sobre pregação na celebração eucarística, dando uma homilia, que é tipo uma pregação, uma espécie de pregação, mas também existe a pregação quando se está lecionando, ou quando se está fazendo silêncio, ou vivendo com os pobres e esquecidos.

A ordem surgiu numa época em que não se esperava que os homens de Deus permanecessem atrás dos muros de um claustro. Eles eram vistos como sendo mais apostólicos. Poder-se-ia dizer que esta visão está bastante de acordo com o chamado do Papa Francisco em ir às periferias, em estar com os que mais sofrem. Nesse sentido, o senhor vê este momento como uma oportunidade para um renascer da ordem, tendo em conta os múltiplos problemas que há na sociedade atual?

Gosto muito do jeito que o Papa Francisco tem falado sobre a pregação, a evangelização, que não está muito longe do que temos falado aqui. Ele tem falando mais e mais sobre isso, está chamando a Igreja a pôr em prática estas coisas – e ele próprio está indo às periferias. Quando olhamos para ele, vemos alguém que está tentando fazer o que diz, vemos alguém que acredita. Então, nesse sentido, temos algo novo, pelo menos na comunicação em torno da Igreja. 

Ao mesmo tempo, podemos dizer que o Papa Francisco está nos dizendo aquilo que Jesus nos falava no começo, quando declarou: “Vamos para outros lugares, às aldeias da redondeza”. Digo isso porque o modelo para a fundação [da ordem] é exatamente este: esta primeira comunidade de pregação sobre Jesus. Para São Domingos, Jesus foi o enviado a pregar; e então, quando fez isso, chamou algumas pessoas para fazê-lo junto dele, e assim se pôs a ir às aldeias e cidades da redondeza simplesmente proclamando a Boa Nova do Reino de Deus. São Domingos quis fazer apenas isto: reunir uma comunidade em torno dele e enviar esta comunidade, com ou sem ele, ao redor do mundo para fazer conhecida esta notícia: a de que o Reino do Senhor está chegando através de alguém que é a Boa Nova.

Assim, eu não diria que é um renascimento, mas um novo chamado à ordem, a sermos a ordem.

Uma volta às raízes?

Sim, e o jubileu é exatamente isso. E ao voltarmos às raízes, temos de nos perguntar e perguntar aos demais: Quais são estas outras localidades que temos de alcançar, estas outras pessoas com as quais temos de dialogar?

E isso é importante, porque o renascimento ou fortalecimento virá daí. Quando olhamos para as novas culturas de hoje, os novos modos de vida, daí então podemos imaginar que, para falar com estas pessoas, para termos um diálogo com elas, temos de mudar o nosso jeito de falar, de ensinar, de ser.

A cultura tecnocientífica mudou a maneira como você, eu – nós – estamos vivendo. Você tem um prolongamento de sua mente, de seu cérebro, e eu também; você tem um prolongamento na maneira de se comunicar. Nesse sentido, qual deve ser a forma de falarmos sobre o Evangelho? Como devemos falar sobre Alguém que se aproxima de nós sem quaisquer condições?

Ele gostaria de ser amigo de você sem impor quaisquer condições, mesmo se você não O aceitar. Ele simplesmente pede por sua hospitalidade. Portanto, temos de encontrar um jeito de partilhar estas coisas nesta época de secularização, o que não é fácil. Mas, ao mesmo tempo, temos de levar adiante esta tarefa neste momento da história humana, em que as religiões estão muito presentes e que a busca por religiosidade está também bastante presente. As necessidades espirituais se fazem muito presentes, mesmo se os nossos contemporâneos digam: “Não sou crente, só estou em busca de algo espiritual”.

Assim, precisamos considerar: Como devemos propor o diálogo que o Senhor gostaria de ter com cada uma das pessoas?

Quais eventos estão planejados para marcar este aniversário?

Não temos muitos eventos marcados, e isso ocorre por dois motivos: dizemos que este jubileu deve ser uma oportunidade de realizarmos um processo de humildade e verdade entre nós. Eis o que queremos fazer: não queremos glorificar a ordem. Eu gosto muito dela, e ela é uma ordem muito bonita, mas não é esse o objetivo. Então este é o primeiro motivo: humildade e verdade.

O segundo motivo é que, na ordem, nós gostamos da subsidiariedade. Dessa forma, cada província, de acordo com a sua cultura, história, força e recursos, irá organizar algo.

Para a ordem como um todo, tivemos uma celebração de abertura no começo de novembro, no dia de todos os santos da ordem, o que é importante, pois, quando o papa confirmou a ordem, disse ele que estava dando o ministério da pregação como um meio de santificação para os irmãos. Temos, portanto, de aprender como pregar com aqueles que são santos. E nós iniciamos isto propondo em nosso sítio eletrônico, pelo menos para todos os membros da ordem e amigos, uma “lectio divina” diária, assim diariamente cada membro da ordem e todos os demais podem tirar um momento para se voltar à Palavra de Deus. Isso, para mim, é um evento muito significativo e simples: pegar a Bíblia, lê-la, pensar a respeito e orar. Só isso.

Devemos também ter três grandes congressos: o primeiro foi em fevereiro, sobre a Palavra de Deus e a pregação, na ocasião do aniversário da Dei Verbum [constituição dogmática do Concílio Vaticano II sobre a revelação divina]. Um outro ocorrerá em setembro, em Salamanca, para recordar o “Processo de Salamanca”, quando os primeiros irmãos e São Domingos ajudaram a forjar o início dos direitos humanos. Portanto devemos fazer isto: tentar trabalhar juntos com os irmãos e irmãs para promover este tipo de experiência hoje.

Em seguida, no final do jubileu, esperamos que ele seja celebrado com uma missa cantada presidida pelo Santo Padre, se for possível da parte dele. Igualmente, no fim, devemos realizar um congresso centrado na missão da ordem em vista do futuro. No momento, estamos preparando este evento. Algumas questões relativas à nossa pregação, assunto que alguns grupos estão desenvolvendo, são questões relacionadas a paróquias, aos povos indígenas, às novas comunicações, sobre como podemos ser melhores na evangelização.

Quais desafios o senhor espera no futuro?

Não esquecer que temos de tentar seguir o exemplo de Jesus, o primeiro pregador. Isso significa não esquecer que há sempre novas cidades, novas culturas que temos de alcançar. Nunca esquecer também de que sempre existem pessoas que não têm voz nem vez neste mundo; e nunca esquecer, quando se está preocupado com assuntos religiosos, que a tentação é se fechar sobre si, acreditando ser o centro do mundo. Como sabemos, o centro do mundo é alguém mais.

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