Sexo é política. Artigo de Slavoj Žižek

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01 Junho 2016

A multiplicidade das posições de gênero (masculino, feminino, gay, bigender, transgênero e assim por diante) gira em torno de um antagonismo que nos escapa constantemente. Os gays são masculinos; as lésbicas, femininas; os transexuais praticam a transição de um para o outro; o travestismo combina as duas coisas; o bigender flutua entre um e outro: como quer que o coloquemos, o "dois" está à espreita.

A opinião é do escritor e filósofo esloveno Slavoj Žižek, em artigo publicado na revista Internazionale, n. 1.155, 27-05-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Nas redes sociais palestinas, está em curso uma luta completamente ignorada pelo Ocidente. No centro, estão dois personagens famosos, Mohammed Assaf e Tamer Nafar. Assaf é um cantor pop de Gaza, incrivelmente popular não apenas entre os palestinos, mas também em todo o mundo árabe e até mesmo em algumas partes da Europa, apoiado em Gaza pelo Hamas e pela Autoridade Palestina, que o nomeou embaixador cultural da Palestina. Ele canta, com uma esplêndida voz terna, canções patrióticas e de amor arranjadas em estilo pop. Politicamente, é uma figura unificadora, para além das divisões políticas, exceto pelo seu apoio à liberdade palestina.

Em março de 2016, Assaf declarou em uma entrevista que, por respeito à tradição, não permitiria que a sua irmã cantasse em público. Tamer Nafar, o artista rap palestino que é coautor e principal ator do filme Junction 48, de Udi Aloni, respondeu a Assaf com esta tocante carta aberta:

"Se qualquer outro artista pop dissesse: 'De acordo com a nossa tradição, as mulheres não são permitidas de cantar, e, em nível pessoal, eu valorizo essas tradições, por isso, não posso permitir que minha irmã cante', eu protestaria. Mas, como quem disse essas palavras foi Assaf, a nossa Cinderela de Gaza, eu estou com raiva, mas, principalmente, me sinto ferido. Assim como os palestinos que se uniram nas ruas de Gaza, na Cisjordânia, na diáspora, nos campos de refugiados e nos territórios de 1948 (isto é, Israel) para apoiar Muhammad Assaf, pedimos que Assaf se una a nós nas mesmas ruas para encorajar as jovens do Iêmen, de Gaza, do Marrocos, da Jordânia e de Lod, aquelas jovens que sonham em cantar, dançar, escrever e se exibir no programa Arab Idol.

Como palestinos, devemos combater o apartheid israelense e o apartheid de gênero. O meu sonho é marchar de mãos dadas, uma mulher segurando a mão de um homem contra todos os muros de separação. Não é razoável caminhar separadamente e, ao mesmo tempo, pedir a unidade. Você quer falar de tradições? Antigamente, eu era um garoto com raiva nos guetos de Lod. Eu não conseguia me acalmar enquanto minha mãe não cantasse uma canção de Fairuz. Essa é a tradição que eu quero conservar ciosamente! Por isso, minhas caras irmãs árabes, cantem o mais forte possível, despedacem as fronteiras para nos fazer acalmar. Liberdade para todos ou liberdade para ninguém".

O filme de Aloni aborda a difícil situação dos jovens "palestinos israelenses" (palestinos de famílias que permaneceram em Israel depois da guerra de 1948), cuja vida cotidiana é uma luta contínua em dois frontes: contra a opressão do Estado israelense e contra a pressão fundamentalista dentro da sua própria comunidade.

Nas suas canções, Nafar assume como alvo a tradição do "crime de honra", do qual são vítimas as jovens das famílias palestinas e, por isso, é criticado também pela esquerda ocidental.

Durante uma recente visita aos EUA, aconteceu-lhe uma coisa estranha. Depois que ter cantado a sua canção contra os crimes de honra no câmpus da Columbia University, de Nova York, alguns estudantes antissionistas o atacaram por ter levantado a questão, acusando-o de promover a visão sionista dos palestinos como seres bárbaros e primitivos (acrescentando que, se realmente existem crimes de honra, a responsabilidade é de Israel, porque a ocupação obriga os palestinos a viverem em condições bárbaras e impede a sua modernização).

Esta foi a nobre réplica de Nafar: "Quando vocês me criticam, você criticam a minha comunidade em inglês para impressionar os seus professores de esquerda. Eu canto em árabe para proteger as mulheres do meu bairro".

A tese de Nafar é que os palestinos não precisam da ajuda paternalista da esquerda ocidental, muito menos do silêncio sobre os crimes de honra como sinal de "respeito" pelo estilo de vida palestina.

Esses dois aspectos – a imposição de valores ocidentais, como os direitos humanos e o respeito pelas culturas diversas, independentemente dos seus horrores – são dois lados da mesma mistificação ideológica. Muito tem sido escrito sobre como a universalidade dos direitos humanos universais é distorcida e sobre como é dada preferência implicitamente aos valores e às normas culturais ocidentais (a prioridade do indivíduo sobre a sua comunidade, e assim por diante).

Mas devemos ter em mente que a defesa da diversidade anticolonialista e multiculturalista da multiplicidade dos estilos de vida também é falsa: ela esconde os antagonismos dentro de cada um desses estilos de vida particulares, justificando atos de brutalidade, sexismo e racismo como expressões de uma cultura específica que não teríamos o direito de julgar de acordo com valores estrangeiros.

Essa polêmica entre Assaf e Nafar se enquadra em uma grande luta pela diferença sexual que faz com que o velho lema de 1968 assuma uma nova conotação: sexo é política. Décadas atrás, o aiatolá Khomeini escreveu: "Nós não temos medo das sanções. Não temos medo de uma invasão militar. O que nos assusta é a invasão da imoralidade ocidental". O medo de que Khomeini fala, a descrição daquilo que um muçulmano deveria temer a mais no Ocidente, deveria ser tomada literalmente: os fundamentalistas muçulmanos não se preocupam com a brutalidade das lutas econômicas e militares, os seus verdadeiros inimigos não são o neocolonialismo econômico e a agressividade e militar do Ocidente, mas sim a sua cultura "imoral".

O mesmo vale para a Rússia de Putin, onde os nacionalistas conservadores definem como "cultural" o seu conflito com o Ocidente, centrado, na verdade, na diferença sexual: a propósito da vitória da drag queen austríaca Conchita Wurst no Eurofestival de 2014, o próprio Putin disse durante um jantar em São Petersburgo: "A Bíblia fala de dois gêneros, homem e mulher, e o principal objetivo da sua união é gerar filhos".

Como de costume, o fanático nacionalista Žirinovskij foi mais explícito e definiu o resultado da competição como "o fim da Europa", acrescentando: "Não há limite para a nossa indignação. Não há mais homens ou mulheres na Europa, esse é o ponto". O vice-primeiro-ministro, Dmitry Rogozin, tuitou que o resultado do Eurofestival "mostra aos defensores da integração europeia o futuro europeu: uma mulher barbada".

Há uma certa beleza misteriosa e quase poética nessa imagem da mulher barbada (que, por muito tempo, foi um clássico fenômeno de circo) como símbolo da Europa unida: não surpreende que a Rússia tenha se recusado a transmitir o Eurofestival aos seus telespectadores, com apelos a uma nova guerra fria cultural. Note-se que estamos diante da mesma lógica de Khomeini: não são os exércitos ou os danos econômicos; aquilo que realmente se teme é a depravação moral, a ameaça à diferença sexual.

Em muitos países africanos e asiáticos, a homossexualidade também é percebida como uma consequência cultural da globalização capitalista e uma perturbação das formas sociais e culturais da tradição, de modo que a luta contra os gays parece ser um aspecto da luta anticolonial.

Talvez não é a mesma coisa para o Boko Haram? Para os seus expoentes, a libertação das mulheres parece ser a característica mais evidente do impacto cultural destrutivo da modernização capitalista, tanto que o Boko Haram (cujo nome é aproximadamente traduzido como "a educação ocidental é proibida", em particular a educação das mulheres) pode se apresentar como uma força que combate o impacto destrutivo da modernização impondo uma regulamentação hierárquica das relações entre os sexos.

Portanto, eis o enigma: por que os muçulmanos, que, sem dúvida, foram submetidos à exploração, à dominação e a outros aspectos destrutivos e humilhantes do colonialismo, como única resposta põem na mira aquela que (ao menos aos nossos olhos) é a melhor parte do legado ocidental, ou seja, o igualitarismo e as liberdades pessoais, incluindo uma boa dose de ironia e o escárnio de toda autoridade?

A resposta óbvia é que o seu alvo é bem escolhido. O que para eles torna o Ocidente tão insuportável não é apenas que ele pratica a exploração e a dominação violenta, mas que, somando as zombarias ao dano, ele apresenta essas realidades brutais vendendo-as pelo seu oposto: liberdade, igualdade e democracia.

O Boko Haram se limitou a levar ao extremo a lógica extrema da diferença sexual normativa. O conceito de diferença sexual, que atribui papéis específicos aos dois sexos, impõe uma norma simbólica que chega até a segregação urinária. O paradoxo é que as portas dos banheiros separados por gênero, hoje, estão no centro de uma batalha legal e ideológica, principalmente nos Estados Unidos.

No dia 29 de março de 2016, um grupo de 80 executivos, provenientes principalmente do Vale do Silício e capitaneados por dois diretores executivos, Mark Zuckerberg, do Facebook, e Tim Cook, da Apple, assinaram uma carta ao governador da Carolina do Norte, Pat McCrory, para denunciar uma lei que obriga os transgêneros a usarem os banheiros públicos com base no sexo registrado de nascimento, em vez da identidade de gênero.

Um transgênero deveria mudar legalmente o sexo na certidão de nascimento para usar os serviços do gênero em que se identifica. "Estamos desapontados com a sua decisão de assinar essa norma discriminatória, tornando-a lei", diz a carta. "A comunidade empresarial, como um todo, informou coerentemente os legisladores de todos os níveis que normas semelhantes são negativas para os nossos empregados e para as empresas."

Por isso, a posição do grande capital é clara. Tim Cook pode facilmente se esquecer das centenas de milhares de trabalhadores da Foxconn na China, que montam os produtos da Apple em condições de quase escravidão. Ele fez o seu belo gesto de solidariedade com os mais desfavorecidos, pedindo a abolição da segregação de gênero. Como muitas vezes acontece, a grande empresa desposou orgulhosamente a teoria do politicamente correto.

O transexualismo diz respeito aos indivíduos que vivem uma contradição entre a sua identidade de gênero ou expressão de gênero e o sexo de nascimento. Portanto, é um termo geral, porque, além de incluir homens trans e mulheres trans que se identificam com o sexo oposto ao do nascimento (especificamente chamados de transexuais, se quiserem assistência médica para a transição), pode incluir pessoas genderqueer (cujas identidades de gênero não são exclusivamente masculinas ou femininas, e que podem ser, por exemplo, bigender, pangender, genderluid ou agender).

Genderqueer, também chamado de gênero não binário, pode se referir a uma ou mais das seguintes definições: ter uma sobreposição de identidades de gênero ou fronteiras indefinidas entre os gêneros; ter dois ou mais gêneros (ser bigender, trigender ou pangender); não ter gênero (ser agender, nongendered, genderless, genderfree ou neutrois); mover-se entre os gêneros ou ter um identidade de gênero luida (genderluid); ou ser third gender ou other gendered, uma categoria que abrange aqueles que não dão um nome ao próprio gênero.

A visão das relações sociais na base do transexualismo é o chamado postgenderism, um movimento social, político e cultural que defende a eliminação voluntária do gênero na espécie humana através da aplicação de biotecnologias avançadas e tecnologias de reprodução assistida.

Os defensores do transexualismo afirmam que os papéis de gênero, a estratificação social e as desigualdades e as diferenças físicas e cognitivas em geral prejudicam os indivíduos e a sociedade. Dado o grande potencial das modernas técnicas de reprodução assistida, os post gender consideram que o sexo para fins reprodutivos vai se tornar obsoleto, e que cada ser humano será capaz de decidir indiferentemente se quer ser pai ou mãe, e isso, acreditam, tornará irrelevantes os gêneros definidos.

A primeira coisa a observar a esse respeito é que o transgenerismo anda de mãos dadas com a atual tendência da ideologia predominante de refutar toda pertença particular e de celebrar a fluidez de qualquer identidade. O economista e sociólogo francês Frédéric Lordon recentemente atacou a esquerda antinacionalista, liquidando as suas alegações como "grotescas pretensões dos burgueses" por uma "libertação da pertença, sem admitir como eles mesmos se beneficiam com a sua pertença".

Lordon contrapõe essa pertença oculta à "realidade da falta de um estado, o pesadelo da absoluta não inclusão daqueles que sobrevivem como um clandestino sem direitos, lutando, de fato, pela cidadania, pela pertença. Renegar os afetos nacionais no território europeu permitindo-os aos subalternos, romanticamente e com condescendência, é pura hipocrisia. Nunca somos totalmente livres da pertença nacional: tornamo-nos propriedade de uma nação desde o nosso primeiro dia".

Lordon, aqui, põe na mira Habermas e Ulrich Beck pelo seu universalismo sem vida: hoje, na Europa, o apelo nacionalista e populista à soberania em resposta ao seu confisco financeiro "sinaliza a urgência de repensar o estado nacional em relação à emancipação coletiva".

Nisso Lordon tem razão: é fácil observar como as elites intelectuais "cosmopolitas" desprezam os habitantes apegados às suas raízes, mas pertencem a ambientes quase exclusivos de elites sem raízes, e a sua cosmopolita falta de raízes é o sinal de uma forte e profunda pertença.

Precisamente por isso, é indecente colocar no mesmo plano elites nômades que voam pelo mundo e refugiados desesperados em busca de um lugar seguro para pertencer, assim como colocar no mesmo plano uma mulher ocidental rica de dieta e uma refugiada que morre de fome.

Além disso, aqui encontramos um velho paradoxo: quanto mais somos marginalizados e excluídos, mais podemos afirmar a própria identidade étnica. O panorama do politicamente correto está estruturado assim: os indivíduos distantes do mundo ocidental podem reivindicar a própria identidade étnica sem serem definidos como identitários e racistas (os nativos americanos, os negros etc.). Quanto mais nos aproximamos dos homens heterossexuais brancos, mais essa reivindicação se torna problemática: os asiáticos ainda vão bem, italianos e irlandeses talvez, com alemães e escandinavos já é um problema.

No entanto, essa proibição aos homens brancos de reivindicar uma identidade particular (porque forneceria um modelo de opressão dos outros), mesmo que se apresente como a admissão da sua culpabilidade, de fato, lhes confere uma posição central: a mesma proibição de afirmar a própria identidade particular os transforma no ponto médio neutro universal, o lugar a partir do qual a verdade da opressão dos outros é acessível.

O desequilíbrio também pesa na direção contrária: os países europeus empobrecidos esperam que os países avançados da Europa ocidental suportem todo o peso da abertura multicultural, enquanto eles podem se dar ao luxo do patriotismo.

É fácil captar uma tensão semelhante no transgenerismo. Os sujeitos transgênero parecem ser transgressivos porque desafiam toda proibição, mas, ao mesmo tempo, têm comportamentos hiperemotivos, sentem-se oprimidos pela escolha forçada ("por que eu deveria decidir se sou homem ou mulher?") e precisam de um lugar onde possam se reconhecer plenamente.

Se eles insistem com tanto orgulho no seu ser "trans", para além de toda classificação, por que fazem um pedido tão premente de ter um lugar apropriado? Por que, quando se encontram diante de banheiros separados por gênero, não agem com heroica indiferença? Eles poderiam dizer: "Eu sou transgênero, um pouco disto e um pouco daquilo, um homem vestido de mulher, por isso posso escolher muito bem o banheiro que quiser".

Além disso, os heterossexuais "normais", talvez, não teriam um problema semelhante? Não acham difícil, talvez, muitas vezes, se reconhecer em identidades sexuais pré-definidas? Pode-se até argumentar que homem (ou mulher) não é uma identidade certa, mas sim um certo modo de evitar uma identidade.

Podemos prever com segurança que virão novos pedidos antidiscriminatórios: por que não casamentos entre várias pessoas? O que justifica o limite imposto pelo casamento binário? Por que não até um casamento com animais? Afinal de contas, já sabemos como os animais são sensíveis. Excluí-los do casamento não coloca a espécie humana em uma posição de privilégio injusto?

Existe uma solução para esse impasse: é a que se usa no campo da coleta seletiva do lixo. As lixeiras hoje estão agora cada vez mais diferenciadas: para o papel, o vidro, as latas, o papelão, o plástico. E já aqui as coisas às vezes se complicam: se eu tiver que me desfazer de um saco de papel ou de um caderno com uma minúscula faixa de plástico, qual é o lugar certo, o papel ou as embalagens?

Não é de se admirar se, às vezes, nas lixeiras, encontramos instruções detalhadas sob a indicação geral "papel": livros, jornais etc., mas não livros com capa dura ou livros com capa de plástico. Nesses casos, eliminar os resíduos corretamente requer até meia hora de atenta leitura e decisões espinhosas.

Para facilitar as coisas, existe mais uma lixeira para o lixo indiferenciado, onde jogamos tudo aquilo que não satisfaz os critérios específicos das outras lixeiras, como se, mais uma vez, existisse uma imundície como tal, a imundície universal.

Não deveríamos fazer o mesmo com os banheiros públicos? Uma vez que nenhuma classificação pode satisfazer todas as identidades, não se deveria acrescentar aos gêneros habituais (dois, três ou quantos forem) uma porta para o "gênero geral"?

Esse fracasso de toda classificação que busca ser exaustiva não se deve à abundância empírica de identidades que desafiam a classificação, mas, ao contrário, à persistência da diferença sexual como real, impossível de categorizar e, ao mesmo tempo, inevitável.

A multiplicidade das posições de gênero (masculino, feminino, gay, bigender, transgênero e assim por diante) gira em torno de um antagonismo que nos escapa constantemente. Os gays são masculinos; as lésbicas, femininas; os transexuais praticam a transição de um para o outro; o travestismo combina as duas coisas; o bigender flutua entre um e outro: como quer que o coloquemos, o "dois" está à espreita.

Portanto, é crucial reconhecer a oposição que, hoje, está se delineando: por um lado, a violenta imposição de uma forma simbólica elevada de diferença sexual como gesto fundamental para combater a desintegração social; por outro, a total fluidificação dos gêneros, a dispersão da diferença sexual em configurações múltiplas. Enquanto em uma parte do mundo os abortos e os casamentos gays recebem apoio como um claro sinal de progresso moral, em outras regiões, propagam-se a homofobia e as campanhas contra o aborto.

O grande erro ao abordar essa oposição é buscar a medida certa entre os dois extremos. O que se deveria fazer, em vez disso, é evidenciar o que os dois extremos têm em comum: um mundo pacífico, onde a tensão polêmica da diferença sexual desaparece ou em uma clara e estável distinção hierárquica dos sexos ou na alegre fluidez de um universo dessexualizado.

E não é difícil distinguir nessa fantasia de um mundo pacífico a fantasia de uma sociedade sem antagonismos sociais. Em poucas palavras, sem luta de classes.

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