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31 Maio 2016

Oito meses depois, Abdullah Kurdi é um condenado à vida com um último desejo que ninguém escutou. “As crianças prófugas continuam afogando a cada dia, a guerra na Síria não foi encerrada. Vejo Estados que constroem muros e outros que não nos querem acolher. O meu Alan morreu por nada, pouca coisa mudou”. 

O seu Alan. Um corpinho com a camiseta rosa e os sapatos azuis que as ondas acomodaram piedosamente sobre a praia de Bodrum após o naufrágio. Era o mês de setembro passado, e por algumas semanas a foto tirada por uma repórter turca foi a pedra na consciência da Europa. A bordo do bote inflável que se dirigia à ilha grega de Kos estavam doze. Estava Abdullah, sírio em fuga de Kobane. Estava sua esposa Rehan. Estava Alan, de três anos, e o outro filhinho Galip, de cinco anos. Perdeu-os todos. Ele sobreviveu. 

Fonte: BBC Brasil

A entrevista com Abdullah Kurdi é de Fabio Tonacci, publicada por Repubblica, 30-05-2016. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis a entrevista.

O que recorda daqueles dias?

Tenho as recordações enevoadas, como se tivesse estado bêbado. Eu era assediado pela mídia de todo o mundo, dava uma entrevista após a outra. O clamor me impedia de dar-me conta que eu não tinha mais a minha família. Os meus filhos, que eram maravilhosos... escaparam-me das mãos, quando caímos na água. Eu peço que o chamem de Alan e não Aylan, como às vezes escrevem os jornalistas. Amo-os muito.

Os traficantes de homens condenados pela polícia turca por aquele naufrágio, Muwafaka Alabash e Asem Alfrhad, o acusaram de fazer parte da rede dos barqueiros clandestinos. 

Mas que barqueiro colocaria a própria família num bote inflável entre os desesperados? Um barqueiro tem o dinheiro e o conhecimento para pegar um barco a motor e fazer com que viajem com dignidade e segurança os seus filhos. Esta acusação é uma ofensa à inteligência de quem a escuta.

Sepultou sua mulher e os seus filhos em Kobane. Ainda vive perto deles?

Não, estou em Erbil, no Kurdistão iraquenho. Estive em Kobane por um mês após o funeral, mas faltava tudo, a cidade estava destruída e eu estava só. De um dia ao outro, depois, desapareceram todos. Não aguentava mais, estava para perder a cabeça e o coração me fazia mal pelo muito que eu sofria. 

Ninguém lhe ajudou?

Nem as organizações internacionais, nem aquelas sírias ou curdo-sírias. A solidariedade se havia dissolvido, com exceção do ex-premiê turco Davutoglu, que me deu 5.000 dólares. Por sorte me chegou o telefonema do premiê do Kurdistão iraquenho Nechirvan Barzani, que me convidou para ir a Erbil, onde me comprou uma casa. 

Após a tragédia, na entrevista com Repubblica, você esperava que o sacrifício de Alan e de Galip mudasse a conduta dos governos europeus ante a questão dos prófugos. Hoje, o que pensa?

Momentaneamente parecia que a foto de Alan tivesse movido algo nos ânimos da opinião pública ocidental e nas áreas da política. Ao meu filho foram intituladas escolas e campanhas, e isto me deu prazer porque pode ajudar a estimular a empatia do povo e a não esquecer a minha família. Mas, as notícias de novos naufrágios, de muros levantados ao longo da via balcânica, das polêmicas entre os governos, me dizem que na realidade, além da reação emotiva do momento, pouca coisa mudou. 

Na Europa partidos xenófobos estão ganhando terreno, e em Bruxelas os membros da UE têm dificuldade em distribuir com equanimidade a acolhida dos migrantes. Qual é a sua mensagem para as instituições? 

Aos governos e às pessoas apavoradas pela chegada de tanta gente eu gostaria de dizer que não é mais aceitável moralmente fechar as portas na cara de quem foge da morte e da humilhação. Quem se mete num bote inflável tem alternativas, acreditem.

Como julga o comportamento do governo turco ante os refugiados sírios?

Sou grato à Turquia, porque deu aos meus co-nacionais muitas permissões de trabalho e permitiu a tantos adquirirem a cidadania. 

O que faz agora?

Barzani me prometeu que abrirá uma fundação humanitária para assistência às crianças fazendo memória de Alan, e nela também eu trabalharei. Quer ser a mão estendida aos mais pequeninos, para acolher a quem tem necessidade e dar-lhes a possibilidade de não terem medo e de não mais terem fome. E de recomeçarem a brincar.

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