"Nós, os órfãos da utopia." Entrevista com Ágnes Heller

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27 Maio 2016

A distopia não é apenas o lado escuro da utopia, o seu oposto e inverso. É um modo radicalmente diferente de imaginar o futuro. E, no ser humano, a imaginação é muito, às vezes é até tudo. Palavra de Ágnes Heller, uma pensadora que, do fracasso das utopias do século XX, foi testemunha direta e que agora registra, com uma inflexível inteligência, o avanço das distopias.

A reportagem é de Alessandro Zaccuri, publicada no jornal Avvenire, 26-05-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Visões sombrias do futuro que não têm mais nada a ver com a categoria do progresso – explica – e se limitam a fornecer uma imagem agigantada do nosso presente. Pense em Submissão, de Michel Houellebecq, por exemplo."

Nascida em Budapeste, em 1929, depois de ter sobrevivido à Shoá, Ágnes Heller foi uma aluna e colaboradora de György Lukács, atravessou os entusiasmos e as desilusões do socialismo húngaro, foi primeiro marginalizada na pátria e, depois, aclamada no exterior, em particular nos Estados Unidos, onde ensinou por muito tempo. Hoje, ela é conhecida pelas posições muito críticas em relação ao seu país de origem, no qual voltou a residir por uma parte do ano.

Ela escreveu muito (entre os seus textos capitais, lembramos Oltre la giustizia [Além da justiça], no catálogo da editora Il Mulino) e continua a escrever e a publicar muito. À relação entre utopia e distopia, é dedicado o livro Il vento e il vortice [O vento e o vórtice], realizado em colaboração com Riccardo Mazzeo e editado pela editora Erickson (152 páginas).

"O ponto central é sempre a mesmo", insiste a autora: "O século XXI não acredita mais no ideal de progresso. Basta considerar os romances publicados nas últimas décadas para perceber isso."

Eis a entrevista.

A utopia é um luxo que não podemos mais nos permitir?

Do ponto de vista histórico, a utopia se manifesta principalmente como celebração de um passado perdido, de uma idade de ouro ou de um jardim do Éden ao qual se deseja retornar. Em seguida, entra em cena um elemento, cada vez mais evidente, de investimento no futuro. Afirma-se a esperança de que o mundo está destinado a melhorar cada vez mais. No momento em que essa confiança no progresso desaparece, como já aconteceu, a utopia não está mais na ordem do dia. No seu lugar, entra a distopia, que, porém, não expressa nenhum projeto original para o futuro. Em essência, é um aviso que amplifica alguns aspectos do presente na tentativa de nos alertar. Escritores como Ray Bradbury, Margaret Atwood, Kazuo Ishiguro e Cormac McCarthy parecem nos dizer: fiquem atentos, este poderia ser o futuro.

Qual o papel da referência à tradição bíblica?

Para responder, é preciso refletir, ao menos por um momento, sobre a natureza da imaginação, essa extraordinária faculdade mental que deriva da fusão entre razão e emoção. Cada momento do nosso dia é marcado pela presença da imaginação, também do ponto de vista psicológico, mas essa faculdade é até mais decisiva quando se trata de inovar: de imaginar, justamente, um futuro que seja diferente do presente. Essa dimensão criativa da imaginação, característica em particular da arte, é determinante para a formação das utopias e encontrou expressão em muitas páginas da Bíblia.

Pessoalmente, acho muito convincente a tese do egiptólogo Jan Assmann, que reconhece no Livro do Êxodo uma das pedras angulares da utopia de todos os tempos. Através da promessa recebida por Moisés, o povo de Israel consegue conceber a libertação da escravidão e o advento de um mundo completamente novo. Assim, ocorre a mudança de escala no percurso imaginativo que terá consequências enormes para toda a humanidade.

Isso significa que, na utopia, está sempre um componente religioso?

Eu não colocaria nesses termos. Mesmo quando assumiu um perfil religioso, a utopia sempre conservou uma perspectiva secular. As expectativas nunca se projetaram simplesmente para fora do mundo sensível, mas sempre contemplaram a possibilidade de modificar concretamente a realidade em que vivemos. A partir desse ponto de vista, há uma forte continuidade entre utopia e distopia, por mais que esta última acabe extrapolando e invertendo os elementos de crítica social já presentes na própria utopia. A diferença, no fundo, é bastante clara: a utopia parte das feiúras do presente para imaginar um futuro melhor; a distopia nos obriga a nos deparar com um futuro no qual as feiúras do presente são levadas às últimas consequências.

Não há nisso uma semelhança com a manipulação do medo típico dos populismos contemporâneos?

O medo é um dos fatores que estão na base da imaginação utópica e distópica. O outro é a esperança, e talvez seja nessa frente que se deveria vigiar mais. A manipulação da esperança pode ter resultados terríveis, como nos ensina o caso dos totalitarismos. Para ficar no âmbito italiano, o fascismo originalmente obteve consenso difundindo a esperança de reafirmação e resgate nacional. Para se reforçar, porém, o regime deve recorrer ao instrumento do medo, que dificilmente fracassa. Indicar um inimigo, interno ou externo, e fazer crescer o medo na população. Quanto maior é o medo, maior é o poder. Na minha opinião, isso é o que está acontecendo na Hungria também.

Hoje, as sociedades ocidentais parecem confiar mais nos valores individuais do que nas virtudes públicas: é suficiente?

A ética moderna se baseia em uma dupla demanda dirigida a cada um de nós: ser uma boa pessoa e ser um bom cidadão. Dois pilares de igual importância, que se sustentam reciprocamente. É totalmente ilusório pensar que, se um dos dois desmoronasse, o nosso mundo poderia se sustentar igualmente. Ao contrário, a cooperação entre valores privados e virtudes públicas é hoje cada mais necessária do que nunca, se realmente quisermos evitar que o futuro se assemelhe aos pesadelos da distopia.

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