“É um escândalo que na Argentina não apóiem o Papa Francisco”. Entrevista com Marcelo Sánchez Sorondo

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Por: André | 25 Mai 2016

“É um escândalo que não apóiem o Papa. Sinto que na Argentina as coisas sempre são interpretadas de um modo provinciano. Há uma espécie de egocentrismo pelo qual se vê a árvore, mas não a montanha. É uma falta de horizonte que realmente é espantosa”. Estas são definições do arcebispo argentino Marcelo Sánchez Sorondo (foto), chanceler da Pontifícia Academia de Ciências e de Ciências Sociais, que vive em Roma desde 1971.

 
Fonte: http://bit.ly/1TKEGLH  

Em uma entrevista concedida ao La Nación, Sánchez Sorondo, de 73 anos, não ocultou sua amargura com as críticas que colheu em alguns setores da Argentina a “Cúpula de juízes sobre o tráfico de pessoas e o crime organizado”, que ele organizou e que acontecerá nos dias 03 e 04 de junho no Vaticano.

Da reunião, que acontecerá na Casina Pio IV – sede da Academia de Ciências Sociais –, participarão cerca de 20 juízes e promotores argentinos, junto com uma centena de colegas de muitos países. Participarão, entre outros, o presidente da Suprema Corte de Justiça, Ricardo Lorenzetti, e os juízes federais Sebastián Casanello, Julián Ercolini, María Romilda Servini de Cubría e Ariel Oscar Lijo.

“Convidamos juízes do mundo inteiro, como desejo do Papa de empoderá-los para que tomem cabal consciência de sua missão frente aos desafios da globalização da indiferença”, destacou Sánchez Sorondo.

“O que é curioso é que alguém, de alguma maneira próximo ao Governo, esteja criticando o Papa por uma ação na qual todos os governos deveriam estar interessados, porque o Papa em definitiva está ajudando a realizar o bem comum, muito concretamente”, acrescentou, em clara alusão à deputada Elisa Carrió, aliada do presidente Mauricio Macri.

A entrevista é de Elisabetta Piqué e publicada por La Nación, 22-05-2016. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Muitos acreditam que o Papa vai receber juízes argentinos nos dias 03 e 04 de junho como se a reunião fosse uma atividade política. Pode explicar do que se trata?

Sinceramente, sinto que na Argentina as coisas sempre são interpretadas de um modo provinciano. Este encontro é a continuação de um programa que o Papa solicitou à Academia, para que continue estudando as novas formas de escravidão, o trabalho forçado, a prostituição e o tráfico de órgãos. Para colocar em prática esse programa, primeiro organizamos um encontro de líderes de diversas religiões, em dezembro de 2014.

Depois houve uma reunião de prefeitos em julho de 2015...

Sim, vieram os prefeitos das cidades mais importantes do mundo, menos de Buenos Aires, devemos ser claros... Convidamos o prefeito [o chefe de governo era Mauricio Macri], mas não veio, porque disse que estava em campanha eleitoral. Sentimos muito essa ausência, porque também não mandaram uma delegação importante e foi uma coisa um pouco curiosa, porque o Papa é de Buenos Aires.

Agora pensamos que o ideal era convidar os juízes, porque são eles que têm que aplicar a lei para libertar das novas formas de escravidão tantas pessoas que sofrem. Há mais de 40 milhões de pessoas que estão, de uma ou de outra forma, nestas condições de escravidão, e parece-nos que é o mais indicado que os juízes possam trabalhar aplicando as leis que existem, comunicando suas próprias experiências, informando sobre as melhores práticas e vendo se é o caso de propor novas leis internacionais...

Trata-se de uma cúpula para tratar de um problema global, não da Argentina?

Não tem a ver com a Argentina. Quando se fala de 40 milhões de vítimas, não dizemos que estejam na Argentina, mas sabemos que em nosso país também há muitos problemas. Mas não é pensado para a Argentina. Virão também destacados juízes dos Estados Unidos, México, Inglaterra, Brasil...

Carrió criticou o deputado Gustavo Vera por ser o “operador” político do Papa porque leva até ele os juízes...

Eu diria que os problemas que ela tiver com Vera por suas diferenças são problemas deles. Conosco, Vera sempre foi um elemento de grande colaboração; trabalhou muito bem neste campo, com muita coragem. Não sei que problemas eles têm entre si. Mas o grave é a crítica ao Papa.

Por que acredita que na Argentina se interpreta mal tudo o que o Papa diz ou faz?

Não sei se é na Argentina. Penso que são algumas pessoas na Argentina. Pelo contrário, penso que na Argentina se tem grande carinho pelo Papa. Algumas pessoas na Argentina não distinguem entre um arcebispo e o Papa. E é muito curioso que critiquem tudo o que diga, porque não se deve criticar a Pedro. E menos ainda quem se diz católico e é de comunhão diária. Isso é muito curioso.

E quem são estes alguns?

Aqueles que publicamente o criticam. Não é difícil individualizá-lo, pelo menos alguma deputada... O fato de que esta pessoa critique o Papa, ela que é católica e de comunhão diária, é uma coisa terrível, porque o Papa é Pedro. Agora, se, além disso, o critica sempre, já é ridículo, porque não se pode criticar o Papa porque tem gestos de misericórdia de que não se gosta. Mas criticar o Papa por seguir o Evangelho, o programa de Cristo, das bem-aventuranças, é realmente incrível. E isto quando o Papa trata de erradicar estas novas formas de escravidão, a prostituição, o crime organizado. Todos os governos deveriam se interessar em erradicar as novas formas de escravidão, que também é um objetivo das Nações Unidas.

Também causou alvoroço na Argentina a notícia de que o Papa receberá a Hebe de Bonafini no dia 27 de maio...

Receber a Hebe de Bonafini é uma questão diferente – situa-se no Ano da Misericórdia, no qual o Papa recebe a todos. Quem pede é recebido. É outra coisa pela qual não se deve criticar o Papa. Primeiro, não se deve criticar o Papa, sobretudo quando se é católico. Segundo, não se deve criticá-lo sempre. E, terceiro, não se deve criticá-lo quando faz coisas claramente boas para todo o mundo. O curioso é que não apenas o critiquem, mas que não o apóiem completamente.

Parte da sociedade argentina está convencida de que o Papa é muito próximo do kirchnerismo, porque recebeu a Cristina várias vezes e ficou irritada porque teve um rosto sério ao receber o Macri...

Aqui é preciso julgar as coisas pelos fatos. O fato é que o Governo pediu para ser recebido e foi recebido. Se esteve de rosto sério, ou não, seria preciso ver o que o Papa estava conversando com o Macri, porque isso não sabemos. São todos temas de interpretação. Os fatos não dizem que o Papa seja cristinista, não dizem que não tenha recebido o governo argentino.

O que dizem, ao contrário, é que o Papa tem uma grande preocupação em esclarecer o tema do tráfico de pessoas e da criminalidade organizada desde a época em que era arcebispo de Buenos Aires. Digamos que o tema fundamental é a Justiça. Agora, como se pode estar contra isto? É estar contra o Evangelho! Realmente, é um escândalo que não apóiem o Papa. Não somente que estejam contra ele, mas que não o apóiem totalmente.

Os poloneses sempre estiveram completamente unidos em torno de João Paulo II...

Sim. Via-se que a Igreja polonesa fechava com ele. Agora, o Papa argentino não é um fungo, vem de toda a Igreja argentina e não se entende como não há uma solidariedade análoga à do Papa polonês, à do Papa alemão e com os papas italianos. É uma coisa curiosa.

Por que isto está acontecendo?

Aqui há realmente um provincialismo, um sentimento de ser o centro do mundo, um colocar o eu e os próprios problemas na frente dos problemas reais do mundo... Uma espécie de egocentrismo pelo qual se vê a árvore, mas não a montanha. É uma falta de horizonte que realmente é espantosa.

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