Uma Áustria dividida rejeitou um Presidente da extrema-direita

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24 Maio 2016

Alexander Van der Bellen conseguiu levar a melhor nos votos por correspondência, ultrapassando o nacionalista e xenófobo Norbert Hofer.

Uma Áustria profundamente dividida escolheu um Presidente ecologista, Alexander Van der Bellen, em vez de Norbert Hofer, o candidato do Partido da Liberdade (FPÖ), que seria o primeiro chefe de Estado europeu de extrema-direita após a II Guerra Mundial. Mas a Áustria revela-se um país profundamente dividido, a braços com a mais forte formação ultranacionalista e xenófoba europeia.

A reportagem é de Clara Barata, publicada por Público, 23-05-2016.

As credenciais de professor de Economia permitiram à direita confiar o suficiente em Alexander van der Bellen, e os dez anos de liderança do partido Os Verdes convenceram a esquerda austríaca a unir-se para fazer uma barreira eleitoral contra a extrema-direita, num país em que tal nunca existiu.

Bellen, de 72 anos, ex-líder do Partido Os Verdes, mas que se candidatou como independente, obteve 50,3% dos votos e Hofer 49,7%, depois de contados os cerca de 900 mil votos por correspondência – cerca de 14% dos eleitores – que decidiram a segunda volta das presidenciais. Há uma semana, Bellen surgia com menos seis pontos que Hofer, de 45 anos. Acabaram por ficar separados por cerca de 31 mil votos, diz o Le Monde.

Segundo os dados do Ministério do Interior, Bellen ganhou quase todas as grandes cidades, obteve 60% do voto feminino e a maioria dos votos dos eleitores com um nível de educação superior. Os candidatos da primeira volta acabaram por apoiá-lo, mas não teve o apoio oficial dos sociais-democratas nem dos conservadores. Ainda assim, a sua candidatura reivindicou quatro mil apoiantes entre personalidades do mundo político, artístico e intelectual, dando conta de uma mobilização a seu favor na sociedade civil.

Hofer ainda tentou virar do avesso esta mobilização a favor do rival: “Vocês têm a elite, eu tenho o povo”, dizia. Ganhou 86% dos votos dos operários, teve 60% do voto masculino e a preferência dos eleitores nas zonas rurais e com menor nível de educação. Segundo Le Monde, quem votou no sorridente Hofer, fê-lo porque sentiu que este político de extrema-direita compreendia as preocupações do povo e porque lhe parecia simpático.

Van der Bellen, ecologista mas fumador inveterado, atacou Hofer com uma força que poucos lhe conheciam, diz a AFP. “Você não percebe nada de Economia”, atirou ao adversário num debate. “Estou a falar-lhe da Europa: E-U-R-O-P-A, já ouviu falar?”, disse noutro debate, para tentar fazer sair do seu papel um candidato que cultiva o sangue frio e a simpatia.

Extrema-direita em força

Na Áustria nunca existiu uma exclusão das formações de extrema-direita em relação ao resto do sistema político – como aconteceu em França com a Frente Nacional (FN) durante alguns anos, embora essa barreira se tenha desmoronado, sobretudo com a liderança de Marine le Len. “O FPÖ e a FN são bastante semelhantes, disse ao jornal francês Libération Anton Pelinka, especialista em nacionalismos da Universidade da Europa Central em Budapeste (Hungria).

Mas “o FPÖ é mais aceite no seio do sistema político austríaco. Não esqueçamos que Hofer é o terceiro vice-presidente do Parlamento. E ainda hoje há acordos políticos entre o seu partido e os conservadores ou os social-democratas, a nível regional”, afirmou o investigador.

“É um alívio ver que os austríacos rejeitaram o populismo e o extremismo. Toda a Europa deve retirar aqui lições”, escreveu no Twitter o primeiro-ministro, Manuel Valls, talvez o mais ativo político francês a apelar ao combate contra a Frente Nacional.

Se o FPÖ não conquistou a presidência, mostrou de qualquer maneira a sua força – metade dos eleitores que foram às urnas na segunda volta votaram neste partido da nova extrema-direita europeia. “Seja como for, ganhámos”, proclamou Norbert Hofer, perante apoiantes. “Ou Norbet Hofer é Presidente, ou Norbert Hofer apoia Christian Strache [o presidente do FPÖ] para chanceler”, assegurou, falando de si próprio na terceira pessoa, relata o Le Monde.

A gota d'água

O que estas eleições revelaram foi o desmoronar dos partidos tradicionais: nem o Partido Social-Democrata (SPÖ), nem os conservadores do Partido do Povo (ÖVP) conseguiram fazer passar à segunda volta os seus candidatos. E o chanceler social-democrata, Werner Faymann, acossado pelas críticas, sobretudo à forma como geriu a crise dos refugiados, demitiu-se entre as duas voltas. Foi substituído à pressa por Christian Kern, que até agora dirigia a companhia nacional de caminhos de ferro, pois só estão previstas novas legislativas em 2018.

“O fenômeno é geral na Europa, os partidos do centro estão a ser ultrapassados, por não darem respostas claras às angústias do eleitorado. A tendência existe na Áustria, mas também na França, no Reino Unido, na Alemanha”, comentou a investigadora Ulrike Guérot, citada pelo Le Monde.

Perante esta falta de resposta, crescem em alguns locais os partidos xenófobos, nacionalistas, antieuropeus. “As principais divisões são de ordem política, em torno de questões como a União Europeia, os refugiados, a confiança no sistema”, disse à AFP o politólogo Thomas Hofer. Temas que têm ajudado a crescer partidos de extrema-direita em França, Suécia ou Alemanha.

A questão dos refugiados e das migrações foi como que a gota d'água que fez entornar o copo. Esteve no centro da campanha eleitoral num país de 8,5 milhões de habitantes que no ano passado recebeu mais de 90 mil pedidos de asilo, cerca de 1% da sua população. O Governo liderado pelos sociais-democratas foi pressionado pelos parceiros de coligação para fixar um limite ao número de refugiados que pode receber. No final de Abril, o Parlamento aprovou uma lei que pretende limitar a concessão de asilo – bastando a declaração de um “estado de emergência”.

As sondagens dizem que a imigração continua a ser uma das principais preocupações dos austríacos. “A vaga migratória funcionou como um catalisador, porque os problemas dos partidos tradicionais são bem mais profundos”, disse ao Le Monde Thomas Meyer, politólogo da Universidade de Viena.

Van der Bellen descreveu-se a si próprio como “filho de refugiados” – é filho de um aristocrata russo com raízes na Holanda e de uma estônia que fugiram do estalinismo na Rússia. Nasceu em Viena, mas a sua família encontrou um refúgio no Tirol, junto à fronteira da Áustria com a Itália, quando o Exército Vermelho entrou na capital austríaca, em 1945.

Na sua primeira intervenção após a eleição, o novo Presidente disse querer governar “para as duas Áustrias”. “Aprendi na minha infância que é possível vivermos juntos, apesar de sermos muito diferentes. Vou tentar conquistar a confiança dos eleitores de Norbert Hofer, porque devemos procurar boas soluções juntos”.

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