Investigação revela grupo de extermínio formado por policiais militares do Paraná

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Por: Jonas | 20 Maio 2016

A investigação conduzida por uma força-tarefa da Polícia Civil levantou evidências da existência e atuação contínua de um grupo de extermínio formado por policiais militares em Londrina, no Norte do Paraná. Os indícios apontam que a ação do “esquadrão da morte” envolvia a execução indiscriminada – sem “alvos” pré-estabelecidos –, a adulteração dos locais em que os assassinatos ocorreram e a implantação de armas junto às vítimas, para simular confrontos. O grupo teria envolvimento direto em pelo menos 17 ataques ocorridos em janeiro deste ano, que somaram 17 mortes e 17 feridos.

A reportagem é de Felippe Aníbal e Diego Ribeiro, publicada por Gazeta do Povo, 19-05-2016.

Estão presos quatro policiais militares e um publicitário – apontado como “guardador” de armas do grupo. As investigações começaram após a chamada “Noite do Terror”, em que 11 pessoas foram assassinadas e 17 baleadas, em retaliação à morte de soldado Cristiano Botino. A maior parte das vítimas estava nas ruas e algumas sequer tinham passagem pela polícia. A investigação – cujo sigilo foi quebrado nesta semana – vai apontar a relação entre os ataques e participação de policiais da 4ª Companhia da Polícia Militar (PM).

Entre as provas, está um vídeo gravado por câmeras de segurança na madrugada do dia 30 de janeiro, quando ocorreu a série de ataques. As imagens mostram o soldado Wilson Alex Bianchi desembarcando armado de um Palio e entrando em casa, na Zona Norte. O carro cruza com o rapaz, faz o retorno e se aproxima. O jovem era Wagner Honório, o “Madruga”, e foi executado por vários tiros em seguida, poucos metros além do alcance da câmera.

Pouco depois, Bianchi sai de casa e aparenta fazer uma ligação pelo celular. Em minutos, um comboio de três carros chega ao local de crime e seus ocupantes descem. A investigação destaca que os veículos chegaram alinhados em perfil “operacional” – apenas o automóvel que vinha à frente trazia os faróis acesos. O modelo dos carros bate com a descrição de veículos usados em outros ataques da “noite do terror”. Para a força-tarefa, eles seriam integrantes do grupo de extermínio.

Adulteração

Dos 17 ataques investigados pela força-tarefa, há indícios de que pelo menos sete locais em que os crimes ocorreram foram adulterados. Em todos, foram recolhidos cápsulas de projéteis, dificultando ou impossibilitando a realização de perícias - o que configura crime de fraude processual . Segundo testemunhas, uma das cenas foi adulterada pessoalmente por um capitão da PM, que teria recolhido estojos de munições. Vizinhos, no entanto, conseguiram recolher e guardar duas cápsulas, cuja numeração da base permitiu identificar que a munição pertence a um lote adquirido pela PM.

Além disso, um policial militar recolheu o aparelho que armazenava imagens das câmeras de segurança da casa onde ocorreu uma chacina em que quatro pessoas foram executadas e três foram baleadas. O equipamento jamais foi apresentado às autoridades. O agente foi reconhecido por sobreviventes da chacina como o soldado Jefferson José de Oliveira, que está preso. Outros policiais ainda teriam limpado o local, sumindo com cápsulas de projéteis.

PM afirma não compactuar com abusos

Por meio de nota, a Polícia Militar do Paraná afirmou não compactuar com abusos de seus integrantes. A instituição ressaltou que seus policiais têm “formação voltada ao policiamento comunitário e aos direitos humanos”. Por isso, a PM disse ainda que, tão logo receba “oficial e formalmente” os documentos sobre o caso, vai instaurar os processos administrativos para avaliar se os policiais permanecerão na corporação. O texto frisa ainda que será garantida a ampla defesa, o contraditório e o devido processo legal aos acusados.

 “A PM lembra ainda que os eventuais desvios de conduta não condizem com a realidade dos relevantes serviços prestados pela instituição, de modo que tais condutas não podem ser generalizadas, pois denigrem toda uma instituição e seus integrantes”, concluiu a assessoria de imprensa.
 
Sem manifestação

O advogado Cláudio Dalledone Júnior, representante dos cinco policiais presos, disse que não teve acesso integral ao inquérito e, por isso, preferiu não se manifestar sobre as investigações. “Eu repudio veementemente todo e qualquer vazamento de informações e provas relacionadas às investigações. Após ter acesso aos autos, me manifestarei à respeito”, disse.

Nesta semana, a Associação dos Oficiais da Polícia Militar do Paraná (Assofepar) convocou uma coletiva em que também criticou a divulgação de informações das apurações.

Executados não tinham antecedentes criminais

Pelo menos oito pessoas executadas nos ataques investigados pela força-tarefa da Polícia Civil nem sequer tinham antecedentes criminais. Outras nove vítimas que foram baleadas, mas sobreviveram, também não tinham passagem pela polícia. Três homens assassinados já haviam respondido por crimes graves que envolvem emprego de violência, como roubo ou homicídio.

“Meu filho nunca foi malandro. Eu ficava em cima. Nem tatuagem deixei ele fazer, porque sou de igreja e não gosto dessas coisas. Eu ficava no pé”, disse o pai de um dos jovens executados. “Ele tinha trabalhado o dia inteiro e foi numa festinha na rua de cima. Ele já estava voltando para casa quando aconteceu”, lamentou.

Entre as vítimas sem passagem pela polícia estão os jovens Allan Bonifácio Martins e Rafael Vergínio Barros, de 19 anos, que foram executados quando voltavam para casa. Eles estavam em uma moto Honda CG 125, quando foram atingidos por uma série de disparos, na Zona Norte de Londrina, na chamada “noite do terror”.

Apesar de vários disparos terem sido deflagrados, apenas um estojo e um projétil foram recolhidos. O soldado Jefferson Oliveira foi reconhecido por testemunhas como um dos primeiros a chegar ao local. Testemunhas apontaram que policiais militares empurraram projéteis e cápsulas para um bueiro. Uma vizinha recolheu um estojo e, no dia seguinte, ligou para a PM, mas teria sido orientada a “jogar no lixo” o material.

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