“Vivemos em um sistema que vende, a quem oferece o melhor preço, recursos que são de todos”. Entrevista com o bispo chileno Luis Infanti

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Por: André | 13 Maio 2016

Em conversa com a Radioanálisis, o bispo de Aysén, Luis Infanti, referiu-se à crise que se vive na região dos Lagos, fruto da contaminação ambiental que se vive na zona e que prejudicou a atividade dos pescadores artesanais do arquipélago de Chiloé.

O bispo assinou uma declaração em que diversas organizações da região de Aysén dão seu apoio à mobilização chilota, na qual identificam muitas semelhanças com o movimento que se desenvolveu na XI Região em 2011.

O texto defende que os fatos ocorridos em Chiloé “são os efeitos de um modelo de desenvolvimento e de uma industrialização planejada para explorar os recursos naturais do sul e de todo o Chile. A privatização da terra, da água e do mar foi possível porque primeiro se privatizaram as consciências e a organização social e hoje continuamos sofrendo as consequências”.

A declaração acrescenta que “esta industrialização está matando não apenas as fontes de vida e de trabalho, mas também feriu profundamente as relações familiares, sociais, as festas e as tradições culturais e religiosas dos corajosos e sacrificados povos do sul. A sede de dinheiro fácil e a ilusão do poder foram mais fortes”.

A reportagem e a entrevista são de Patricio López e Claudio Medrano e publicadas por Diário UChile, 11-05-2016. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Qual é a sua reflexão sobre o que está por trás da instalação de indústrias como do salmão que modificam os tecidos sociais das zonas onde se instalam?

Sem dúvida nenhuma, o sul do Chile experimenta justamente isso, sobretudo nestes últimos anos. Mas não houve manifestações deste tipo apenas no sul. Poderíamos dizer que todo o Chile vive a mesma situação, porque passa a ser uma terra de conquista. Vivemos em um sistema e um modelo chamado de desenvolvimento, ou de subdesenvolvimento talvez, que entrega a quem oferece o melhor preço a terra, o mar, o subsolo, o ar. Vivemos com um sistema que privatiza os bens mais necessários para a vida humana.

Em Aysén lutamos pela questão da água; agora em Chiloé também a água é um elemento chave, porque esta terra de conquista foi entregue, através de um modelo neoliberal, a quem oferece o melhor preço, que, concretamente, são as multinacionais, e que buscam não tanto o bem dos povos, mas a exploração e a depredação dos bens onde se instalam.

Em Aysén, 96% das águas pertencem à transnacional ENEL, em Chiloé, as indústrias do salmão da Noruega e chilenas vão depredando todo o sul do Chile e pavimentando o fundo do mar, paralisando sua atividade. Além do mais, estamos falando apenas da questão trabalhista e ambiental.

Que contradições vê entre a perspectiva neoliberal da privatização dos recursos naturais e a concepção cristã da criação?

É fundamental, porque uma concepção neoliberal faz com que alguns se apropriem de bens que são criados por Deus para o bem comum, são criados para todos. Então, o fato de que alguns se apropriem, marginalizando, explorando e empobrecendo outros é justamente o contrário do cristianismo. E nesse sentido estas multinacionais passariam a ser deuses, proprietários, donos; elas chegam, sentem-se donas e senhoras, porque têm o dinheiro, compram, anulam os povos, as culturas, mudam os estilos de vida.

Em Chiloé, a preocupação não é apenas com a questão da pesca; criou-se um ritmo de vida que fraturou gravemente as relações sociais, familiares, religiosas inclusive, a sesta, a cultura, as tradições. Portanto, não não se trata de ser antimoderno, trata-se de rever o modelo de desenvolvimento que queremos. Aqui falamos das salmoneras do mar, da indústria hidrelétrica, da mineração, das florestas, cada lugar do Chile, dentro deste modelo neoliberal apoiado por um governo que o favorece e potencia.

Em Chiloé aparece com muito maior clareza o que aconteceu em Aysén como movimento social, onde a única solução é dar algumas moedinhas para acalmar a sede do momento, mas o problema de fundo continua plenamente de pé.

No sul há uma cultura que está voltada para o mar. Que valores associados a essa cultura estão sendo degradados por atividades como a da indústria do salmão?

Em Chiloé, a pesca artesanal praticamente desapareceu, justamente, porque a atração e o mecanismo político-econômico neoliberal ofereceu o mar a estas transnacionais que se apoderaram de tudo. Fizeram desaparecer a pesca artesanal. Podemos ver isso claramente quando celebramos a festa de São Pedro, que é essencialmente a festa do mar e dos que se relacionam com o mar, e onde quase não se vê nem a metade dos pescadores que havia anos atrás. A pesca artesanal desapareceu e com ela todo um estilo de vida, uma cultura que não fala em voltar cem anos atrás. A industrialização repercutiu fortemente no ritmo de vida e cultural da população do sul.

Você assinou uma declaração que diz: “confiamos em que não vamos cair na tentação de vender a nossa consciência, nem nossos bens por alguns vales de alguns milhares de pesos que serão pão para hoje e miséria para amanhã”. Como se deram as negociações em Chiloé?

É, de certa forma, a atitude de todo governo. Com Aysén aconteceu o mesmo. Por isso essa frase aponta para uma experiência vivida, com um movimento social que se viu afetado pelo mesmo. Alguns lideram inclusive ficaram contentes com “docinhos” – digamos que o governo de plantão prometeu “docinhos”, certamente bons, porque se um Posto de Saúde estava sem uma ambulância ou sei lá o que mais, coisas desse tipo, bendito seja Deus que se tenha conseguido.

Mas no movimento de Aysén e em Chiloé entendo que também se vai além de ficar contente com vales que são entregues durante alguns meses. O problema não é esse; é o modelo neoliberal que trata os pobres com esmolas para deixá-los contentes por algum tempo. No entanto, a gente se dá conta de que a indústria do salmão recebeu, quando esteve em crise, muito mais que algumas moedinhas do próprio governo.

Haveria uma conduta do Estado que subsidia e favorece a indústria e ao mesmo tempo é negligente socialmente com as comunidades?

Isso é fruto do sistema. Então, para além do governo de direita ou de esquerda, que, no final das contas, são classificações ridículas, vê-se que os governos aplicam o mesmo modelo que vem desde a ditadura e que agora na democracia parece um pouco mais brando.

Neste documento que você assinou se faz uma relação entre o que acontece em Chiloé e o que poderia acontecer caso o Chile assinar o TPP.

O TPP [Tratado Transpacífico] é um tratado que chegaria a ser muito mais que um tratado econômico; facilitaria que as grandes potências se apropriem, sem que haja possibilidade de incomodar-se ou de reações indignadas dos países que assinarem o acordo.

Isso quer dizer que afetaria diretamente as leis dos países. Estamos falando inclusive de uma nova Constituição; subtrairia a capacidade de soberania que os países têm, afetaria o tema dos medicamentos, dos cultivos. Ou seja, seria uma política e uma economia manejada pelos mais poderosos e, portanto, os países mais fracos seriam submetidos a uma nova colonização a partir da economia.

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