A passagem de Mercúrio. Olhar as sombras

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10 Mai 2016

"Nos séculos passados, observar as sombras de Vênus e de Mercúrio ajudou a compreender a nossa posição no universo físico. Desde então, sabemos agora que a nossa estrela não é a única estrela e que a Terra não é o único mundo. De modo análogo, procurar as sombras de outros planetas em torno a outras estrelas ajudará a plasmar o modo de compreender o nosso lugar no universo, especialmente se descobrirmos que nossa Terra não é a única a hospedar a vida", escreve Guy Consolmagno, Diretor da Specola Vaticana (Observatório Astronômico do Vaticano), em artigo publicado por L’ Osservatore Romano, 08-05-2016. A tradução é de Benno 

Eis o artigo.

A partir das 13h12 de segunda-feira até o pôr do sol, onde quer que seja visível o Sol, os observadores poderão desfrutar, se o tempo permitir, da insólita visão do planeta Mercúrio que passa entre nós e o próprio Sol. Seu trânsito terminará às 20h42. Naturalmente, Mercúrio é tão pequeno e o Sol tão luminoso que, para ver sua passagem servirá um telescópio munido de filtros especiais. (Jamais olhar diretamente o Sol, com ou sem telescópio, a menos que se tenha uma adequada proteção para os olhos). O que se deveria conseguir ver através deste telescópio é a sombra de Mercúrio, um pequenino ponto preto que se desloca lentamente através da superf&iacu te;cie do Sol.

Os astrônomos chamam estes eventos de “trânsitos”. São importantes por diversas razões. Por exemplo, confrontando as observações de um trânsito visto de dois pontos diversos da Terra, no final se pode calcular a quantos quilômetros da Terra se encontra o planeta em trânsito; é assim que os astrônomos mensuraram pela primeira vez a dimensão do sistema solar no século dezoito. Além disso, os trânsitos de Mercúrio nos dão um modo muito preciso de mensurar a órbita deste planeta. Tem sido estas mensurações que sugeriram por primeira vez que havia algo ligeiramente distorcido na compreensão da gravitação solar de Newton que, no final, foi explicada somente com a teoria da relatividade geral de Einstein.

Mercúrio gira em torno do Sol cada 88 dias. Mas, uma vez que sua órbita é ligeiramente inclinada com respeito àquela da Terra, a maioria das voltas, do nosso ponto de observação, parece passar acima ou abaixo do Sol, em vez de atravessar o disco. Assim, a maior parte das órbitas de Mercúrio não produz trânsitos. Da Terra, o próximo trânsito, após aquele de segunda-feira, poderá ser observado em 2019, e depois será preciso esperar até 2032 para vê-lo de novo. Também Vênus orbita entre nós e o Sol e também este planeta tem trânsitos. Mas, mesmo comparando-os aos de Mercúrio, os trânsitos de Vênus são extremamente raros. O último ocorreu em 2012 e o próximo não se verificará antes de 2117. Quanto mais distante é o Sol atrás do planeta, mais se reduz a possibilidade de conseguir ver o percurso do planeta atravessar o disco solar.

Desde a invenção do telescópio, ocorrida há 400 anos, os trânsitos de Mercúrio foram 55. Naquele tempo Kepler, com suas novas leis sobre o movimento planetário, conseguiu prever quando aqueles trânsitos se verificariam: e em 1631 o padre Pierre Gassendi, conhecido filósofo francês e sacerdote católico, foi o primeiro a observar um trânsito. Por que, antes daquela época, ninguém havia jamais notado Mercúrio cobrir uma parte do Sol? Diversamente dos eclipses produzidos pela Lua, que é tão próxima a nós que consegue cobrir completamente o Sol, estes pequenos “eclipses” mercurianos cobrem somente uma minúscula fração, reduzindo para nós sua luminosidade somente de uma parte sobre 25.000.

Obviamente, os trânsitos poderiam ser vistos mais facilmente se Mercúrio fosse muito maior, ou o Sol muito menor. E o veríamos com muito mais frequência se Mercúrio orbitasse mais próximo ao Sol. Não é o caso do nosso sistema solar, mas, de fato conseguimos descobrir planetas que orbitam em torno a outras estrelas precisamente deste modo. Como se pode esperar, a maioria daqueles planetas é gigante, das dimensões de Netuno ou ainda maiores. A maioria orbita muito próximo da própria estrela. É este o tipo de planeta de órbita mais fácil de individuar. Até agora foram observados em torno de 2000 destes planetas que transitam.

Para ver planetas menores, mais próximos às dimensões da Terra, seria preciso procurar o trânsito de estrelas menores e menos luminosas. Requer-se mais tempo para obter mensurações precisas de estrelas mais débeis e por isso podem ser menos examinados à busca de planetas. E já que, como vimos, ocorre raramente que os planetas sejam alinhados de modo exato para que pareçam transitar diante de sua estrela, provavelmente eles deveriam estar muito próximos a ela. Também assim é preciso ter muita sorte para conseguir ver um destes trânsitos.

Recentemente, porém, a sorte favoreceu um grupo de astrônomos da universidade de Liége, na Bélgica. Junto aos seus colegas do Observatório de Genebra, construíram Trappist [Transiting Planets and Planetesimals Small Telescope (Planetas transitantes e pequenos telescópios adequados), entre as montanhas desertas do Chile, para realizar precisamente estas mensurações de pequenas estrelas frágeis]. Na semana passada, Michael Gillon e sua equipe relataram a descoberta de três planetas, mais ou menos da dimensão da Terra, em torno a uma estrela agora chamada Trappist-1.

O fato ainda mais entusiasmante é que todos os três planetas orbitam bastante próximo à sua nova e débil estrela tendo temperaturas de superfície que poderiam tornar possível a vida. Obviamente, descobrir se há vida continua a pertencer ao reino da fanta-ciência. Mas, não estão longe os tempos em que poderemos conseguir transformar a fantasia em fato científico. Esta estrela dista de nós somente 40 anos-luz e é, portanto, bastante próxima de modo que, dentro dos próximos dez ou vinte anos, talvez se possa conseguir ver se um destes planetas tem uma atmosfera onde procurar gazes produzidos por criaturas vivas.

Nos séculos passados, observar as sombras de Vênus e de Mercúrio ajudou a compreender a nossa posição no universo físico. Desde então, sabemos agora que a nossa estrela não é a única estrela e que a Terra não é o único mundo. De modo análogo, procurar as sombras de outros planetas em torno a outras estrelas ajudará a plasmar o modo de compreender o nosso lugar no universo, especialmente se descobrirmos que nossa Terra não é a única a hospedar a vida.

Em ambos os casos, é interessante que estamos aprendendo destes planetas não os vendo, e sim as suas sombras. Os filósofos cientistas do século XVII, como o padre Gassendi, teriam captado o eco do conto da alegoria platônica de observar as sombras numa caverna. Quanto mais aprendemos, mais somos redimensionados no dar-nos conta de quão pouco ainda sabemos da Criação de Deus.

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