Papa Francisco captura o momento histórico da Europa em premiação

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09 Maio 2016

O grande escritor argentino Jorge Luis Borges, a quem o Papa Francisco – então um jovem jesuíta – em 1968 convidou para palestrar em uma escola onde lecionava, certa vez escreveu um ensaio sobre a relação da cultura argentina com algumas tradições europeias.

O comentário é de Austen Ivereigh, cientista político e jornalista, em artigo publicado por Crux, 06-05-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Tendo absorvido milhões de seus imigrantes, construído cidades que lembram Paris e Madri e sendo marcada profundamente por ideias e pela história europeias, a Argentina faz realmente parte do ocidente, escreveu o autor em “O escritor argentino e a tradição”.

No entanto, a distância destas pessoas para com o Velho Continente e a sua abertura ao mundo significou que os argentinos poderiam tratar os grandes temas europeus “sem superstições, com uma irreverência que pode ter, e já tem, consequências afortunadas”.

É um paradoxo borgiano clássico: os argentinos, que não são europeus, estavam livres para ser leais à Europa mesmo depois que esta havia esquecido de si própria.

Borges teria se surpreendido ao ver um papa argentino recordando, com irreverência, a Europa a ela mesma. O discurso do Papa Francisco durante o Prêmio Internacional Carlos Magno, proferido nesta sexta-feira (06-05-2016), possui a bravura do Novo Mundo, porém esta é movida, sobretudo, pela dor. Quando pergunta: “Que te sucedeu, Europa mãe de povos e nações (…)?”, ele expressa uma angústia do filho americano com a traição de sua mãe europeia.

Quando viaja, Francisco identifica as sementes do Evangelho, a “alma” de uma nação ou continente e, então, apresenta uma visão desta alma como um espelho, convidando um povo a ser verdadeiro às suas próprias promessas. Para o papa, o projeto europeu, nascido das cinzas da Segunda Guerra Mundial, foi o momento em que a Europa fora verdadeira para com a sua própria alma (“Estados que se uniram, não por imposição, mas por livre escolha do bem comum, renunciando para sempre a guerrear-se”) e para com a sua vocação de construir a unidade.

Ele enxerga a Europa agora como se ela tivesse se desviado de tal vocação, mostrando sinais de desolação: voltando-se para si mesma, estando tentada aos “próprios interesses e pensando em construir recintos particulares (…), uma Europa tentada mais a querer garantir e dominar espaços do que a gerar processos de inclusão e transformação”. 

Francisco convida a Europa a se renovar não voltando à era perdida de Carlos Magno e da cristandade, mas recuperando a visão dos fundadores da União Europeia do período pós-guerra.

A descrição de Robert Schuman, Alcide De Gasperi e Konrad Adenauer como os “Pais fundadores da Europa” é um grande tapa no rosto para os céticos do continente, tais como aqueles que atualmente fazem campanha para tirar a Inglaterra da União Europeia: Francisco afasta-se da visão de uma Europa que não envolva o projeto integrador da União Europeia.

As partes mais marcantes de sua alocução são as que ele elogia a visão dos fundadores como ousada, radical, corajosa e profética: palavras que raramente se encontram nos discursos papais endereçados a líderes políticos.

Portanto, ao mesmo tempo em que se mostra cético quanto ao modo que Bruxelas construiu as instituições da União Europeia, observando que, por vezes, “as paredes da casa comum” construíram saídas que se distanciam “do luminoso projeto arquitetado pelos Pais [fundadores]”, Francisco não tem dúvidas de que a Europa somente pode se renovar voltando-se “ad fontes”, por meio daquilo que chama de uma “transfusão de memória”.

A sua visão de Europa, como o berço de um “novo humanismo” – termo que recorda o “humanismo integral” do filósofo católico Jacques Maritain, que inspirou os Pais fundadores da União Europeia –, depende da redescoberta dessa visão original e ousada.

Trata-se de um humanismo que depende de três capacidades: de integração, de diálogo e de geração.

A primeira é, essencialmente, a capacidade de sintetizar, forjar novas realidades culturais a partir de ingredientes discretos, ao se exercer a virtude da solidariedade, isto é, uma capacidade que deve “ser entendida como geração de oportunidades para que todos os habitantes das nossas cidades (…) possam desenvolver a sua vida com dignidade”.

Como sempre acontece com o Papa Francisco, cada valor (ou visão) conta com uma importante tentação que o subverte: neste caso, a “colonização ideológica”, uma rigidez do pensamento que impede a cultura europeia de se renovar.

O segundo valor é o diálogo. Francisco está convencido de que as sociedades contemporâneas devem aprender as artes e habilidades do pluralismo; aqui ele pede que a próxima geração seja equipada com as ferramentas do encontro, da negociação e da resolução de conflitos. Como aconteceu com os papas antes dele, Francisco quer ver uma sociedade civil maior, mais ousada, capaz de levar a política e os negócios a valores transcendentes. A alternativa – não enunciada por ele – é uma Europa cada vez mais dividida por ideologias e interesses econômicos.

O terceiro valor, o da geração, preenche a sua crítica famosa e irreverente feita em Estrasburgo, da Europa como uma “avó infértil” que, mais tarde ele admitiu, ofendeu a chanceler alemã, Angela Merkel.

Em vez de desfazer a metáfora, aqui ele explica-a em termos positivos: “como um filho que reencontra na mãe Europa as suas raízes de vida e de fé”. É um sonho de uma Europa “Europa jovem, capaz de ainda ser mãe”, capaz de “novamente (…) sonhar aquele humanismo, cujo berço e fonte é a Europa”.

Isto significa, especificamente, um reordenamento das estruturas e prioridades econômicas e sociais da Europa, capturadas em sua imagem de se passar duma “economia líquida” para uma “economia social”.

Uma economia líquida – o termo vem do famoso ensaio de Zygmund Bauman “Modernidade Líquida” – é aquela dominada por especulação, consumismo, desigualdade e desemprego. Citando São João Paulo II, Francisco postula uma “economia social que invista nas pessoas criando postos de trabalho e qualificação”, e que “garanta o acesso à terra, à casa, por meio do trabalho”.

Central para este futuro será a capacidade da economia europeia de criar empregos significativos para os seus jovens.

“Não podemos pensar no amanhã, sem lhes proporcionar uma participação real como operadores de mudança e transformação”, afirma Francisco, acrescentando: “Não podemos imaginar a Europa sem os tornar participantes e protagonistas deste sonho”.

O papa tem ainda o cuidado de mostrar que a Igreja europeia precisa, também, renovar-se. Como muitos líderes religiosos latino-americanos, ele acredita que esta Igreja, tendo iniciado o Concílio Vaticano II, pisou nos freios logo em seguida e que está, hoje, em declínio por consequência disso, presa na mundanidade e no medo. 

O pontífice apresenta dois sinais de um vigor renovado: uma Igreja misericordiosa, que evangeliza por meio daqueles que “vivam o Evangelho sem outras ambições”.

“Só uma Igreja rica de testemunhas poderá de novo dar a água pura do Evangelho às raízes da Europa”, diz ele.

Como os melhores discursos dos líderes, esta alocução do Prêmio Carlos Magno feita pelo Papa Francisco captura o momento histórico, dá nome à crise e postula uma saída clara para o futuro. Não há dúvida sobre como ele enxerga o futuro da Europa: recuperando a sua missão na visão profética de seus líderes do pós-guerra.

Da mesma forma como a visão que tem das reformas católicas – um redescobrir da essência de sua missão, purgada das tentações –, este apelo irreverente e amoroso de Francisco à Europa é um chamado a seguirmos em frente por um ato de recordação.

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