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Por: Jonas | 12 Abril 2016

O que Jorge Luis Borges teria comentado ao saber que seria citado em um documento pontifício? A breve menção, mais poética que entrelaçada ao tema, soma-se a outras (inclusive ao recordado filme A Festa de Babette ou a figuras como Erich Fromm e Martin Luther King) que dão à Exortação Apostólica Amoris Laetitia um tom aberto ao diálogo e mais próximo a nós que vivemos a realidade atual, com suas belezas e seus conflitos. Trata-se de algo extraordinariamente novo neste espaço. A primeira aproximação é altamente positiva, a partir do próprio título: a alegria do amor.

A reportagem é de José María Poirier Lalanne, publicada por La Nación, 09-04-2016. A tradução é do Cepat.

Os comentários jornalísticos, em geral, centram-se na questão (muito importante, certamente) da comunhão aos divorciados em nova união, que havia criado uma grande expectativa em muitas pessoas. Porém, talvez caiba assinalar antes que também este tema se inscreve nessa perspectiva espiritual e existencial que marca o acento mais inovador de toda a reflexão do Papa Francisco. A própria dimensão erótica do amor nunca foi expressa tão especificamente pelo magistério, embora já havia sido observada por Bento XVI. O que desperta interesse é que desde a sua introdução o texto adverte sobre a complexidade do tema a ser tratado e a profundidade que se exige ao fazê-lo.

Como destaca o teólogo Gustavo Irrazábal, o documento sabe se afastar das meras questões jurídicas e canônicas, ao mesmo tempo em que adverte sobre o perigo de toda idealização do matrimônio (uma interpretação muito rígida da analogia com o amor de Cristo pela Igreja), que às vezes impediu um enfoque mais analítico e diversificado.

O texto divulgado ontem é datado na festa de São José – por quem Jorge Bergoglio sempre teve uma particular devoção, curiosamente semelhante à admiração que a figura do patriarca suscita no escritor agnóstico Erri De Luca, que nos visitou há pouco -, e é publicado quando no evangelho do dia João narra a multiplicação dos pães, episódio que preanuncia a ceia do Senhor para qual todos somos chamados.

A exortação reúne muitas das questões animadamente debatidas no ano passado e no anterior, durante os dois sínodos sobre a família. Além disso, tal como se previa, desloca a pastoral sobre os católicos divorciados para as Igrejas locais, convida ao discernimento dos casais e dos pastores, e entende que o magistério universal não pode descender no concreto e específico de casos tão diferentes, em culturas muito diferentes.

Às vezes, com um estilo que os especialistas definem como um pouco confuso, porque mistura temas sem um desenvolvimento claro, oscila entre lhe dar valor objetivo e em outros momentos a destacar sua dimensão subjetiva (o grau de responsabilidade pessoal ou imputabilidade), mas acerta em ser atrativo para o leitor não especializado.

Os moralistas deverão explicar muito, os canonistas não terão tarefa fácil, aos pastores corresponderá exercer a escuta e o discernimento.

Pode passar inadvertido para alguns, mas definir que as situações irregulares neste campo (ou complexas, ou imperfeitas) não devem ser consideradas necessariamente situações de pecado grave abre caminho para uma moral da gradualidade. Neste sentido, volta-se a certas posições de Paulo VI. Também a determinante incorporação da consciência pessoal no âmbito da teologia constitui uma crítica a muitos enfoques do passado e abarca uma enorme potencialidade para o futuro. Como, além disso, quando se refere à paternidade responsável. O Papa insiste em que os sacerdotes devem ser facilitadores da graça sacramental e não controladores, porque a Eucaristia não é o prêmio dos fortes, mas o remédio dos fracos.

A exortação suscitará muito provavelmente críticas nos setores mais conservadores, quando não ultramontanos. Por outro lado, o parágrafo sobre as uniões homossexuais, que não podem ser consideradas como matrimônios, irritará outros. Não porque careça de razões para dizê-lo, mas porque sempre resulta incômodo definir algo pelo que não é.

Como oportunamente observa o Episcopado Argentino ao apresentar o documento, “sem escutar a realidade não é possível compreender as exigências do presente, nem os chamados do Espírito”. Neste sentido, a infatigável tarefa do Papa para alcançar uma Igreja mais evangélica e testemunhal encontra no presente texto um novo sinal de sua missão.

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