Qual é a responsabilidade do Islã na radicalização?

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07 Abril 2016

"Não se trata da radicalização do Islã, mas da islamização da radicalidade". Esta expressão de Olivier Roy, cientista político especialista em Islã, professor no Instituto Universitário Europeu de Florença, a propósito do jihadismo europeu, suscitou muitos comentários. Para continuar o debate sobre a dimensão religiosa da radicalização, La Croix convidou Olivier Roy para dialogar com Haoues Seniguer, professor de ciência política na Sciences-Po de Lyon.

A entrevista é de Isabelle de Gaulmyn, Anne Bénédicte Hoffner e Flore Thomasset, publicada por La Croix, 04-04-2016. A tradução é de Ramiro Mincato.

Eis a entrevista.

Depois da onda de atentados e a saída de jovens franceses ansiosos para se juntarem às fileiras do Daesh, na Síria, multiplicaram-se as iniciativas de "combate a radicalização". Este termo lhe parece apropriado? Como você o definiria?

Haoues Seniguer: Não há nenhuma definição objetiva de radicalização. O termo é espontaneamente conotado negativamente, enquanto a etimologia diz algo muito diferente: o radical é o que tem a ver com a raiz, ou com a essência da religião. No entanto, quem se refaz à "religião originária" não passa necessariamente ao ato de violência física e / ou material. No quadro do "estado de emergência" (decretado na França depois dos atentados), foram perquiridos imanes "ortodoxos". Por quê? Você pode mesmo não partilhar da sua leitura do Islã, que reivindica uma ruptura com a sociedade, mas isso não faz deles apoiadores do “terrorismo". Alimentam, no entanto, muitas vezes, um imaginário social violento, em nome do Islã, pelo menos no plano simbólico.

Olivier Roy: Efetivamente há uma confusão de termos. Em política, a radicalização consiste em rejeitar qualquer compromisso com a ordem existente e, por conseguinte, combatê-la com violência. A radicalização religiosa, no entanto, remete a uma definição totalmente diferente. Significa, acima de tudo, um retorno à essência da religião. Neste sentido, Lutero e Calvino foram radicais! Hoje, temos a tendência a acreditar que radicalização religiosa e radicalização política andam de mãos dadas. Em vez disso, elas não têm nada a ver uma com o outra: o monge cartuxo contemplativo é radicalmente religioso, mas não se ocupa de política. Um religioso “moderado" não é uma pessoa moderadamente religiosa, mas sim politicamente moderada.

Os senhores consideram, então, que há uma ligação entre as correntes fundamentalista do Islã – particularmente no salafismo - e a violência cometida em nome do Islã?

Haoues Seniguer: A religião muçulmana não predispõe à violência, não mais do que qualquer outra religião. Não há ligações mecânicas entre o texto do Alcorão, as declarações atribuídas ao Profeta (hadith), e a produção de violência. Por outro lado, existe uma forma de porosidade teológico-ideológica, devido a eruditos comentários medievais, não interrogados, entre os apoiantes de uma visão extremamente violenta do Islã – sustentada pelo Daesh - e os partidários de uma visão muito conservadora.

Atualmente, o Islã "moderado", pressupondo que a expressão tenha alguma pertinência científica, pesa muito pouco diante da "ortodoxia de massa", daquele mastodonte que é o salafismo ou o islamismo, cujos recursos financeiros explicam, em parte, o grau de penetração em escala internacional. Em contextos de friabilidade política, social, econômica, como os presentes no Iraque ou na Síria, o discurso violento pode encontrar adeptos em suas fileiras.

Olivier Roy: Toda nossa análise do terrorismo é baseada no fato de que o caminho dos terroristas começaria pelo salafismo, em seguida, passaria através do comunitarismo, pela observância da sharia, antes de cair na jihad. Mas, os terroristas que conhecemos, não passaram por um retiro comunitarístico: são não praticantes, não frequentam assiduamente a mesquita, nenhum pratica a caridade muçulmana... Não fazem um percurso linear. Não são intelectuais que leem tratados teológicos e, depois de pensar um pouco, decidem que deveriam participar na jihad. Entram diretamente na jihad e vão, então, procurar no Corão razões para agir. Por isso acho que erramos em "super islamizar" a radicalização. Por razões psicológicas e sociais aqueles jovens precisam estar no radicalismo: hoje é no Islã que vão encontrá-lo.

O senhor não vê nenhuma ligação entre a forma de radicalização em ato no mundo muçulmano e os processos de radicalização que se observam na França?

Olivier Roy: Claro que vejo. Digo apenas que o caminho dos jihadistas europeus não é teológico. Todavia, não é que eles não se importem com a religião: o Islã existe, evidentemente. Acreditam no paraíso, numa verdade religiosa. Eu escrevi que não há "radicalização do Islã, mas islamização da radicalidade". O Islã, no entanto, intervém no processo em algum momento: é preciso ler a frase completa.

Haoues Seniguer: Pessoalmente, no entanto, penso que não devemos subestimar o poder causal da ideologia. A religião, até mesmo "enlouquecida", produz sentido para aqueles indivíduos. Forma uma espécie teia de aranha ideológica. Quando os jihadistas vestem um cinto de explosivos, isso faz sentido para eles. Trata-se precisamente de uma adesão de fé muito forte.

A dimensão sacrificial, além do mais, é extremamente forte em suas argumentações...

Olivier Roy: O jihadista sabe quem vai morrer e que vai para o céu. É isto que o fascina. Tareq Oubrou, íman de Bordeaux, muitas vezes definiu estes jovens como "religiosos indolentes": Em vez de passar 40 anos, rezando 5 vezes por dia, se fazem explodir para ir diretamente para o céu. Explicam a seus pais que os salvam por seu sacrifício... Isso, então, assumem uma dimensão de redenção para todos os pecados de seu entourage. A força do Daesh vem da capacidade de criar uma narrativa que combina um forte imaginário islâmico com a cultura jovem contemporânea. O Daesh coloca no mercado um mundo virtual em que os papéis são invertidos: o jovem proscrito e discriminado, torna-se o mestre e o salvador do mundo.

Haoues Seniguer: O aspecto religioso está, de fato, particularmente presente na dinâmica dos executores, na medida em que, é o religioso que os tranquiliza, no momento de cometer seus atos. No entanto, o aspecto religioso não explica tudo. Alguns, entre os muçulmanos franceses, se identificam com as populações vítimas de Bashar Al-Assad: têm a sensação - questionável - que a França tenha se preocupado com o destino da Síria somente quando foram ameaçadas minorias, ou quando as ruínas de Palmira estavam prestes a ser destruídas.

Há também, por vezes, entre os muçulmanos franceses, um sentimento de degradação, de abaixamento, por causa de sua religião, que certos intelectuais, como Gilles Kepel, se recusam a ver, e isso me preocupa. É preciso ter em mente este sentimento de discriminação no processo de radicalização. É preciso ter bem claro os dois extremos da sequência explicativa: há, sim, islamofobia e há sim, também, a violência simbólica mantida por pregadores ou teólogos muçulmanos, que denunciam seja a islamofobia, seja o terrorismo.

Qual é a responsabilidade dos teólogos muçulmanos, dos imanes, em face desse fenômeno?

Olivier Roy: Eu acredito que os imanes têm responsabilidade não causal, mas moral. Não são eles que fabricam os jihadistas, é claro, mas não podem nem mesmo evitar o debate, na medida em que estes jihadistas, no entanto, referem-se ao Islã. Os imanes devem ser capazes de responder à pretensão desses jovens de agir em nome do Islã. De acordo com Tareq Oubrou, isso significa "fazer teologia preventiva".

Haoues Seniguer: Dizer que "não é o Islã", e que "o problema não é religioso", é uma maneira de não ver as intersecções entre as correntes legalistas, tradicionais, e as correntes violentas do Islã. Ao mesmo tempo, seria errado colocar todo o peso somente sobre a comunidade muçulmana. Trata-se uma responsabilidade coletiva.

Olivier Roy: Os atentados de fato revelaram todo o paradoxo da laicidade à francesa: rejeita-se a religião no espaço público, mas se critica os muçulmanos de não falarem, primeiramente, como muçulmanos, quando se trata de condenar os atentados.

Haoues Senigue: É absolutamente verdadeiro. Atribui-se aos muçulmanos uma comunidade, que os desaprovamos por ter! Depois dos atentados na França, todo muçulmano, de alguma forma, foi fortemente convidado a pronunciar-se. Muitas vezes, penso em Jacques Maritain: é preciso agir como "cristão", e não "enquanto cristão".

É a mesma coisa para os muçulmanos, especialmente para os teólogos e pregadores sunitas, que deveriam, na minha opinião, aceitar mais esta distinção, num discurso, muito frequentemente, politizado. Quanto mais a religião é politizada, mais se cavam sulcos que alimentam o conflito.

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