Contradição: violência contra mulheres em lares religiosos (IHU/Adital)

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04 Abril 2016

Todos os anos, centenas de mulheres sofrem violência de todos os tipos, dentro ou fora de casa, no Brasil. Os casos mais extremos levam o país a ocupar a quinta posição no ranking mundial de assassinatos de mulheres, segundo demonstra o Mapa da Violência 2015: Homicídio de mulheres no Brasil. Apesar de ser uma realidade que vem desde a Antiguidade e atinge vários países, é curioso perceber que muitas dessas mulheres são religiosas e vítimas de parceiros igualmente religiosos.

A entrevista é de Paulo Emanuel Lopes, publicada pela Adital, 01-04-2016.

Neste sentido, como um país onde cerca de 80% da população é cristã pode praticar tanta violência contra suas mulheres? Para responder a esta e outras perguntas, a Adital conversou com Ester Lisboa, coordenadora da Rede Religiosa de Proteção à Mulher Vítima de Violência e assessora da Koinonia – Presença Ecumênica e Serviço. Assistente social por formação, Ester afirma que a maioria das mulheres atendidas por situações de humilhação ou violência física é evangélica, "vitimas de seus parceiros, que ocupavam cargos de liderança em suas igrejas”, o que contradiz ao princípio da misericórdia e do amor pregado pelas religiões. "Então, somos um país religioso, mas absurdamente machista, impiedoso e conservador”, analisa.

Segundo ela, parte do problema é provocado pelo conservadorismo de algumas denominações, que ainda seguem o conceito de que a mulher deve apenas obedecer ao marido e não se expressar. E, apesar de ter um caráter moralista, a religião, muitas vezes, não regula a moral, "muito pelo contrario, legitima e silencia os atos de violência”. No entanto, embora ainda se enfrentem muitos obstáculos, as mulheres vêm conquistando espaços dentro das comunidades religiosas, nas últimas décadas. "O mundo gira, comportamentos surgem, novas regras se impõem. O novo é inevitável, as mudanças virão”, prevê.

Eis a entrevista.

O Brasil é um país onde mais de 80% da população se declara cristã. Entretanto, amargamos a desagradável posição de ser o quinto país no ranking mundial de homicídios de mulheres (Segundo dados do Mapa da Violência 2015: Homicídio de mulheres no Brasil). Esta não é uma constatação contraditória? A religiosidade brasileira, ao contrário de contribuir para o empoderamento das mulheres, estaria servindo para justificar ou mesmo encobrir as agressões sofridas?

Por mais incrível que possa parecer, a religiosidade brasileira legitima e silencia as situações de violência sofrida pelas mulheres. É intrigante ver como homens de Deus, como São Paulo, por exemplo, dizia: "Que as mulheres estejam caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido falar. Se quiserem ser instruídas sobre algum ponto, interroguem em casa os seus maridos”. Esse comportamento tão longínquo transparece nos comportamentos até os dias de hoje. Quando coordenei o Centro de Referência da Mulher, em São Paulo, notei que a maioria das atendidas por situações de humilhação e violência física eram mulheres evangélicas, vítimas de seus parceiros, que ocupavam cargos de liderança em suas igrejas. A principal pergunta era: Como um homem que prega o amor pela família e fala de misericórdia pode ser rude dentro do seu lar? A resposta, talvez, seja: aprendeu assim, a vida vem lhe mostrando que a mulher é um ser inferior, como já dizia Paulo. Então, somos um país religioso, mas absurdamente machista, impiedoso e conservador.

Seguindo o raciocínio anterior, apesar das revoluções vividas durante o século XX, como a independência feminina e sexual, por que os tabus religiosos ainda são tão fortes na sociedade? Esta é uma realidade em evolução ou o fundamentalismo religioso, adotado por alguns líderes cristãos, vem alterando o rumo dessas mudanças?

Uma das funções da religião é regular a moral. Decodificar religiosidade como santidade e o que for contrário disto é pecado, é uma das maiores crueldades das religiões. O fundamentalismo gosta de lembrar que, nas sagradas escrituras, está escrito que o salário do pecado é a morte, mas não diz que o amor é mais forte do que a morte. Portanto, os discursos fundamentalistas estão fadados a perderem a credibilidade porque a religião não regula a moral, pelo contrário, legitima e silencia os atos de violência.

Como coordenadora da Rede Religiosa de Proteção à Mulher Vítima de Violência, através de rodas de conversa com mulheres de diferentes religiões e idades, vocês procuram conhecer e orientar sobre casos de abusos e/ou violência. Quais histórias você observa que mais se repetem? Você poderia exemplificar com um caso que lhe chamou a atenção?

Temos realizado rodas de conversa em várias comunidades religiosas, cristãs e não cristãs, e, infelizmente, em todas, ouvimos pelo menos uma história de violência sofrida por mulheres engajadas e companheiras de líderes religiosos. Lembro do caso de uma senhora, já com seus 72 anos, casada há 55 anos com um homem truculento, pastor e líder renomado na denominação, com três filhos. Essa senhora, cansada de ser maltratada psicológica, física e patrimonialmente, começou a desenvolver doenças psicossomáticas e resolveu se separar. Qual a surpresa: o marido não permitiu e os três filhos também não a apoiam. Ou seja, a violência doméstica já ultrapassara as gerações, os filhos a violentaram emocionalmente. Essa senhora, hoje, está intern ada, com quadro clínico grave. Talvez, tenha um culto em sua memória quando ela morrer.

Ainda em relação ao projeto citado, como se dá o processo de retorno dessas mulheres às suas casas e companheiros? Há uma modificação, sob o ponto de vista religioso, da percepção sobre a violência sofrida? Ou seja, como as mulheres reagem após participarem das conversas?

Esta é a nossa grande preocupação. Algumas comunidades prestam assistência a essas mulheres, criando ações específicas de acolhimento e orientação. Geralmente, após as rodas de conversa, algumas vêm me procurar e a nossa postura é ouvir tudo que têm para contar, e encaminhamos para a rede de enfrentamento do município. Algumas mulheres reagem positivamente e, após a superação da violência, se dedicam a ajudar outras mulheres. Algumas pastoras têm assumido o tema como ministério profético e de proclamação.

As grandes religiões do mundo ocidental são, predominantemente, patriarcais, nas quais as mulheres sequer podem ser sacerdotisas. Esse ‘poderio’ masculino na hierarquia religiosa parece referir-se a uma interpretação de que Jesus teria escolhido como discípulos apenas homens, e teria elegido um homem, Pedro, como primeiro Pai (Papa) da Igreja Cristã. O que a Teologia e as demais Ciências Humanas têm a dizer, hoje, sobre quem é a mulher e qual seu papel na Igreja?

Faço parte das militantes feministas ecumênicas, das antigas. (risos) Atuei na primeira década ecumênica das mulheres, promovida pelo Conselho Mundial de Igrejas, e continuei na segunda. Atuo na Pastoral de Mulheres e Justiça de Gênero do Clai – Conselho Latino-Americano de Igrejas, desde 1999. No início, foi como abrir uma trilha dentro das normas e dogmas das igrejas. Nos últimos 30 anos, as mulheres vêm assumindo cargos de poder e colaborando nas decisões de algumas comunidades religiosas. Não sou pastora, não sou teóloga, mas sou uma mulher indignada com as injustiças sociais, e uma delas sempre foi em relação ao papel da mulher na sociedade e nas igrejas. As comunidades religiosas cristãs e não cristãs terão que aprender a respeitarem todas as pessoas e aqui acrescento as mul heres transexuais, travestis, lésbicas e cisgêneras.

Na Igreja Católica, por exemplo, o papado de Francisco vem tentando abrir algumas portas, como aos homossexuais e a uma participação mais central das mulheres. Entretanto, a resistência encontrada por Francisco demonstra que uma boa parte da Igreja não está disposta a mudanças. Nesse início de século XXI, como está sendo a busca das mulheres por mais participação nas religiões do mundo? E por que há tanta resistência?

Sempre entendi resistência como o ato de não abrir mão dos meus conceitos. Não repensar, não permitir que alguém, ao pensar diferente, se sobressaia. Entendo tudo isso como uma grande ilusão. No passado, os filhos jamais viam os pais nus, hoje, tomam banho juntos. Antigamente, a família expulsava e negava a existência de um filho efeminado, hoje, começam a entender as diferentes identidades sexuais. No passado, um gay não podia frequentar uma comunidade religiosa cristã, hoje, temos igrejas inclusivas, dirigidas por homens e mulheres trans. Ou seja, querendo ou não, as relações mudam. As crianças começam a enxergar o mundo de forma diferente. O mundo gira, novos conceitos e comportamentos surgem, novas regras se impõem, novos modelos de família se configuram. O novo é inevitável, as mudanças virão, com certeza. Graças a Deus!

Para finalizar, gostaria que você deixasse uma mensagem de incentivo às mulheres que constroem a Comunidade Cristã leiga no mundo, a chamada "Igreja de base”, enfatizando quais atitudes, hoje, contribuirão para uma Igreja mais aberta no amanhã.

Que responsabilidade! Aprendi, nesses meus 53 anos de vida, que a convivência com o outro e a outra são as maiores riquezas. Tenho contribuído na execução de um programa voltado a atender a 200 mulheres e homens trans. Que aprendizado diário! Que histórias de vida exuberantes! Que fé e esperança!Então, minha mensagem é: se permitam viverem diferentes experiências, se permitam conviverem com todas as pessoas, por mais estranhas que possam parecer, você sempre achará a chama Divina dentro delas, e assim a sua chama Divina nunca se apagará.

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