Manifestações: potência ou ameaça?

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01 Abril 2016

Homero Santiago propõe uma reflexão sobre as manifestações de rua segundo critérios que ajudam a pensá-las enquanto avanços ou retrocessos da multidão na Metrópole

Homero: “a marca do movimento social é o confronto ao poder constituído”
Na segunda conferência de Homero Silveira Santiago, professor da Universidade de São Paulo – USP, no 3º Ciclo de Estudos Metrópoles, Políticas Públicas e Tecnologias de Governo. Territórios, governamento da vida e o comum, realizada na noite de quarta-feira, 30-03, uma inquietação tomou conta da plateia. Afinal, o que são e como entender o que realmente querem esses movimentos que vêm levando brasileiros para as ruas, seja para defender ou atacar o governo de Dilma Rousseff? Para compor um cenário que ilumina a busca pela resposta a essa questão, Homero propõe pensar a partir de outra pergunta: “Movimentos sociais e a multidão nas metrópoles são potência ou ameaças?”.

O professor entende que a representação política faz uma separação entre o social. “Um grupo (representantes) pode agir politicamente e outro (social) não. É assim que se constitui um poder estático, como que pairando sobre o social. E isso ignorando as mobilizações sociais da vida”, reflete. Assim, o poder assume a face de uma ordem formal e legalista, justificando “o afogamento das ações políticas que emanam do interior da sociedade, do social”. Homero acredita que o poder não é realmente essa forma estática que se apresenta, mas sim algo em movimento por ser produto da vida social. “Ele pode estagnar-se ou seguir em movimento. E esse movimento tem como combustível o confronto, aquele promovido pelo movimento social”.

Assim, percebe-se a defesa de Homero por um poder em movimento, e não aprisionado pela estática da institucionalidade. E essa circulação vai se dar a partir das ações dos movimentos, o que podemos compreender hoje pelas manifestações de rua – seja defendendo um lado ou outro. Mas pode haver algo de perverso nisso. Não é porque há tensões pela circulação de poder, levando pessoas para as ruas, que um novo modelo pode surgir e ocupar o espaço de um sistema já corrompido. Há uma diferenciação nessas tensões que buscam a circulação. “O confronto tradicional usa o povo como joguete, é a política feita pelos poderosos, aqueles que já detêm o poder e querem se legitimar enquanto representantes. Nos movimentos sociais (típicos da Multidão na Metrópole) isso se dilata e há várias batalhas que pipocam”, esclarece. Para Homero, “a marca do movimento social é o confronto ao poder constituído”, mas sempre de forma anárquica (no sentido plural), e não buscando uma unidade através de supressão.

Como olhar para uma manifestação

Depois de mais de uma hora de fala, o professor é provocado a pensar o que está por trás das manifestações de junho de 2013, da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, de 1964, e das manifestações que levam para rua os que defendem e os que são contrários ao impeachment da presidente Dilma Rousseff. Homero explica que para refletir sobre isso é necessário pensar na dicotomia “potência ou ameaça”. “Há algo de positivo aí, as pessoas gostaram de ir para rua e estão discutindo política. Mas é preciso também pôr alguns problemas”, diz.

Homero propõe três critérios para olhar as manifestações
Assim, para quem quer olhar com mais vagar para as manifestações que hoje estão nas ruas, o professor propõe uma metodologia de análise que pode iluminar a reflexão sobre quem representa uma ameaça ou uma potência. É o que chama de “três critérios”:

1) Homero propõe que se pense se a política posta na manifestação busca ampliar a movimentação do poder ou restringir essa circulação. “Veja o exemplo da Marcha de 1964. Era manifestação e fazia um movimento, mas buscava restabelecer uma ordem restringindo uma circulação de poder”, explica.

2) Ao olhar para uma manifestação de rua, o professor propõe que se pense: “há violência”? “Mas é importante se pensar que tipo de violência. Eu me refiro àquela que busca a supressão do outro, do movimento político. É quando a solução é suprimir a existência de um grupo, do outro”.

3) Ainda, Homero diz que é preciso que se avalie se há comunicabilidade. É pensar se a manifestação se arma a partir das reivindicações (usando-as como um representante que eleva a pauta, como discurso anticorrupção) ou como algo que emana do coletivo. “O comunicável, nesse caso, é aquilo que emana do coletivo e se torna um direito, e não apenas aquilo que se levanta como um privilégio de determinado grupo”.

Por fim, Homero Santiago reitera algo que perpassa suas duas conferências do 3º Ciclo de Estudos Metrópoles, Políticas Públicas e Tecnologias de Governo. Territórios, governamento da vida e o comum: “é importante que se pense que há outra política que passa por outros lugares. A política não é o mesmo que representação”.

O próximo encontro do 3º ciclo Metrópoles ocorre no dia 19 de abril. Francisco de Guimaraens, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio, ministrará as conferências “Poder Constituinte e Sujeito Constituinte nas metrópoles: um olhar a partir de Spinoza e Negri: um olhar comparado”, à tarde, e “Fundações ontológicas e éticas da política e do direito: um olhar a partir de Spinoza”, à noite. Confira mais detalhes.

Homero Silveira Santiago

Graduado, mestre e doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo – USP. É livre docente pela USP, onde leciona no departamento de Filosofia. É um dos organizadores de As ilusões do eu: Espinosa e Nietzsche (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011) e autor de Amor e desejo (São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011) e Espinosa e o cartesianismo. O estabelecimento da ordem nos 'Princípios da filosofia cartesiana' (São Paulo: Humanitas, 2004).

Por João Vitor Santos

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