Um Jesus revolucionário e um intelectual importante para hoje

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28 Março 2016

Marcus Mello destaca a figura de Cristo retratada por Pasolini e o próprio cineasta como personagens que, pela trajetória, incitam e iluminam reflexões sobre os dias atuais

A Páscoa sempre é um momento de recomeço e daí a analogia com a ressurreição do Cristo. Entretanto, muitas vezes, essa ressurreição é tomada apenas como milagre, algo só cabível a divindades. O Jesus humano muitas vezes fica inebriado na perspectiva da fé e a conexão com os dias de hoje, com os problemas que são pertinentes no agora, cada vez mais distante. A exibição e debate do filme “O Evangelho Segundo São Mateus” (1964), de Pier Paolo Pasolini, com o professor Marcus Mello, foi atrás desse movimento: aproximar a figura do filho de Deus com uma reflexão sobre o momento que se vive no Brasil e no mundo. “O Jesus retratado é um revolucionário. E é construído por um diretor ateu como Pasolini, que tem sua história de vida cheia de significados”, destaca o professor e crítico de cinema.

Pasolini buscou rostos comuns na periferia italiana

Por isso, antes entrar no filme e nesse retrato do Cristo, Marcus propõe uma olhar sobre a vida de Pier Paolo Pasolini. “Isso é importante para entendermos a construção que ele faz dessa história de Jesus”, explica. Cineasta, poeta e escritor, Pasolini se intitulava marxista e vivia num contexto político que punha a Itália – e até o mundo – numa guerra contra o fascismo. Homossexual, foi forçado a sair de sua casa e de seu partido, morrendo em 1975 num nebuloso assassinato – primeiro havia notícia de crime passional e depois se soube do cunho político de sua morte. “São passagens que retratam o carácter marginal do intelectual que se torna uma das figuras mais interessantes do século XX”, analisa Marcus.

Pasolini produziu filmes que, por uma possível associação com relatos bíblicos, irritaram a Cúria Romana. Entre eles, Mamma Roma (1962), em que figura de uma prostituta pode ser associada a Maria e seu filho marginal a Jesus. “Buscar a cinematografia de Pasolini é interessante para ver o contexto em que foi lançado ‘O Evangelho Segundo São Mateus’. Ele havia produzido filmes que foram execrados pela Igreja e que até levou à prisão”, destaca o professor. “Para surpresa de todos, o filme é muito bem recebido tanto pelo público como pela Igreja. ‘O Evangelho Segundo São Mateus’ chegou a ser considerado como um dos que melhor representa a vida de Jesus Cristo. Por essa produção, Pasolini recebeu o Grande Prêmio da Oficina Católica do Cinema”.

A exibição e debate do filme “O Evangelho Segundo São Mateus”, com Marcus Mello, ocorreu na Semana Santa, dentro da 13ª Páscoa IHU, que nesse ano tem o tema “O cuidado de nossa Casa Comum”. O ciclo tem ainda uma série de atividades até o dia 3 de maio. Confira a programação, que é toda gratuita.

Uma história dada ao cinema

Poucas falas e expressões valorizadas no filme

Marcus Mello destaca que as histórias bíblicas sempre foram vistas como matéria prima para produções cinematográficas. “Isso se dá desde o cinema mudo e chega até a Paixão de Cristo (2004), de Mel Gibson. O filme de Pasolini ainda veio depois de grandes sucessos como Ben-Hur (1960) e o Rei dos Reis (1961). Por isso, é importante observar no que se difere dessas grandes produções”, provoca o professor. Marcus entende que a proposta de Pasolini é justamente romper com essa ideia de produções com orçamentos milionários e recheadas de estrelas hollywoodianas. “Ele quer mostrar uma história que era conhecida de uma forma nunca vista. Por isso, vai ao texto do Evangelho de São Mateus. Mesmo ateu, Pasolini reconhece o valor literário e de poesia desse texto bíblico e por isso baseia seu roteiro nele”, explica.

E a mensagem do diretor ainda vai além. Mesmo numa época em que filmar em preto e branco não era mais comum, Pasolini opta por um filme em P&B. “Ele também vai buscar um elenco de atores desconhecidos, quer que os personagens tenham traços comuns, de gente do povo. Ele vai à periferia italiana em busca dessas pessoas”, conta. É o que leva a escolher um jovem estudante espanhol (Enrique Irazoqui), que o procura para uma entrevista, como o rosto de Cristo. “Ele também chama alguns amigos escritores para o filme, assim como sua própria mãe que dá vida a Maria mais velha”, completa Marcus. Os cenários naturais da periferia italiana e os enquadramentos baseados em quadros de figuras e passagens sacras completam a teia de significados de Pasolini.

Não divindade, ser humano

“É interessante observar como, por todos esses fatores, Pasolini cria um Jesus marxista, revolucionário. Apesar de ateu, ele toma o Evangelho como texto literário e acredita no sentido político do personagem, aquele Jesus que enfrenta o poder do capital, que quer uma sociedade mais igual e se estimula o povo a se insurgir contra seu dominador”. Essa é a mensagem que Marcus Mello realça a todo instante em sua fala. Para ele, somente alguém com as posições políticas de Pasolini seria capaz de apreender essa imagem do Cristo.

Enquadramentos inspirados em pintores italianos

No filme, o diretor ainda descontrói a imagem sacra do filho de Deus com a trilha sonora. “O filme começa e encerra com música africana. Ele usa música clássica, como sempre foi a tradição nos filmes bíblicos, mas mistura com sons da África e dos Estados Unidos, música gospel de negros norte-americanos”, destaca Marcus ao lembrar que este é mais um elemento usado para deslocar o filme, chamando atenção para pobres e marginalizados de outros países. “E por isso também Jesus é sempre retratado como líder revolucionário, capaz de incitar o povo contra opressão”, completa.

Para o professor, “O Evangelho Segundo São Mateus” é um emaranhado de significados que podem inspirar muito o momento político que se vive hoje, essencialmente no Brasil. “Na figura de Pasolini percebemos a possibilidade de entendimento entre os diferentes. Ateu, marxista, é capaz de rodar um filme de uma história bíblica em que dedica à memória do papa João XXIII. Depois, pela sensibilidade em representar o Jesus revolucionário, é elogiado pela mesma Igreja que o execrou”, analisa. “Hoje, no Brasil, vivemos situações muito conturbadas, cheias de polarizações e impossibilidades de diálogos. Da vida de Pasolini e do Jesus que retrata, fica o exemplo de que é possível o diálogo. Por isso, o considero um intelectual importante para os tempos que vivemos”.

Marcus: "Da vida de Pasolini e do Jesus que retrata,
fica o exemplo de que é possível o diálogo"

 

Marcus Mello

Crítico de cinema, é um dos editores da revista Teorema. Formado em Letras, é Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS e especialista em gestão cultural pela Universidade de Girona, na Espanha, em curso realizado em parceria com o Itaú Cultural de São Paulo. Funcionário da Secretaria da Cultura de Porto Alegre, entre 2000 e 2013 foi programador da Sala P. F. Gastal, na Usina do Gasômetro. Desde maio de 2013, é Coordenador de Cinema, Vídeo e Fotografia da Secretaria da Cultura de Porto Alegre, e atualmente também responde pela direção da Cinemateca Capitólio, inaugurada em março de 2105. 

Membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema - ABRACCINE. Tem artigos publicados nos livros Cinema dos Anos 90 (Editora Argos, 2005), Cinema Mundial Contemporâneo (Papirus Editora, 2008), Os Filmes que Sonhamos (Lume Filmes, 2011), Irmãos Coen: Duas Mentes Brilhantes (Caixa Cultural, 2012), Cinema sem Fronteiras – 15 Anos da Mostra de Cinema de Tiradentes: Reflexões sobre o Cinema Brasileiro 1998-2012 (Universo Produção, 2012) e Hitchcock é o Cinema (Fundação Clóvis Salgado, 2013), entre outros.

 

Confira o trailler de O Evangelho Segundo São Mateus, de Pier Paolo Pasolini.

Por João Vitor Santos | Fotos: Nahiene Alves e Ricardo Machado

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